A PARCIMÔNIA DO DESCONVÍVIO

Foto de João Cabral de Melo Neto na cerimônia de posse na ABL, em 1968

Eu queria explicar que até mesmo João Cabral de Melo Neto vacilou, ou ao menos brinca, ele em responder uma carta recebida de Carlos Drummond de Andrade, veja:

Meu caro Carlos Drummond de Andrade,

Eu estava para lhe escrever desde a minha volta ao Recife. Não o havia feito até agora, porém, não só com o receio de provocar uma correspondência que bem sei inoportuna, como também por adivinhar que não me poderia ver livre, nem mesmo numa carta, de certa dificuldade de comunicação que me é particularmente penosa, principalmente tratando-se de uma das pessoas com quem mais no mundo eu gostaria de vê-la desaparecer.”

Quis, recurso acima, não me comparar a João Cabral, que dirá meu interlocutor a Drummond. Sim apenas elucidar que: a dificuldade de comunicação na hipótese da construção da amizade, deve ser superada. Não o sendo, o respeito pela dificuldade do outro deve prevalecer. Que ninguém deve se sentir compelido a fazer nada, senão no seu ritmo.

Ter um interlocutor exclusivíssimo era demasiada pretensão minha, também, que agora abandono. Reduzo, neste instante, o meu número de leitores (antes eram dois) a um, me basto. Chega de ocupar tempo e espaço alheios.

Dito isso, registro que costumo ouvir, vez e outra, transmissão, no YouTube, da Academia Brasileira de Letras. É missão patriótica de longo prazo conhecer os ocupantes das cadeiras, e os que os precederam nas que ora ocupam. Outro dia eu acompanhava on line uma cerimônia de posse, alguém lá dizia que para ser membro da academia seria preciso, antes de tudo, ser de boa convivência, era o caso do novo imortal consagrado.

Tenho para mim, das minhas pesquisas, que se aplica a João Cabral de Melo Neto ser de boa convivência, com quem convivia. O problema é que João Cabral, obviamente, não convivia com quem ele não convivia, seja por quais motivos. Fruto disso, ousam então dizer, dedicou inúmeras poesias, mas não sabia a quem dedicar seus livros – só poucas vezes. Deve ter-se perguntado, de forma recorrente – e são trinta publicações -, a quem dedicar? Alguma parcimônia neste quesito era necessária. Dedicar a amigo? Dedicar geograficamente? Optou por não se dedicar tanto a isso, estabeleceu e utilizou um critério, agora que se foi – lá se vão vinte e dois anos -, quem não conviveu com ele afirma que não convivia.

Me identifiquei muito com este não convívio. Tive, até ontem, um único interlocutor e mesmo com ele poucas vezes me entendi. Passei a ser minha única leitora, na troca de turno, facilito a vida do público, eu acho… Que também não custa pensar melhor a respeito, mais adiante, estou só me adiantando. O ser que se quer perfeito precisa aprender a lidar com seus adiantamentos. Quem sabe eu devesse me inscrever numa oficina literária, como meu interlocutor sugere, fazer novos amigos. Acontece que me orgulho de ter poucos amigos. Os que tenho são para sempre enquanto dure; os novos, a gente nunca sabe.

“Compreende?”

A HISTÓRIA DA JORNALISTA FRACASSADA

Recorto – das minhas leituras em espanhol – fala que encontro de Katherine Mansfield*: debe uno despertar a las cosas, en vez de discurrir sobre ellas. É preciso acordar para as coisas, em vez de raciocinar sobre elas. São palavras de uma jovem gravemente enferma dos pulmões, cujo fim se aproxima. Um homem sábio, conhecendo do seu estado, a acolhe, a pedido de amigos de dar a ela a última alegria. Muito adiante alguém se referirá a este homem afirmando que o valor de uma influência espiritual é medido pela qualidade das obras que ela inspira.

Pós-guerra, primeira metade do século vinte, não existiam canais digitais, o mundo buscava por algo. O influenciador a que me refiro usou da música, da dança, de seu modo peculiar e particular de se conduzir pela vida, viajar e trabalhar, para tentar oferecer, ou subtrair das pessoas, as certezas tão desejadas. Último recurso, se submeteu ao ofício de escritor “com esta espécie de habilidade artesanal que lhe havia permitido em sua juventude aprender tantos outros ofícios” – nota de editor.

O método consistia em alguém anotar a fala e, terminado um capítulo ou concluída a narração de uma história ou pensamento, ler para as pessoas ao redor, vigiando as reações. Instruído por tal experiência, modificar as anotações. Repetir a prova tantas vezes como fosse necessário. E se a vida insiste em se esgotar, saúde frágil, nem por isso o escritor sucumbiu aos prazos, à pressão da pressa. Trabalhou nas revisões por uma dezena de anos, tendo três objetivos:

  • Extirpar as crenças e opiniões arraigadas no psiquismo dos homens acerca de tudo que existe no mundo;
  • Fazer conhecer o material necessário para uma reedificação e provar a qualidade e solidez do mesmo;
  • Favorecer no pensar e no sentimento do leitor a aparição de uma representação justa, não fantasiosa, do mundo real.

Tendo eu lido de Gueorgui Ivánovich Gurdjieff o seu Encuentros con hombres notables, livro esotérico, temo ter encontrado, senão sabedoria, preciosas lições acerca das finanças pessoais de um viajante aventureiro, que saiu da Ásia, viveu na Europa e viajou para América, num tempo em que isso parecia impossível para um homem nascido pobre.

Me lembrei deste livro ao assistir a minissérie da Netflix Inventando Anna. Quase quis acreditar que o fracasso retumbante, que culminou na prisão da golpista, teria sido evitado se Anna tivesse lido Gurdjieff e aprendido com ele algumas habilidades – a de costurar, por exemplo!

Muitos homens notáveis, seja pelo trabalho, a boa índole, o bom coração, o poder de convencimento, a oratória, a forma arrojada de viver, investir, escrever ou outras façanhas, enganaram outros homens. São parte da história do mundo. Anna Sorokin, herdeira pobre de família pobre alemã, é a versão feminina noticiada. A jovem ficou famosa por seus golpes financeiros com cartão de crédito e por se submeter a experimentos midiáticos através do aplicativo de postagem de fotos Instagram. Teve o resultado da experiência compilado por terceiros – jornalista, advogado, Ministério Público.

Jessica Pressler, personagem Vivian Kent na minissérie, a jornalista fracassada, é a responsável pelo artigo que contou ao mundo a história de Anna. Estudo, pela TV, o método de trabalho que ela teria adotado: mesmo sistema artesanal dos que o auxiliaram e do próprio Gurdjieff. Foi preciso intuir, ouvir, anotar, pesquisar, entrevistar, investigar o minucioso e equivocado raciocínio dos por fim retratados, registrar a percepção inicial e a reação aos fatos, o despertar dos envolvidos. Jéssica nos faz o favor maior de ser uma destas almas que trabalham duro, não desistem diante de negativas e cujo valor de influência é medido pela qualidade das obras que inspira. Mulher notável.

(*) Pseudônimo de Kathleen Mansfield Beauchamp, 1888-1923, Katherine Mansfield foi apresentada ao Brasil na década de 1940, por meio de Felicidade, coletânea de contos traduzidos por Érico Veríssimo. Ouça o conto Felicidad, em espanhol, muitíssimo bem narrado neste link: https://www.youtube.com/watch?v=qgLmz6-b5AE&list=PLWOYM_kJ8eVYeiK77SRb3LI2u5L0In62P&index=3

TRATAMENTO DE EXCEÇÃO (À ROTINA)

Era fevereiro de 2018 quando meu então namorado (hoje marido) se propôs a pacientemente me ensinar a atirar. Ele tinha o desafio maior de me fazer sentir confortável segurando uma arma, eu, estar aberta a conhecer o ambiente de tiro, as normas de segurança, perder o medo do barulho e me acostumar com o cheiro de graxa, pólvora na mão. Meu coração disparava com a fumaça de pólvora queimada. O pescoço reclamava das posições exigidas para conseguir acertar as miras do revólver, da carabina.22 e do rifle.

Tomei notas num caderno aberto para este fim, de que a munição .22 tem percussão de fogo circular, não possui espoleta. A mistura iniciadora está localizada de forma circular ao longo do anel interno do culote do estojo. A percussão é feita sobre este culote. Por isso, quando pegamos um cartucho usado, reparamos que há um risquinho e não um furo no meio. Porque o percursor da arma tem de bater na borda do cartucho onde está a mistura iniciadora para que a bala gire enquanto segue pelo cano da arma e a sua trajetória até o alvo. Isso é percussão de fogo circular. Esta informação, em particular, me pareceu importante. Acreditem ou não, eu entendo perfeitamente o que significa e posso desenhar se preciso for, para explicar melhor.

Na segunda semana, pratiquei exercícios lúdicos: atirar com a arma de chumbinhos e repetições a seco com a carabina. Tenho que aprender a não deixar o dedo no gatilho. Aprendi a abrir, carregar e descarregar o revólver e três posições de tiro com esta arma. O alvo a uns quinze metros, pela primeira vez coloquei a bala no centro, fiz um nove, não perdi tiros fora do alvo. Falta perpetuar o entusiasmo inicial, ter consistência, monitorar o aproveitamento – se eu tiver resistência, o resultado será medíocre.

Terceira semana, novidade! Há outro atirador no estande ao lado. Pista quente, larguei minha sequência de tiros ao mesmo tempo que o atirador Pedro largava a sequência dele. Voltei às repetições a seco com a carabina e lancei chumbinhos com a espingarda de pressão. Aprendi como faz para encher cartuchos e fiz sequências de seis tiros com o revólver. A Sociedade iniciou obras para construção de novos estandes, mais modernos, fim de mês, encerrou meu treinamento.

***

Estamos em julho de 2022. Tomo meu largado caderno e folheio as páginas com saudosismo. Foi um longo intervalo desde então. Inaugurado o Clube Particular de Tiro em Campo Alegre, a atividade ficou mais acessível para mim. Sendo convidada pelo marido, aproveito a oportunidade de ir atirar uma vez por mês, nestes três meses passados. Sábado perdi duas balas em duas sequências de seis tiros de revólver, contra placas de aço instaladas a 20 metros, oh dó. Além disso, tinha um cowboy bonito atirando no estande ao lado com um rifle de repetição por ação de alavanca – Puma, a Winchester nacional – e ele estava acabando com os bandidos. Meu marido tem um rifle lindo, preciso, soleira cromada, digno de exibir. Carreguei uma bala pela lateral do cano, mirei, disparei, acertei o bonequinho de aço há uns 25 metros. Melhor ir pra casa antes que alguém me desafie com a pistola.

INATIVA IGUAL A NÃO QUALIFICADA

Desculpe a minha sinceridade. Às vezes sinto que tenho o dever de dar aos sócios de uma empresa Inativa um mínimo de senso de realidade. Do meu ponto de vista, se o Empresário pensa que existe só porque o Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas vinculado ao seu CPF está dizendo que ele existe, está muito enganado. A realidade é que para existir a empresa precisa faturar – emitir nota fiscal -, contribuir com a sociedade através do pagamento de impostos e da geração de empregos ou negócios. Fazer circular money, baby. Tudo isso e aquilo evidentes em qualquer declaração entregue à Receita Federal.

Agora, em contrário, se a empresa é inativa e, portanto, declara: zero movimento, zero imposto, zero geração de emprego, a data do CNPJ não interessa para ninguém. É farsa! É o falso empresário querer dizer, em algum momento da própria história, que tem uma empresa de tal ramo deste tal data “conforme consta no cartão do CNPJ, bem lá no alto, pode conferir“. São destaques: à própria vaidade tola, falta de qualificação ou melhor argumento.

Seja consumidor, fornecedor, banco ou qualquer contratante mais atento percebe de pronto que tal fala é falácia. Não há crédito disponível ou credibilidade a ser data para a empresa inativa. Então, me diz, pra que se agarrar a tal farsa?

***

Aponto o dedo indicador, quatro dedos apontam pra mim. Me devo esclarecimentos. Não tenho CNPJ. Nunca tive sócios. Não emito nota fiscal por não estar obrigada. Ninguém na folha de pagamento. Sou contadora autônoma há mais de vinte anos e meu histórico de contribuição previdenciária dá prova dos contratantes que tive no tempo. Declarei os rendimentos recebidos de pessoa jurídica, estes a despesa com contador, há contratos, livros caixa, livros diário, registros nos extratos bancários das partes.

É suficiente. Então quero, contadora ativa, dar de dedos na Alegra Catarina ~ escritora inativa. Dizer que chega um momento na vida do pretenso escritor que ele terá que escrever. Começar a contabilizar seus escritos. Usar a técnica do quantified self, quem sabe. Aplicar O poder do hábito para este distinto fim. Pois se investigo a respeito, vejo que não sou bem uma flor de escritor na antologia, sim um projeto engavetado, um empresa inativa.

Posso me enganar a vontade, afirmar que existo, contadora há mais de vinte anos, mãe de três filhos, há uma data na minha Certidão de Nascimento e tenho o CPF ativo. Mas o que isso significa, nesta senda alternativa? É preciso justificar a resposta e eu não sei fazer por escrito, nem tenho números. É um beco sem saída? Tal qual a empresa Inativa, que não se rende em converter-se em empresa Baixada – só porque alguém acha que devia -, enquanto eu estiver respirando, a qualificação ainda será possível.

CRÔNICA DE FORMAÇÃO

Ao contrário do que eu costumava pensar, romance de formação não é o primeiro romance publicado por um calouro. Trata-se de um tipo de história caracterizado pelo amadurecimento dos personagens ao longo da narrativa. Estes, a caminho da idade adulta, vivem experiências dolorosas, enfrentam situações limítrofes, passam por crise, opressão, perda, dor, fracasso… Diante das ambiguidades e contradições, vão promovendo os ajustes necessários às reviravoltas das suas vidas que, em algum ponto – crucial ou não – se entrelaçam. Buscam a cumplicidade do leitor e este, enquanto lê, está predisposto a sentir as emoções dos personagens e a viver a vida de outra pessoa, ali retratada.

Fran está cursando o primeiro ano de Letras. Tida a lição acima, foi desafiada pela professora Lilian a produzir uma Crônica de Formação. Precisa de um start, visualiza Saulo no corredor da faculdade, moreno de uns vinte e seis para trinta anos, cabelos compridos, rindo alegre. Afirma a si mesma que, para efeitos da tarefa proposta, acaba de se apaixonar. Esbarra nele, se desculpa, se apresenta, justifica estar distraída com tema de aula. Descobre que ele é formado em Jornalismo, hoje é a última aula da especialização em Literatura, tem um tempinho para ouvir, talvez possa ajudá-la.

Era apenas um café e já vinha anoitecendo. Certa emoção tomara conta dela, brutalmente. Repassavam juntos os termos do que, em teoria, caracterizaria a Crônica de Formação, nada além disso. Momento em que se insurge Luana, a namorada, protesta que demorou para encontrá-lo. Saulo anuncia que precisa ir, se despedem.

Fran estuda o brusco desfecho. Antes de chegar em casa tem saudades dele. Repassa a conversa, tudo que sabe é que ele mora na Vila Japão, escreve storytellings. Qual surpresa, às onze e cinquenta e nove recebe um e-mail. Em breves linhas Saulo diz como conseguiu o endereço, quanto gostou de conhecê-la, porque resolveu escrever, de sentimentos que afloraram e foram sufocados, de bolsas de estudo, professores e livros determinantes, fala da Lilian, da Luana, por último acrescenta Fran, a moça que agora faz parte de um desafio terminantemente resolvido. Não era bem isso, mas ele tentou. Quebrantados os encantos, sente muito que, para efeitos de exercício, ele tenha se afastado.

– Isso é chocho! Verbaliza. Fala sozinha.

O que torna a Crônica de Formação inviável não é a quantidade de linhas disponíveis para escrevê-la, mas a prerrogativa de que possam ser escritas novas versões – por todas as partes envolvidas – indefinidamente. Não são duas resmas de papel por pessoa, controladas pela professora.

REFERÊNCIAS

Figura entre meus livros preferidos El viejo y el mar, de Ernest Hemingway. Cito o título em espanhol porque o li em espanhol. Apesar do el mar no título, o narrador na fábula nos explica (eu mal traduzo e destaco) que Salvador “Dizia sempre la mar. Assim é como dizem em espanhol quando a amam. Às vezes os que não a amam falam mal de ella, porém o fazem sempre como se fosse uma mulher.”. Entendo daí o mar no feminino.

Consulto outra fonte. Descanso os olhos sobre a 29ª edição adaptada da Antologia Nacional de Fausto Barreto e Carlos de Laet. Página 264 aberta, a nota de texto nº 365 dedica-se a explicar a expressão “neste linage = nesta linhagem, nesta espécie de homens. Linhagem, que era masculino outrora, como linguagem, catástrofe, árvore, hipérbole, tribo, ênfase, apóstrofe, mudou de gênero; o que se deu igualmente com mar, fim, planeta, apostema, aneurisma, que eram femininos.” Aprendo daí a árvore no masculino. Reencontro o mar feminino.

Sigo em marcha lenta a leitura de La riqueza de las naciones, de Adam Smith, edição 1958, Fundo de Cultura Econômica do México. Traduzo e destaco da página 161: “Quando numerosos rebanhos caminham livremente pelo bosque, ainda que não destruam los árboles viejos, impedem que prosperem los renuevos, e assim, ao cabo de um ou dois séculos, a floresta inteira caminha para a ruína.” Reencontro a árvore masculina nos fundamentos de Economia.

Árbol, árvore em espanhol, é masculino, conferi no Dicionário espanhol-português e português- espanhol, de Idel Becker, São Paulo: Nobel, 11a. edição, 1985. Mar é substantivo – lind(o)amente! – “ambíguo”: de gênero vacilante, (masc. e fem.) no mesmo dicionário.

Note-se: é relativamente simples mudar o sexo de algo pelo artigo que determina o gênero dado à palavra que dá nome à coisa. Ideias afetadas pela variedade de escolhas alheias, ou para agradar provisórios donos, já não dizem por si mesmas a que sexo pertencem, com qual querem viver e por quanto tempo. Duvidam se são neutras, erram em ter ou não ter sentimentos. Exceção dada aos robôs e aos protótipos – vão com a onda da programação -, todo um universo de criações ainda mal pensou a respeito. É um problema de artigos.

A palavra palavra, voto nela para finalizar, tem o gênero feminino. Usei o a no início deste parágrafo, sem pesquisar. Os homens fizeram mais uso da escrita no tempo, contudo, e o livro associou a si o artigo masculino. É mera observação, não há revoltas. Amo ainda mais A hora da estrela, de Clarice Lispector, toda vez que reviso o passe de mágica que ela deu para, desapegadamente, transferir a própria escrita para o personagem escritor homem, acabamento que confere perfeição à obra. E é por fazer uso de dezenas de outros artifícios que recomendo Homens elegantes, 2016, de Samir Machado de Machado. Há ali um novo herói. Se eu fosse o herói da minha própria história, seria a heroína, mudaria o artigo da palavra heroína toda vez que a palavra significasse droga.

Recorte do livro “El viejo y el mar”, citado acima.

ROTA DO BARRANCO FOFO

Sofia: inaugurando-se nas montanhas e nas Rodovias.

Assim como acontece a cada novo inverno, encerrado o prazo do IRPF, declara-se aberta a ‘minha’ temporada de montanhas com amigos do PR. Quem conhece SC, Estado onde vivo, sabe que aqui temos trilhas de duas horas, as mais próximas de mim a citar: Castelo dos Bugres, Morro do Boi, Morro da Igreja, Rota das Cachoeiras, Monte Crista, Pico Jurapê e acabou. Por isso aceito os convites que surgem pra adiante.

Quero contar de uma trilha simples, relativamente curta, dificuldade leve a moderada, escolhida para sábado passado, vinte de junho: o Morro do Canal, em Piraquara/PR. Começamos a caminhar às 14h22. O tempo de subida é de 1h30, moleza pra quem tinha visitado o Pico Paraná em maio. Chegamos no topo às 15h52, pretendíamos aguardar o pôr do sol, agendado pra mais tarde.

Pra muito mais tarde, diga-se de passagem, então cheguei a pensar que era broma do amigo E., que ele ia nos enganar bonito, com hora de folga nos guiar até a Torre Amarela – desce morro, sobe morro, mais meia horinha e chegou. Não era broma. Um dos parceiros está se recuperando de uma cirurgia, a Sofia é novata, o descanso era proposital. Esperamos o sol se esconder.

Levei duas lanternas de cabeça, uma para mim, outra para filha, uma das duas falhou. Vazamento de pilha, sem pilha sobressalente. Estou acostumada a caminhar no escuro, então tudo bem. O amigo H. ofereceu a lanterna de mão, extra que levou, recusei. Desci seguindo os passos da Sofia, logo atrás dela. Quando o obstáculo era maior – pedras altas, troncos, grampos, cordas – ela iluminava pra mim e tudo caminhava bem… De repente as amigas S. e B., que estavam mais a frente, pararam, um mísero instante, a Sofia parou, eu parei. Meus dois pés estavam juntos, pisando em superfície plana, quando, do nada, o chão sobre o pé direito cedeu, o pé desceu, a perna direita foi junto, arrastou meu corpo barranco abaixo, duas alturas de mim, firmou, cedeu mais um pouco, outras duas alturas abaixo, até que a terra parou.

Não tive medo. Deslizei como dublê bem treinado, escorregando sobre terra fofa. Estava bem agasalhada, saí sem arranhão. O cotovelo direito ganhou hematoma do tamanho de uma digital, constatei depois. O pessoal iluminou a barroca, eu tentei contornar a trilha, achar outra saída, não tinha, subi pelo deslizamento agarrando raízes expostas. Continuamos.

Foi tamanha a solte! Qualquer outro buraco em que eu tivesse caído, fosse para o lado esquerdo de quem desce, direito de quem sobe, teria topado com empilhamentos de pedras lavadas pelo córrego que se forma com a chuva. Podia ter quebrado costelas, pernas, braços, o queixo lindo. As pessoas pensam que isso não acontece, mas foi justo o que aconteceu com o amigo D., certa vez.

Trilhávamos o Monte Crista, em Garuva/SC. Ele escorregou na trilha, na volta, há uns vinte minutos partindo do topo. A bunda já tinha se sentado, os pés continuavam indo embora. A canela esquerda decidiu tentar frenar o peso do corpo de um metro e oitenta, mais a mochila cargueira. Bateu contra uma pedra em forma de disco cravada no barranco, meio disco pra fora. Foram cinco horas até o socorro, oito pinos de sustentação, meses de fisioterapia. De minha vez, sou menor, a mochila vinha vazia, meu barranco era terra fofa, sujei mal a legue e a jaqueta azul batida, não foi grave.

Saímos com folga, eu e a filha, de São Bento do Sul/SC, pretendendo estar no local combinado com hora de antecedência. Deveríamos localizar a Chácara Dona Helena, almoçar por lá. Escolhi ir por Agudos do Sul/PR, passar por Tijucas do Sul/PR que tem menos trânsito. A Sofia dirigia, recém habilitada. Entramos em Agudos pela avenida principal, ela não atentou pra indicação do GPS de pegar à esquerda na primeira quadra depois da rotatória. Não reduziu pra conseguir dobrar na próxima quadra. Seguimos até o final da avenida e enfim à esquerda, curva acentuada uns noventa graus, atravessamos duas ruas, casas, caminhão, cachorro, bicicleta… caímos na mesma rodovia, sem nem perceber! Indo adiante os próximos quilômetros foi que estranhei a paisagem: não passamos o cemitério, nem o produtor de morangos, nada de chegar em Tijucas. Dia seguinte ao pileque (só pode!) é que dei conta de que entramos em Agudos pela principal e saímos praticamente no mesmo lugar, meio quilômetro adiante, pela rua paralela, no outro trevo.

Voltando pra casa a noite, escolhido o melhor caminho, há economia de 12 minutos vindo por lá que por cá, menos bêbados saindo dos bares, menos carros sem lanterna na outra pista. Mas na ida, sendo dia, tanto faz. O trajeto levaria 2h26 minutos. Chegamos com tempo de sobra. Eu tinha tempo de sobra pra tudo, desta vez, na verdade. A casa estava limpa; o almoço dos homens encaminhado; combinaram programa alternativo, dada a ausência das mulheres; a roupa ventilava no varal; o carro abastecido. Podia ter conferido as lanternas. Fica para a próxima. O meu mundo não acabou num barranco de pedra porque o barranco era de terra fofa, de resto, isso esteve a uma lanterna de acontecer.

“ACORDA PARA A VIDA!”

Obedeci, acordei e fui até lá. Prova cabal de que Deus existe, e que é bom. Talvez nem tanto comigo quanto mereço. Se pudesse escolher, dormiria mais, acordaria linda, com 64 anos (tenho 46) e tempo livre. Como não há trapaças grátis, me pus a caminho dos meus próximos dezoito anos, ler a palavra ofertada, em resposta ao meu ‘remeto a Deus’, dado ao mestre, recém demitido.

“Dê a outra face e faça-nos rir.”

Desobediente apenas em parte, tomei laranjas do cesto de frutas, joguei para o alto e fiz malabares. Não sei se viu, leu, se ofendeu, mas qualquer um, por mais que despreze, conhece a história por trás desta história: Jesus teria sorrido, Maria teria gostado. Quero acreditar que entre tantos dos seus hobbies, Deus faz tortas com pedaços das minhas bochechas para dar aos cachorros que vão para o céu, pois alguém precisa alimentá-los. Segue os mesmos princípios, não há quem o corrija!

Toro horas que não tenho mapeando fórmulas secretas, o que move o mundo, o que move as pessoas. Há um manto de sabedoria envolvendo tudo, senão vejamos a resposta de um dos nossos clientes:

“O que move o mundo é o movimento de rotação, o que move as pessoas é a motivação”.

Fora isso, tenho quase certeza, ainda são sete ou doze números sagrados aplicados aqui e ali, além do mapeamento dos resultados ao longo dos séculos, a que, por óbvio, não tenho acesso já que muito se perdeu. Mas nem tudo! Foi de estudar um pouco que aprendi que os mapas da antiguidade eram considerados com um grau de precisão parecido com esta conta: dois vezes dois são sete e meio, menos três e alguma coisa. Em outras palavras:

“Acaso algum dia se sinta perdido, tome outro rumo.”

Volto a negociar a preservação do meu nome. Ofereço uma das faces e, em troca da outra, uma coxa. Mas não leve agora, venha buscar mais tarde quando estiver mais bronzeada. Evito reclamar do bom tempo e da sobra de tempo bom, mas se alguém puder providenciar o pôr do sol mais cedo, agradeço. Ou apenas caçoo. Reconheça-se que não há atalhos para as voltas que o mundo dá.

“Ainda que te doa, em alguma circunstância, se sentir pouco importante, evite tentar interceder.”

Quero passar de nível, romper com o status quo, mas ainda sinto barreiras invisíveis. Há comandantes aos quais sou demasiado subordinada, aos quais dou demasiado poder. Espiculo que talvez, ou exatamente por isso, não aceitem, com alguma humildade ou por puro preconceito, que ditar o ritmo do meu progresso: esse é o meu trabalho – a exoneração da responsabilidade me levaria, fatalmente, à desmoralização.

RUINDADE

Vigio com carinho um papelzinho que diz: “Eu não vou pro céu.”. Topo com o bilhete, tenho nova oportunidade de pensar a diferença desta declaração para outra, de gente distinta, que dita com maior convicção: “Pro céu eu não vou!”. Os menos exigentes limitam-se a querer ser cremados ou enterrados, se possível. Seja como for, cada vontade expressa cria o ensejo de os outros fazerem cumprir exatamente o contrário do desejo manifesto. Bondade à parte, ligo o Roberto Carlos cantando: Eu te darei o céu meu bem… e mudo de sentimentos. Vem a tona outros, piores que estes e menos nobres.

ENCONTRE OUTRO AMIGO

Primeiro, encontre um amigo. Um que possa te dar opinião sincera e certeira sobre tudo. Conheço tal pessoa que estudou tal filosofia, não melhorou em nada. Outra que acordava às cinco da manhã, trabalhou até às seis da tarde por anos, não conseguiu juntar o valor que queria para viajar. Sei de gente que estudou inglês mil horas, não sabe conversar. Quem nasce pra coisa, nasce, de resto não adianta. Por isso eu nunca tentei tocar um instrumento, não gosto de barulho. Este tipo de conselho.

Ninguém mais me ouve. Meu marido não me ouve, em definitivo. Ele tem um amigo que tem uma esposa muito mais sábia. Ela sabe das coisas, principalmente o quanto custam, o preço que as pessoas pagam pela própria ignorância. Ela conhece uma pessoa no trabalho do marido que estudou vinte anos tal filosofia e não melhorou em nada. Pensa nessa porra de argumento!

Mudemos de assunto.

Ninguém me ouve quando dou início a outra ladainha explicando que para a maioria das pessoas não é vantajoso deixar um trabalho cujo salário é negociado pelo sindicato, tem desconto de sete e meio por cento de INSS, depósito de oito por cento de fundo de garantia, férias de trinta dias por ano de trabalho com acréscimo de um terço, décimo terceiro, vale-transporte, vale-alimentação, seguro de vida em grupo, assistência médica, exames periódicos, seguro desemprego em caso de demissão involuntária, aviso prévio de trinta dias (mais um dia indenizado para cada três anos de trabalho completo), depósito de um salário mínimo a título de PIS uma vez por ano para quem ganhou a média de dois salários no ano anterior, salário família para quem ganha pouco e tem filhos com idade até 14 anos etc., trocar tudo isso por um “MEI”.

MEI é a sigla para Micro Empreendedor Individual. Ser MEI era o sonho de duas mil e quinhentas pessoas até outro dia, na minha cidade. Sonho realizado! Outras quinhentas pessoas sempre trabalharam por conta, nunca tiveram os benefícios do parágrafo acima, já alcançaram um grau de disciplina, autonomia, sistema de economia pessoal que lhes permite viver da maneira como gostam de viver. Não abriram mão de nenhum direito ao abrir um MEI, pelo contrário, ganharam a vantagem de ter um CNPJ, de contribuir um percentual mais em conta para previdência, podem emitir nota fiscal e com isso atender à empresas, deixar de emitir nota no atendimento pessoa física, que a lei permite.

Todas as demais, que se desligaram dos seus empregos para prestar o mesmo trabalho como MEI, tiveram prejuízo. Ninguém me ouve quando digo. A contribuição de cinco por cento sobre o salário mínimo não dá direito à aposentadoria por tempo de contribuição, mas somente por idade. Isso significa optar por se aposentar somente aos 62 anos, mulher, ou 65, homem. Mas se o MEI crescer, virar uma grande empresa, enriquecer, poderá comprar ações, pagar previdência privada, construir imóveis para alugar, isso lhe garantirá a aposentadoria! Tenho um amigo de vinte e um anos que conseguirá argumentar prontamente.

Não espero que ninguém com vinte e um anos me ouça. Não espero que nenhum cliente meu se convença de nada, tampouco. O plano alternativo ao MEI seria, então, trabalhar desde os dezoito anos, contribuir por trinta anos para a previdência, descobrir que tempo de contribuição mais idade somam setenta e oito pontos. Para se aposentar é preciso atingir cem pontos. Significa que terá que viver, trabalhar e contribuir ao menos mais onze anos. Revisa as contas comigo. Uma pessoa com 18 anos, vive mais 41 anos, trabalha durante estes 41 anos, tem, ao final do período 18+41+41=100 pontos. Pode requerer a aposentadoria por tempo de contribuição aos 59 anos. Patético, dirão. Se você é mulher, sendo MEI, poderia se aposentar com 62 anos; homem, mais três aninhos; um salário mínimo. E quanto não teria economizado?

Dedico a vida a incentivar que o MEI desenvolva, cresça, ultrapasse o faturamento de oitenta e um mil por ano, que o engessa no seu plano de enriquecimento. Prego àquele que não tem plano de previdência, que se constitua como MEI, desde que isso não prejudique uma boa média de salário de contribuição. Oro àqueles que não tem experiência em trabalhar “por conta própria”, que pensem bem antes de se desligar da sociedade. Ninguém me ouve.

Meu último auto conselho, ao final de cada dia, é sempre o mesmo: espere que façam outros amigos. Alguns que tenham, e outros que não tenham, se ocupado de trabalhos altamente remunerados, com estabilidade, formado capital, recebido herança, nenhuma dívida, bens imóveis e plano de previdência privada. Exigência mínima para poder dar credibilidade a qualquer amigo é ter outros amigos que se possa ouvir de vez em quando. Você, cara Auri, não conta, nessa conta. Você é contadora. Contadores são pessoas chatas. Leem demais, pensam demais, fazem contas demais e adoram dar conselhos furados.

O MESMO DESTINO, EM OUTRA DATA

Desejo registrar a história. Em 2014 fui sozinha até o Pantanal. Fiz uns caminhos tortos até chegar ao destino desejado, a cidade de Rio Verde de Mato Grosso/MS, na estrada de chão que chamam de Serra da Alegria. Creio que só o pessoal local é que conhece por este nome, não há placas. Para não ter erro, se um dia resolverem ir até lá, coloquem no GPS a informação de que desejam chegar no km 699 da BR 163. Maior precisão, informem: exatamente onde ficam as torres de comunicação bem altas, uma das quais se parece, de longe, com a torre da Rapunzel; entra à esquerda. Foi o ponto que acessei no dia 25/12/2014; aí queríamos chegar, eu e o marido, em 27/12/2021.

Como eu sempre digo, nunca me perco, sei certinho onde estou indo. Quaisquer duzentos quilômetros a mais são um desvio útil para conhecer novos caminhos de como chegar. Desta vez fomos retos ao destino, o erro foi este! Chegamos às 14h30 na cidade de Rio Verde, em frente à prefeitura. O povo rio-verdense estava em recesso de férias mas um rapaz muito simpático, trabalhando, confirmou as referências e então arriscamos entrar na estrada de chão às 15h. Devíamos ter escolhido tomar um sorvete, descansar no hotel, entrar na Serra da Alegria no outro dia de manhã, ficar o dia todo por lá. Tínhamos pouco tempo até escurecer, rodamos 50 km na estrada de chão, a prudência indicou o retorno.

Levei uma máquina fotográfica que eu não sabia lidar, não pude fazer tão boas fotos como em 2014. Tinha menos água no percurso e muito pouco passarinho, em comparação, também. A paisagem muda se chove ou não chove. Vimos muitos veados. Ponto alto: pude conhecer melhor Presidente Epitácio (na ida), chegamos a tarde, dormimos por lá. De volta à estrada cedo, pude passar sobre a represa do Rio Paraná, ‘de dia’. Em 2014 dirigi sobre a represa na volta, às duas da manhã, só a vi pelo azul do GPS: ‘mar’ de um lado, ‘mar’ de outro lado.

Nesta nova oportunidade topamos com a boiada na rodovia, guiada por mulas e pelos peões à cavalo; o ‘Brasil real’ que a gente via em novelas. Também não tinha observado da primeira vez, quanta soja a gente planta. Indo para o Pantanal, por qualquer caminho, a noção é melhor. São quilômetros e quilômetros rodados, soja de um lado, soja do outro lado da rodovia, até onde a vista já não alcança.

***

Ah… Minha irmã, cunhado e sobrinha também foram para o Pantanal no final de 2021. Vejam o vídeo do Roni – Expedição Pantanal. Fizeram outros caminhos, com outros objetivos. Eu só tinha um objetivo desta vez e foi ticado: mostrar para o Marco que o lugar onde estive em 2014 existe mesmo. Ele duvidava um pouco. Obrigada, amor, pela cia.

SEI FAZER SE PRECISAR

Você, você mesmo aí! Nunca será um bom fazedor de pão a não ser que faça pão todos os dias. Dirão sobre você. Nunca será bom corredor, bom nadador, bom escritor, bom contador, a não ser que tenha mil horas de dedicação acumuladas na atividade. Você mesmo dirá coisas como estas e aceitará que digam sobre você, com convicção.

Aprendi a fazer pão aos oito anos. Minha mãe começou a trabalhar fora logo que concluiu os supletivos do primeiro e segundo graus. Ela enchia uma bacia verde com três quilos de trigo, derramava banha sobre, um tanto de sal, outro tanto de açúcar, enquanto o fermento crescia num jarro plástico azul. Ao lado da bacia um caneco com água morna.

O fermento era despejado na bacia e eu começava a misturar. Minha mãe acrescentava água. Eu deixava a massa lisinha, numa bolota, toda orgulhosa, lá vinha a mãe por um dedo na massa, acrescentar mais água. De emborrachada, a massa ficava grudenta, eu amassava até a água sumir, a massa ficar macia como a bunda de um bebê.

Crescia por duas horas até alcançar o topo da grande bacia verde. Talvez fosse azul, mas eu prefiro verde. A lembrança é minha. Com as mãos bem abertas, os dedos da mão furavam uma cruz sobre a massa crescida. Cada quarto de massa viraria um pão. No forno da minha mãe, no fogão, cabiam três formas uma ao lado da outra e a quarta forma era atravessada na frente.

Amassava os pães, punha na forma, deixava crescer outra vez, regulava 180ºC e deixava assar por 45 minutos. Não tenho certeza sobre estas duas últimas informações. Só sei que esta era a parte mais importante, pois tem a ver com o fato de que nesta hora minha mãe estaria trabalhando, e nos competia, a mim ou às minhas irmãs, por o pão para assar, cuidar que assasse até estar leve, tirar das formas e deixar esfriar sobre um pano de louças, os pães cobertos com outro pano de louça, no lado direito da pia de inox, livre de louças, a bacia lavada para servir à roupa.

Concomitante a isso aprendi a preparar o forno de lenha com meus avós maternos. Primeiro buscava um feixe de vassourão para amarrar em frente a uma vara com retalhos de pano, formando uma vassoura que limparia o forno. Do fogo meu avô cuidava. E eu via de rabo de olho minha avó preparar a massa mole da broa, ajeitar bolota por bolota sobre uma pá enfarinhada, derrubar lá no fundo do forno. Depois tirar e embrulhar em panos de louça.

Sei fazer todo o processo. Pão no forno do fogão, quatro unidades de cada vez, ou no forno elétrico, um de cada vez. Sei fazer broa, bolo, doces, cozinhar no geral, se precisar. Não faço nada disso há mais de trinta anos, mas sei fazer, se precisar. Aprendi cedo a tomar conta do meu irmão, a lavar roupas, economizar água, trabalhar. Aprendi a estudar com a minha mãe, e então o que quer que me falte, sei que posso aprender.

Não preciso ficar provando isso pra ninguém toda terça ou sexta-feira. Não preciso inserir o nome da minha mãe no texto pretendendo dar vida à sua invisibilidade. Minha mãe sabe que eu sei fazer pão se precisar. Se fosse morrer hoje, morreria de orgulho. Oraria a Deus para neutralizar qualquer pessoa que pudesse exercer sobre mim uma influência maléfica.

RUDA PROVADOR

Exercício de escrita, decidi inserir seu nome, Ruda, em um a cada cinco parágrafos, afirmo com segurança, ele teria feito igual, a intervalos menores, num exordio, a fim de que lembrassem o nome da amada esposa. Alertado, certa vez, reagiu mal a tal observação.

Posso descrever o que sente neste exato momento, como se fosse ele, criado a meu gosto. O quanto cresce, amargando sozinho; quão se sente pequeno, em numeroso grupo. Tal que, jamais confundam Ruda com tipos que se expandem e se encolhem, de modo ao extremo contrário. Acrescentaria que ele gosta de ver a vida passar da varanda, o quanto detesta a de apartamento, e é por isso que vive onde vive, vive se justificando.

Não seria total invenção se dissesse que não o vejo desde 1996, quando, por acaso, trocamos duas palavras, antes disso, em 1991, nunca outra vez. Fiquei sabendo dele mesmo que nesta época tinha vacas leiteiras, vendia a produção diária com marca própria, foi antes ou depois disso que o preço do litro despencou para doze centavos, fazendo muitos desistirem da atividade. Na ocasião, ou é fantasia minha, usava botas brancas de açougueiro, cheirava silagem.

Tenho catalogados fatos muito particulares que falam por si acerca da personalidade alegre, reservada e errante; do sem sabor da sua vida privada; do deslumbramento das suas intimidades; do amor que cultiva por Ana Cristina. Penso usar a favor do herói.

Relevante é que exista e que eu nunca desista de o procurar. Tenha nome limpo, o riso farto. Acusem-se os problemas de terem causa na sua ausência, a alegria da gente brotar da sua passagem. O homem será Seu Ruda, os filhos serão seus Rudas. “Sei que é lá para aqueles lados”, dizem sobre onde encontrá-lo, porque por hora, é tudo que sabem.

Dissecarei adiante os seus medos, superstições, falhas profundas na capacidade intelectual – nenhuma de caráter -, falarão dele com mais respeito. Não há um porque da alcunha, Provador é sobrenome. Trás o rosto sem barba, sem bigode. O hálito sempre fresco. Tem um mal costume, contudo, o de esvaziar a bexiga nas plantas defronte às casas de quem mal conhece, nas andanças por estradas de chão de interior a noite.

Leva uma vida reta, segundo as testemunhas. “Está sempre em casa, senão na roça, derrubando uma lenha, ou na rua, tratando dos negócios.” É bom cristão, exceto pelo vício das tais paradas. Flagrado por jovens senhoras, vai logo perguntando se o patrão está em casa, que daí entrava, pra breve prosa, não sendo tão cedo. Se demora, pode esperar, se a Senhora não se incomoda, não for atrapalhar, fico aqui fora. Desculpa a grosseria, não fomos apresentados, Ruda, muito prazer. Mãos cuidadas a senhora tem. Jardim bonito. O amigo é homem de sorte.

ESCRAVICOIN, A NOVA MOEDA DIGITAL

Escravicoin, acabei de inventar, é uma nova moeda, totalmente digital, controlada pela própria rede de pessoas que usam a moeda. Você não acha legal? Estamos, desde agora, livres! Livres de toda e qualquer discussão mais aprofundada; de pensar os impactos; de ter de esperar o crivo de uma ou mais centenas de anos; do passado e o principal, livres das instituições governamentais que, até aqui, controlavam a emissão de moeda.

Qualquer pessoa financeiramente livre, com recursos disponíveis, pode esperar um momento de baixa valorização do Escravicoin e comprar muito. Este momento que estamos agora é o mais crucial, impostor e importante. A novíssima moeda está valendo praticamente nada.

Logo mais em seguida promoverei conteúdos que estimulem as pessoas que tem lá suas poucas economias a investirem na nova moeda. O preço unitário ficará cada dia mais alto. Colocarei o medo na mente das pessoas: de serem as últimas a comprar. Há um estoque limitado. Serão cunhadas e parentes entre si um número fixo de Escravicoins até o final de 2029. Os desavisados e inocentes pagarão o preço pedido. Publicarei um gráfico com a promessa, representada por uma linha azul, apontando a direção de poltrona vaga no céu.

Quando, por qualquer razão, ainda que passageira, a moeda desvalorizar, desesperados porão cada moeda à venda, ao preço que for, podendo perder muito mais da metade de tudo que investiram de início. Será um revés da vida. Restarão a estes a resignação e os caça-níqueis com ferramentas de autoajuda para ajudar.

Aqueles que se inscreverem, agora mesmo, em cursos rápidos poderão baixar gratuitamente a bíblia do Escravicoin. Lá explicaremos de forma bastante minuciosa como uma pessoa financeiramente livre, com muitos recursos disponíveis, entre eles um grande estoque da paciência de esperar, conseguirá comprar muita moeda ao menor preço da história, adiante, vender na alta, pelo dobro do preço, aos novos inocentes avisados.

Que tipo de pessoa você é? O tipo que tem muitos ou poucos recursos? Se é do primeiro tipo, pode vir a ser um pioneiro do Escravicoin. Não produzirá riqueza alguma e vai deixar muita gente pobre mais pobre num simples clicar. Virá então uma questão bíblica: um mundo repleto de gente pobre não serve de nada pra quem é rico a não ser que possa submetê-los a uma nova era de escravidão. Daí o nome da moeda. A diferença fundamental desta para outras moedas é que, no futuro das nações, nenhum novo pobre te atormentará pedindo uma moeda. Ele saberá de antemão a resposta: “Sinto muito. Eu não tenho.”

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI DOS MOTORES

Disruptivo é a palavra da vez, ESG* a sigla, chega de negar. Psicólogos comportamentais que nos guiem neste novo contexto, amém: a partir de agora e para sempre será preciso integrar três questões as mais desconexas e finalmente romper com o tudo, o tal do capitalismo desenfreado.

Partimos de um novo princípio: cada um é cada um. Daí porque uns calam enquanto outros de nós aceitam mansos, sem nenhuma revolta, que alguém se refira à Angela Merkel de forma desdenhosa, depois de décadas de imensa coragem e dedicação política. Cada um leva tempo diferente para entender o que isso significa. É premissa aceita.

Falando em boas ações, o gráfico de cada dia saberá dizer o quanto a Vale vale, hoje, antes de ontem, depois das más notícias. Basta digitar VALE3 na pesquisa do Google e ‘hier ist’: o viés da confirmação, delay de vinte minutos, de que precisávamos. A linha vermelha indica que os economistas estão certos: a ação vai cair até o nível do mar, depois voltar a subir. Amiguinho, não seja leitor idiota. A crônica sempre foi um canal de comunicação sério, respeitável, mas principalmente sarcástico, pode confiar. Realize tudo antes de o número chegar a Atlântida, desça até a praia e reserve. Deixe claro pra quem interessar possa, vendedor de rede e o escambau, que não vai comprar nada até regressar.

Enquanto isso, opcionalmente: a) cada centavo de economia no Tesouro Direto; b) se for investidor anjo e gênio, invista na startup do bairro; ou c) pare de ser sovina e prove àquele vizinho sabichão que os carros estão caros, mas que você, e não ele: está podendo falar.

Dinheiro parado rende. Nem todo mundo manja isso, então vou explicar. O governo pega teu dinheiro emprestado através da renda fixa e promete te pagar uns por centos adiante. Se você precisar de dinheiro, pode ir até o banco e pedir, terá crédito. Se faltar, não se preocupe. O governo imprime moeda, desvaloriza o dinheiro, toma mais recursos com quem ainda tiver, paga mais caro à frente. Ainda há a estratégia de desatualizar as tabelas das bases de cálculo dos impostos, descontrolada a inflação. Vai restar uma dívida enorme para o próximo governo, este mesmo ou outro, não vem ao caso agora.

Ser credor do governo e dever pro banco nem sempre é uma coisa estúpida. Antes você precisa admitir que, em termos de oferecer garantias sociais, bem estar geral da nação e etc., é um investidor menos qualificado que o governo. Tira o dinheiro da própria mão, entrega para o governo entregar nas mãos de gente que promete fazer melhor uso, senta e espera o rendimento.

O importante é que a pessoa faça a coisa certa, uma vez alertada. Está difícil ter certeza sobre? Neste caso, esqueça as notícias vindas da China ou da Alemanha por uns tempos, estas principalmente. A WEG, para nós, está mais perto, é mais fácil de controlar. Foca!

(*) ESG em inglês, ASG em português é a sigla para Ambiental, Social e Governança.

DESCONSTRUÇÃO

Meu filho F, em 2012, fotografei a partir da minha janela de trabalho.

Sou destas pessoas que amam muito, sabe? Amo ler, por exemplo. Há um sistema de registro de leituras muito especializado aqui mesmo na internet, que o comprova. Fosse há anos atrás, amo amamentar, eu diria. Dispenso registros para lembrar quantos meses cada um dos meus filhos mamou em mim (L 23m, S 4m, F 27m). Fica fácil para quem gosta de estatística, cálculo, auditoria, áreas afins, perceber o que duas afirmações já denunciam: amo os números, mais que imagens e palavras. Não estou cá a trapacear, tentar te enganar sobre mim, caro leitor. O que quer que descubra, descobri primeiro escrevendo, planejei fosse assim.

Uma pessoa que não se dedica a pequenos ou grandes planejamentos devia ser banida da vida em sociedade. É uma frase que sairia da minha boca tranquilamente, vivesse no próximo milênio, admito.

Mas foi por amor muito mais essencial, aos meus filhos, que há anos atrás escrevi a seguinte oração, ocasião do divórcio com o pai deles: “vou fazer o que estiver ao meu alcance para manter meu imóvel, esta pequena propriedade de 527m2, casa de 99m2 e área comercial de 68m2, nesta rua sem saída em que me encontro”. Garantiria o teto, estaríamos seguros, e se algo previsivelmente imprevisível acontecesse, no futuro, havia um excedente de terreno aos fundos da casa a que recorrer. Estaríamos para sempre perto, uns dos outros.

Busquei empréstimo bancário para manter o imóvel e venho conseguindo honrar. Em quatro anos a dívida acaba. O acordo do divórcio levou mais tempo, nunca chegava ao fim. Foi preciso forte intervenção forense para encerrar o litígio e eu precisava ter um plano alternativo neste tempo. Anunciei o imóvel à venda. Meio ano, nenhuma proposta. Encerrou o litígio, mantive o anúncio.

Fizeram oferta: valor justo. Fiquei assustada. Não que eu tenha apego algum ao fato de que minha propriedade fica num lugar calmo e ensolarado. Tenho vizinhos maravilhosos, entre eles, na mesma quadra, meus pais. É meu local de trabalho. A área residencial está alugada. Há ali algumas plantas, roseiras, azaleias, gardênia, a solandra de que tanto cuidei. Pés de chim chim, butiá, figo. O sinamão. E meu simpático paiolzinho meia água. Uma cesta de basquete profissional, bem instalada. Nada disso. Tente me entender, por favor.

O restante são números e com eles eu me entendo. Tarefa difícil é encontrar negócios que atendam à frase: “Vou fazer o que estiver ao meu alcance para manter meu imóvel.” Chegar à revisão ideal dos planos de vida, mais que ao imóvel perfeito que substitua aquele, tão rezado. Lidar com metas internamente contraditórias. Dar conta de saber o que fazer com a pessoa que sou: que ama a ideia de jamais quebrar as promessas às quais se dedica; em tempo: encontrar o meio menos brutal possível de ser sumariamente dispensada de promessas que fez, senão a si mesma.

Descobrir como desconstruir a oração é a minha equação do dia. Não ligar pra você. Não te amo tanto assim.

PEDRA PIPOCADA (NA SUPERFÍCIE)

Fotógrafo ninja.

Proposição inicial. O turista, querendo tirar sua foto de passagem pela cidade, reparou que a mulher de jaqueta azul subira e descera a escadaria de acesso à Igreja Matriz Puríssimo Coração de Maria já tantas vezes, e ela não parava. Quis se aproximar, saber se era promessa. Poderia acompanhá-la. Limitou-se a questionar transeunte se conhecia a pessoa. Parecia àquele já ter visto a jaqueta caminhando por aí, acenou que não, continuou seu caminho, contornou a escada. Os jornalistas locais que se encarregassem de estabelecer o limite da sanidade daquele estranho, para quem ver pessoa subir e descer escadas pareça estranho. Seguem referências pra pesquisa: O Alienista (Machado de Assis), O deserto dos tártaros (Dino Buzzati) e A peste (Albert Camus).

De investigar, e foram investigar, descobriram com amigos a mensagem abaixo disparada do celular da moça. Modo de dizer da cronista, que a senhora tem seus (quase) quarenta e cinco anos.

Bom dia, amigos. // Sábado é dia de plantão do filho no trabalho (dá suporte num sistema de informática comercial). Não vai. // De minha parte, pereza ir sozinha, mas tenho ganas. // Travo é por medo de pegar a Covid-19. Preciso saber dos confirmados. Denunciem-se. // Se forem em muitos, o que em outras circunstâncias seria ótimo, vou ficar por aqui.// Em SC não temos montanhas como as suas, mas talvez eu possa subir e descer cem vezes a escadaria da igreja.

Vejo-me obrigada a esclarecer esta história. Não soube começar explicando que perdi uma amiga para o Covid-19. Estou delirante e nervosa. É alerta para a matraca. Vendo, fora a saúde, fios brancos, gorduras localizadas e rugas de preocupação. Bobagem estocar vaidade. O certo é exibi-la quando e enquanto se pode. Laços de cadarços! Cozo, cozinho, reparo, apimento texto, não encontro verbo, trapo e tempero certos. Quero ter meios de dizer que a Cris foi cremada. Quarenta e quatro anos, três filhos, linda, querida e amada. As cinzas, os amigos estão se organizando soltar no ar no alto do Pico Paraná, final de maio.

Faz tempo que o grupo de montanhas não sobe montanhas. Agendamos treinos nos picos menores, antepasto. Eu e o filho mais velho faltamos à travessia Morro do Canal – Torre Amarela – Vigia, no Paraná, em substituição subimos o Morro da(s) Antena(s), no nosso Estado. Tivéssemos ido, seríamos dezessete. Então, opa, me escapou a mensagem:

Parceiro é parceiro, fdp é fdp. Estou num dos grupos. Só não sei ainda no qual dos grupos. Estou decidindo.

Nota para a vida: tratar tudo melhor. A escolha da semana, de ‘treino para subir o Pico Paraná’, seria a escadaria da igreja. Mas subir e descer cem vezes levar a cabo faria de mim uma louca. Simão Bacamarte com toda a gentileza do mundo me conduziria pelo braço falar com algum parente que de antes já estivesse internado na casa de janelas verdes. Então, foco do morro da vez: o Itapiroca. O que significa ita+piroca, vide título. Para resumir, trata-se da quinta maior montanha da Região Sul do país e vamos trilhá-la, já foi decidido. Semana seguinte, travessia nível kids – a gente costuma brincar -, é por o nome nas caixas do Caratuva e do Taipabuçu (o Taipa).

Loucos são os turistas, que aumentam as coisas, é a inescusável conclusão.

DECLARAÇÃO DE CONTEÚDO: EU, O NÃO PRODUTO

Desenho “copiado” a mão livre, a partir da ilustração de Dê Almeida, para o texto de Fabiane Secches – Uma leitura de Frankenstein – no jornal Rascunho, edição junho de 2021, pág. 17.

Não pareço um produto porque, como declaro de início, não sou um produto. Mas se você insiste, e me olha, seja com o olhar mais carinhoso do mundo, ainda vê um produto, ah, obrigada, que lisonjeiro!, me desculpe, são teus olhos traiçoeiros. Tenha a gentileza de olhar novamente e tentar ver em mim a pessoa.

Farei igual por você, eu juro. Continuarei a vê-lo como pessoa, não importa quanto meus olhos, estes imbecis ingratos, queiram vê-lo: produto.

Eu, O Não Produto, e “yo no vengo a decir un discurso”, reconheço: sou fruto das minhas referências, e de pinçar e escolher, dentre tantos, é óbvio, este meu pensar limitante. Que se eu fosse o resultado de escolhas alheias, talvez até melhores, então alguns limites, para mim, literalmente, não existiriam, como dizem naquela escola…

Não seria maravilhoso? Eu, o autêntico não produto, viraria produto do meio em que não vivo. Não sei se estou preparada pra tanto. É preciso que insistam, comigo.

Se existe a matéria prima, o serviço, o produto na fonte, o do meio, e existe a pessoa, e o tal não produto, que é como me etiquetei, e se são tantas as qualificações e honrarias que podemos dar aos seres modelos que em nós parasitas habitam – há os jeans, as unhas, os relógios, os óculos de sol e os cortes de cabelo que o comprovam e depoimentos que atestam – o que está por trás daquilo que você vê, os milhões de pensamentos omitidos, rebeldes e sempre tão conflitantes: edito ademais estes últimos.

A minha imagem por favor não estampe, não enquadre, não engesse. E se a obtiver de algum acidente, uma que, digital, não respira, por favor, te rogo, te peço: não compartilhe. Não diga de mim: nada, que não sabe. Nem mesmo com minha autorização expressa, etiqueta acima, no meu último momento. Não passe resumo de mim para o padre, e desde já, e por favor: não chame um padre. Me esqueça e pronto. Creio que até lá estarei obsoleto.

O PINHEIRO QUE NÃO PEDIU PRA NASCER

Mas nasceu. E agora?
Nasceu no canteiro de flores, ao lado da entrada do carro, na beira do concreto, no acesso, colado ao pilar que segura o portão.
Deseja que o adotem.
A mãe não tem terreno onde possa plantar, só uma pequena casa no centro da cidade. Qualquer lugar que crescesse, fosse ali, incomodaria os vizinhos no futuro.
Os avós até tem um pedaço de mato, poderia pedir a fração necessária para crescer uma grande árvore. Em vinte ou trinta anos, daria pinha, seu fruto, e sementes.
Lá não é bem uma fazenda, com capatazes. Mas há ao menos um facão no paiol. É risco imenso: ser decapitado.
Ao menos teria uma chance. Caminhasse, fosse escondido, pela sombra, à noite, enraizasse numa margem, nos trinta metros reservados por lei, viveria.

SÃO TRIVIALIDADES

Passatempo: transportar a guerreira Diana do pote de sal para o quadro negro, editar no celular.

Vivemos dias felizes. Ou muito agradáveis, não sei dizer. O tempo é fresco, no geral. O sol, às vezes, é escaldante, tal como esperado. A chuva desaba ao final de cada tarde, e se o vento venta bem não há telhas quebradas. Gozamos saúde, aí residem nove décimos da Felicidade.

As férias estão suspensas. Meu amado funcionário público passará pela transição de governo; o queridinho da mãe está recém-empregado; os demais, não temos onde ir. O mundo está contaminado. Tidas estas considerações, comprei uma piscina básica, borda inflável, capacidade para dois mil litros. Alguma diversão é necessária.

Também voltei a começar a correr. Pista exclusiva, agora. Ainda fico sem fôlego, do jeito como ficava correndo na rua, mas sem as máscaras consigo respirar. Argasmo: é o imenso prazer em voltar a sentir ar na cara depois de tirar a máscara, aprendo via WhatsApp. São conceitos novos para o ano atípico. Ao lado de casa há um terreno baldio com grama roçada, que para contornar caminhando levo minuto e meio. Trinta voltas, uma corrida, outra andada, são quinze minutos correndo. É meu recorde, por enquanto (somando os três dias seguidos).

Faço contas, vivo disso, sou um gênio, posso provar. Minhas unhas já têm uns dias, adotaram padrão para a versão senhora de mim escritora: cor azul, tom de tinta de caneta azul. E foi aí que me ocorreu! Eleições municipais, pena individual para assinar, esmalte azul, soma tudo, dei à luz um projeto tão chinês quanto paraguaio de desenvolver, produzir e comercializar pela internet: unhas postiças tinteiro.

Unha é muito duro, me diz o dentista, com quem me aconselho, prevê prejuízos, desgaste dos dentes. Parei de roer a mando dele, o que me entreter ajuda. Dei início à leitura, este ano, para vencer em outro, de Guerra e paz. São as batalhas do meu Cotidiano. Registro a ideia (incrível!) que tive, corro o risco de vazar, fazer fortunas, manchar minha reputação. Vocês testemunham. Enjeitada na fonte, quem quiser que intente a partir do invento.

Volto-me ao que sei, mais quatro anos, bem confortável, antes que vírus, decreto ou distrato deem cabo da minha alegria. Quitar a casa, sair da ativa, depois escrever, ou não, dependendo do cálculo da aposentadoria proporcional, estão nas ordens dos dias vindouros. Se for bem razoável, vou abrir uma vaga. Deixo margem na pacata vida para eventos não previstos. Lá pelo dia dezesseis de dezembro de 2024, em revisitar esta página, é quase dado por certo, vou poder observar a magnitude das trapalhadas e dos meus erros de previsão.

SOBRE AS TRADUÇÕES QUE A SOCIEDADE NÃO PROMOVE, ENVOLVIDA DEMAIS QUE ESTÁ EM PROMOVER TRA(D)IÇÕES

Desenho ‘copiado’ mão livre, da ilustração de Joana Veloso para edição 248 do Rascunho, no texto “Fabrica de mim”, de Noemi Jaffe, página 12.

Estudando espanhol, de texto escolhido aleatoriamente – eu não sabia o significado da palavra celo – extraio esta maravilha: Y en algunos casos llega, efectivamente, el individuo que se las llevará contento y bailando para el Registro Civil, que debía denominarse “Registro de la Propiedad Femenina”.

Todo mundo, é claro, não encontrará a pérola na concha de aspas. Mas a mulher (e o homem) que procura averbar o próprio divórcio no Cartório de Registro de Imóveis e depende da boa vontade de que o ex-companheiro lhe forneça uma cópia autenticada do Registro Geral, sumamente necessária para: nada, será sensível.

Por judiaria de outra natureza, indivíduos de ambos os sexos e suas derivações melhor se identificarão com este trecho do mesmo texto: Pero en aquellas que aparentan celos, descubrimos que el celo es un sentimiento cuya finalidad es demostrar amor intenso inexistente, hacia un bobalicón que sólo cree en el amor cuando el amor va acompañado de celos.

Entendi o que significa celo, concluo a pesquisa. Queira ler na íntegra, clique aqui: https://albalearning.com/audiolibros/arlt/causa.html. Por conselho: arrisque-se! Estudar espanhol eventualmente o porá, como a mim, em contato fortuito (ou forçoso) com textos que não soariam tão bem em Português, que dirá, penso eu, ao menos para mim, no hoje quase inalcançável, obscuro, zeloso Alemão. (Sag nichts!).

Alguém que mal se dá conta de língua ferina que adota nos seus diálogos diários pode preferir, ante a se esforçar mais, palavreado fácil, barato, contagioso, a arte asterisco-estrelar do f***-**, cacakás, caretinhas. Pode, mesmo sem querer, acabar traduzindo agressão por mimimi, por exemplo.

É claro que não merecerá (só por isso) um soco no estômago ou o desconforto gratuito de uma úlcera. Nem desejemos. É preciso lembrar que pessoa agredida, mais do que practica, vira especialista na práctica de la voluntad. Quanto mais agredida, mais agride, mais se auto agride, num ciclo vicioso. Prefere estar cercada de grandes desafios na vida, e só, do que mal cercada.

De cualquier manera, este texto, do qual nos apropriamos e que distorcemos ao nosso gosto, es digno de estudio, no por los disgustos que provoca, sino por lo que revela en cuanto a psicología individual.

É “DIA DA INDEPENDÊNCIA”

Grilo verde e amarelo, de Alegra Catarina.

Venho conversando com o mais novo sobre hipotético Projeto de Estudo das Densidades da Neblina. Seria preciso estabelecer uma régua de distância e a rotina de apontamentos diários do fenômeno observado. O mais velho dirige como se tivesse visão melhor que a minha (sob tais condições); a do meio prefere medir o calor do sol na pele; o menor me leva a sério.

Nebulosidade, opacidade, opcionalidade, probabilidade, Cisnes Negros, antifragilidade – noto que mudei minhas escolhas de leituras. São menos crônicas e mais ensaios. Registro que ainda não sei como colocar tanto desconhecimento adquirido em prática. Meu amor, por sua vez, ouve o relógio, levanta, se veste, escova os dentes e então me beija, já se despedindo, põe água para esquentar, vai tratar os cachorros, volta, faz o café. Pra ele tudo é simples. Pra mim, tudo é complicado. Espero o cheiro de café chegar.

Este 09 de Setembro fará um ano que moramos todos juntos – em meio à névoa típica e assídua – no Bairro 25 de Julho. Preciso saber como me sinto, mas, ainda é 07 de Setembro e algum gesto de patriotismo é necessário. Depois a gente comemora!

***

Eu e os vizinhos da Rua Lindolfo Hastreiter – endereço do trabalho – enchemos o cesto no início da rua sem saída, pois o caminhão da Coleta Seletiva deveria passar hoje, segunda-feira, feriado, não veio. Considero a hipótese de recolher todo o material reciclável com a caminhonete e levar até a frente do portão da cooperativa de reciclagem, deixar lá para ser processado na terça. Meu amor hesita um segundo, concorda, “só porque te amo muito” e estamos com roupa de três dias de trabalho: faxina, pintura, arrumações.

Chegamos na cooperativa, os portões estão abertos, para nossa surpresa. Pergunto pra Dona Mocinha onde posso descarregar, ela indica o lado esquerdo, mais aos fundos do galpão. Outra moça nos aguarda, começa a tirar o material da caçamba, depositar no início da esteira ligada. Pego algumas sacolas, copio o trabalho. Olho para a extensão do equipamento. Quinze pessoas dividem a função de triar e o material é escasso. Foi bom ter vindo.

***

A rua que dá acesso ao PEV (Ponto de Entrega Voluntária) – destino das lâmpadas queimadas – está com meios fios instalados, pronta para ser asfaltada. Comento, a caminho, sobre a vocação dos engenheiros de obras (viárias): é trabalho para muitas vidas. Menos importante, conto obras grandiosas que não fiz. Luto, brava, para desviar de inventar coerências, narrativas de simplificação. Mas se quero servir à arte (vi isso num seriado): tenho que aprender a expressar meus sentimentos.

Pequena, me impactou muito assistir à novela A Rainha da Sucata e desde então acredito ser possível a qualquer um: começar do nada, construir um império, quem sabe virar Prefeito ou Presidente da República. O caminho é nebuloso, obter apoio é altamente improvável, ninguém garante que não possa acontecer com você!

É grave que crianças não sejam incentivadas, de cedo, a criar seus próprios métodos de identificar e rastrear as milhares de variáveis que impactam em um único evento, positivo ou negativo. A aproveitar melhor o tempo, e exemplos, a seu favor.

***

Essas linhas foram escritas sem rigor científico. São meras observações. Se você não entendeu nada – e era de se esperar – entendeu certo.

COTA-REDAÇÃO DO DIA

“Amor de leitão, Helio!”, copiei de O Pasquim.

Colo depoimento, resposta à pergunta: “WEG, a ação está cara ou está barata?“, desta contadora sincera pro “Economista Sincero”.

Também sou catarinense. Comecei a investir um pouquinho neste início de ano, como aprendizado obrigatório. Contadora há duas décadas, a experiência da renda variável me faltava na pele. Reservei para o fim um pequeno valor inicial, que, opcionalmente, daria para comprar uma bela bicicleta. Igual que certa pintora, sou muito tensa, o que preciso é de empurrão bem dado. Vi a WEGE3 a R$ 33, esqueci a bicicleta.

Investidor miudinho, simpatizo com: NTCO3, mas não gosto da oscilação de R$ 40, para R$ 50, indo e vindo, quê explica? MGLU3, de R$ 79, para R$ 89, indo e vindo, quê justifica? BTOW3 R$ 109, para R$ 127, indo e vindo, não é pra novatos. B3SA3 oscilando de R$ 58, para R$ 64, está bem, é razoável.

Antes destas preferências, pastei no laboratório nacional de investigação veterinária, no grupo das proteínas, e bebi das gasolinas, dei meus obas nas ações do ‘Limbo do Nem Indo Nem Vindo’, vendi pelo custo e até logo. Está errado o raciocínio anterior. Pois são justo as ações que mais oscilam que permitem maior rendimento.

Claro!!! Se eu tivesse, lá atrás, comprado cem bicicletas, primeiro: vendia tudo. Está todo mundo comprando. Por que não tive esta ideia? A demanda é que manda. Comprava a maior variedade de boas ações pelo menor preço da última quinzena, vendia de novo, sem pressa, proteger o lucro, pela maior oferta na nova semana, ou seja lá que outra estratégia, de erro em erro, acerto em acerto, dava pra ganhar o mundo.

Para tudo. Voltei pra WEG. Tem mais meu tipinho. Catarina raiz, não importa o que aconteça, se as coisas piorarem, não vão pioram tanto. E se melhorarem, também não será tanto. Quer dizer, me sinto melhor diante de uma oscilação de R$ 4 pra baixo e R$ 5 pra cima. Investindo numa empresa que cuida em se precaver contra as grandes depressões, ainda tem pele em jogo, mas está longe de apreciar viver com a corda no pescoço.

WEG, minha ação cara: é por esta particularidade, que te amo!

“USAR MÁSCARAS NÃO ADIANTA”

Minha multiplicação de um desenho a partir de desenho do filho, de um desenho.

Hoje fui incumbida de entregar 45 máscaras de pano na Cooperativa dos Catadores de Material Reciclável. Quero noticiar sobre.

A cooperativa está com os portões fechados, abrindo somente para chegada dos caminhões da empresa Transresíduos. O serviço de coleta é considerado essencial, como sabem, e uma vez coletado o material reciclável segue para cooperativa. Lá não pode ser acumulado em grandes quantidades, que dirá por muito tempo, sem processamento, pois se assim fizer a cooperativa será notificada pela Vigilância Estadual. Isso já aconteceu no passado. Daí porque os cooperados seguem trabalhando, ainda que se saibam: expostos ao coronavírus.

Cheguei lá, quase ao mesmo tempo, chegou um carro de particular trazendo materiais recicláveis. Fomos ambos atendidos do lado de fora do portão, aberto o cadeado. Eu usava máscara. O condutor do outro veículo, também. O reciclador que nos atendeu não usava, respeitou a distância.

E o que muda com a chegada das máscaras aos recicladores? Primeiro, creio eu, diminui a sensação de que ninguém se preocupa. A presidente da cooperativa, Sandra A. L. C. Machado, irá orientar os cooperados a utilizar as máscaras de pano (tecido duplo), que os protege, especificará, ainda que minimamente, de eventuais perdigotos lançados na respiração dos colegas cooperados que trabalham um frente ao outro, seja na esteira, na prensa, em todo galpão. Cada um será orientado a levar sua máscara para casa, ao final do dia lavar e estender secar, para ter a máscara para usar no outro dia. Se porventura esquecer, haverá algumas unidades reserva.

Os recicladores estão muito expostos. Tocam o dia todo em materiais que toda cidade destina pra lá. Pessoalmente não sei se o trânsito de máscaras para casa é ideal. Então talvez alguém pudesse sugerir que um cooperado se responsabilize por recolher, lavar bem cada máscara, estender secar e redistribuir no dia seguinte, limpas. Não sei se todos prefeririam desta maneira, nem se seria a melhor opção.

A filosofia ou método ‘LEAN Adaptable to Any Circumstance‘ – reinventamos segundo nosso interesse haja cabimento ou não -, pretende ensinar empreendedores a aperfeiçoar o uso de seus recursos de forma contínua, sempre revisando processos internos, levando o feedback em consideração. Pois que venham as críticas!

Sabemos que uma pessoa respirando por poucas horas com uma máscara de pano em pouco tempo irá umedecer a máscara e neste instante estará mal protegida. Isso precisa ficar claro aos recicladores. Estando claro “de que adianta continuar usando a máscara?”, perguntarão. Bom, da mesma maneira como acontece com toda ação de conscientização para a reciclagem – os resultados nem sempre são mensuráveis – estaríamos usando a máscara para, entre outras coisas:
* treinar usar máscara;
* estar protegido nas primeiras horas;
* acostumar a ver uns aos outros de máscara;
* habituar a conversar com o outro de máscara;
* aprender a evitar levar a mão à boca, porque a máscara lembrará que a mão pode estar contaminada: de um vírus qualquer, de um vírus pandêmico, de germes, bactérias, fungos.

Em suma, talvez o uso da máscara venha para ficar.

Quando fiz um pedido de máscaras no grupo da família, minha irmã e minha sogra enviaram alguns contatos. Obrigada! Em especial agradecer a Nágila Hinckel, nos retornou em nome do Rotary Club. Infelizmente o clube não tem máscaras para doar neste momento mas poderá fazer esforços em conseguir algumas unidades adiante. E, claro, ao Clube da Lady, que se comoveu demais com minha mensagem, fornecendo as 45 unidades distribuídas. Esta mensagem que colo:

“Os recicladores podem eventualmente não ser considerados tão importantes como os profissionais da saúde, que, como dizem: estão na frente da linha. Não obstante, se um cooperado se contamina, contamina outros que trabalham consigo, leva o vírus pra casa, e nesta temível hipótese, a Saúde Pública terá que lidar com uma quantidade de casos local muito maior. Ao cuidar de cada trabalhador na ativa, ao considerar o reciclador essencial, e em protegê-los, ainda que minimamente mais que antes, protegemos o mundo todo.”

As ladies entendem desta maneira. As costureiras, que não medem esforços em produzir mais unidades, entendem desta maneira. O Rotary entende desta maneira. Eu também. E os cooperados, que desde hoje estão usando máscaras, dando o exemplo a cada trabalhador, pessoa da família e bairro para que se protejam, entendem desta maneira. Ninguém é obrigado a concordar. Escrevo porque conto com leitores que discordam. Nos ajudem a aperfeiçoar a defesa!

***

Por favor, quem puder doar mais unidades, doe. Quem puder usar máscara, use. Forte abraço, fiquem bem, obrigada.

CRÔNICA LARGADA À METADE

Pobres dos mais pobres. Sem saber onde encontrar o pão, morrerão pela fome. Sem crédito para o celular, sem serviço, sem renda, sem transporte, sem trabalho. Enclausurados no menor dos espaços – o público vago. A criatividade sufocada, a mão de obra amarrada. “Economizem água”, anunciará o rádio.

Legislação fiscal, trabalhista, ambiental, sanitária, segurança do trabalho, direito civil, nunca foram tão lidas, passam por revisões pontuais. O governador do estado, de ser invisível a ser amado. O economista, em algum lugar, cuida da economia, e aquele teu amigo, desprezível por ser contador, faz as contas, dá os rumos, os conselhos mais bestas, você pensa. “Reserve um pouco, ponha outro tanto para circular. Ajuste regras de concessão de crédito. Negocie taxas de juros e prazos de dívidas. Invista na Weg”, lhe dirá.

Há um certo ócio permitindo certo descanso. As pessoas vão levando numa boa. Há um silêncio bom. A música alegre parou de tocar. Não combinava. O rádio – “a rádio!” – começa a rezar. Os mais velhos pedem a deus para morrer nesta hora. “Coisa mais deprimente…” e revisam as preces, de pronto. “Deus não há de atender aos que pedem”.

Sábios tem modelos mentais para tudo. É preciso se ocupar. Pensar direito. Se ao menos aquela encomenda chegasse. Ligar no correio. “Este telefone está programado para não receber ligação”, o aparelho responde. E de repente me lembro de mim mesma. Sou, como os correios, serviço essencial. Sou das ciências sociais. Há espaço para novas verdades. Já não há rancores…

14 DE DEZEMBRO

Estou adiantada. Eu sei. Mas não se pode deixar para a última hora lembrar certas datas. Neste dia, nasceu uma pessoa importante no curso do meu destino. Afinal, ela me ajudou na parte crucial de eu formar uma família linda. Fecundou três dos meus óvulos. Viva!

Também foi neste dia que um amorzinho meu se casou. Isso já faz algum tempo, mas, como eu poderia esquecer a data? É importante que se diga: casou com outra moça. Uma que conheceu no mesmo dia em que me conheceu. Na verdade tem doze horas de diferença entre nós. Ele aceitou a amizade dela no Facebook na noite anterior. Eu o conheci na tarde seguinte, pessoalmente. E na noite seguinte a esta, foi a vez dela.

Sei que soa engraçado, mas as coisas são como são. Cheguei atrasada, pode-se dizer. E se conta a meu favor, conto que me apaixonei primeiro. (Criancice a minha registrar tal detalhe, eu sei.)

Reparo, depois de tanto tempo, o quanto a data é absurda e sem importância para mim, para o mundo, como um todo. Afinal, o que é que se celebra num dia 14 de dezembro?

Celebro ter minha vida mais ou menos em dia. A minha certidão de divórcio. O meu lindo nome de solteira – do qual, diga-se, nunca mais vou me afastar, nem mesmo por amor. Ter dado conta de transmitir vinte declarações fora do prazo em um único dia, ontem, dia em que finalmente consegui procuração do cliente para realizar a tarefa. E que terei multas a pagar a respeito, celebro!, porque quem nunca pagou uma multa não correu o risco, não tem recursos, nem tem em sua carteira de clientes o melhor cliente do mundo segundo os meus critérios.

Oh, deus, isso virou bem bem uma oração. Celebro viver na mesma cidade onde vivem as pessoas mais adoráveis do mundo, como exemplo, grande exemplo, a diretora da escola das crianças, Zuleica.

Celebro ter este cubículo três por três onde fica meu escritório, onde trabalho ouvindo os vídeos do Seiiti Arata, além de três músicas boas que seleciono a cada ano, e é tudo. O que mais celebro, nestes dois dias que antecedem o dia de celebrar o dia em que uma mulher e um homem influíram no meu destino dando a luz a um bebê, é que eu superei a necessidade (narrável) que tinha de tentar agradar quem cito nos dois primeiros parágrafos.

Em tempo, em séculos distintos, neste mesmo dia: um balão de ar quente não tripulado flutua quase 2 km; invasores deixam a Rússia enquanto gente distinta isola o plutônio; os homens tentam tanto voar que aprendem e uma espaçonave acaba voando para Vênus! Num dia como estes, num dia 14. Celebremos.

CHAMADAS PRELIMINARES

Come as you are, as you were / As I want you to be”
Composição: Dave Grohl / Krist Novoselic / Kurt Cobain

O sol, e um convite inesperado, prometia praia. O casal e as filhas estariam por lá. Era descer a serra e chegar. A senhora convidou a irmã. O marido, o irmão. Vinham do mesmo lugar. Não sabiam um do outro. Chegaram juntos, em dois carros. Estado civil: informalmente separados dos seus antigos pares.

A jovem mulher pôs um biquíni minúsculo. O homem barbado seguiu seus passos, pela areia, de sunga azul. Iam de encontro à família, de cedo instalada ao final da Bacia da Vovó. Ardiam no céu cem sóis. Ela pediu a gentileza de que ele esparramasse creme protetor solar nas suas costas. E retribuiu o favor espirrando spray protetor nos pelos das costas dele, como lhe pediu. Foi tudo que se passou, até domingo.

Cada um seguiu à serra, sozinho. Saíram com breve intervalo. Não se viram, desde então. Resultado de uma leve batida no sábado, no retorno do supermercado, o carro vermelho estragou. O guincho do seguro fora acionado. Ele não soube, passou direto. Ela tinha iogurte e frutas no isopor. Esperou por horas. O veículo a cem metros de uma igreja, numa saída à direita da rodovia congestionada. Os fieis das dezoito começavam a chegar. Livros embaixo dos braços.

Conteve a excitação por meses. Queria poder tocá-lo, como ele a tocara. Deixou recado, já era abril. E de lá pra cá, muitas vezes, quando acaso brigaram. Duas mensagens: se fazem às pazes.

Ela fez chantagens. Apelou para o ciúme infundado. Julgou à revelia, por traição financeira, certa vez. Convenceu-o de que era tensão, estresse, cansaço. A falta dele, nela. “Posso ir te buscar?”, ele sempre propõe. É perto, chega logo, conversam e tudo se esclarece…

Antes deste amor, houve outro. Ela conheceu na internet. Marcaram de se encontrar. Ele também conheceu uma moça. Os mesmos meios e termos. Infelizes os desfechos, decidiram por nunca mais. A qualquer vacilo, repetem o mantra (é Braga, no conselho): “Não ameis à distância, não ameis, não ameis!” .

Estão presentes na vida real um do outro há três anos, assim: a cinco minutos de alcance. Ela chama, ele vem. Ele chama, ela vai até ele. A palavra não é uma arma on line engatilhada, apontada para o meio do peito. É sempre aceitação, redenção, convite aberto, caminho conhecido para o fim do sofrimento.

FAMILIENFESTIVAL

“De repente, escolhemos a vida de alguém.
Era essa que a gente queria.”
Elsie Lessa

Dias atrás um morador da cidade perdeu a vida num não acidente. A viúva está sozinha. O irmão também, desde o divórcio. Nada os impede de buscar novos pares. Homens, mulheres. Casar. Não casar. Ser filhos sem filhos. Deixar os pais antes. Adotar. Ter um cachorro. Viver como fossem solteiros.

As pessoas casam. Apesar da garantia de que somente um quarto delas ainda estará feliz após quinze anos. Desculpas para desistir, ao invés de tentar, não faltam. Incompatibilidade psicológica; interesses divergentes; o previsível colapso na atração sexual; incompetência em conviver; o descaso pela instituição família; estresse, presente ou vindouro.

Casam. A mulher trabalha. Não cozinha ou costura. A mãe não decide por ela. O homem manda menos. Cuidar de crianças, idosos, amigos, dores alheias, finanças, carreira, aposentadoria, e da própria saúde, das tarefas as mais banais, tudo pode ser terceirizado.

Hoje o filho único de par de amigos viaja para intercâmbio na casa de, como ele diz: família de pai, mãe e criança de quinze anos. Ele não sabe – ainda não os conhece -, se terá ein Bruder ou eine Schwester. Irmão ou irmã. Menos! A afirmação do parágrafo anterior não se aplica ao presente caso. Outros filhos sim se ressentem por não ter a oportunidade.

Olho para minha família, mais atenta. Eu, três filhos. Sinto-me bem quanto ao tamanho. O mais velho namora. A filha paquera. O pequeno não. Viver (só) com eles me estraga um pouco. Tomo posturas de adolescente: saber mais que os outros e justificar fortuito o oprimido sem ter a própria procuração.

Ser ‘a tia separada’ me incomoda. Nem tanto se namoro ‘o tio separado’, e temos os mesmos sobrinhos. Onde moro somos uma colcha de retalho de parentes. Algum destes gosta de brincar que o inconveniente de ser o viúvo é melhor que o de ser o separado que é melhor do que ser o morto. Mas nem sempre.

Guerras, acidentes, epidemias, já não matam tantos indivíduos como no passado. Menos bebês nascem por desnecessários. São fatores determinantes, nas famílias. Pois quando alguém engravida, ou nasce, morre, enviúva, agrega, separa, muda, adoece, aposenta, a família se renova. É outra família. O equilíbrio social desejado está em cada indivíduo viver bem o caos do seu tempo.

Novas habilidades são importantes na presente era. Há quem defenda o surrado ‘véu’ como pano para tudo. Defendo a liberdade de associação, mais amor, e menos burocracia, por favor.

…………………………………………………………………………………………………………………………….. “Exercício de EscritaOficina Escrevendo Crônicas. * Escreva uma crônica artigo, cujo tema é as ‘novas famílias’. Sim, porque a sociedade mudou e as relações familiares também mudaram. Qual é a sua opinião sobre isso? Tamanho até 2.500 caracteres.

AJUSTE À METÁFORA

A terra é uma superfície mais ou menos plana esticada sobre uma bola de fogo controlada – principal fonte de recursos. As pessoas vivem na montanha, no vale, ou no trânsito entre a montanha e o vale. Além das pessoas existem a fauna e a flora. O erro gritante – nesta declaração de ajustes necessários – é que as pessoas não se entendem como fauna.

DESAFIO COPIADO

Começo pelo trivial, mulato básico, Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908). O dia estava quente, tinha enterro para ir. Fosse um “Cubas!”, que tivesse morrido… Não era. Sacou o bloco do bolso, tomou “Notas” – Capítulo de livro. Ou crônica, vá. O que viesse. E tudo veio. Depois deste dia, não importa que o senhor ou senhora seja o próprio Jorge Amado (1912 – 2001), falarão de ti, comparado a ele, e dele, comparando a Shakespeare (e quem foi Shakespeare, afinal?).

Desgraça e fortuna, isso é Literatura. Pense o assunto, a maneira de dizer, a linguagem – alguém manjou primeiro. Você conhece Joaquim Ferreira dos Santos? É destes casos. Teve seus contratempos – direitos autorais difíceis de conseguir. Ainda assim, selecionou: “As Cem Melhores Crônicas Brasileiras”, de 1.850 até os anos 2000. Deve ter lido umas seis mil crônicas, até chegar à prata das conclusões.

Sucinto, em meia lauda para cada período, esclareceu: cada época em que foi escrita, a crônica sempre se deu ao leitor como o suspiro se dá à vida. O alfinete fura os olhos do pássaro – vide Nelson Falcão Rodrigues (1912 – 1980) é pra fazer enxergar ao homem, o que há de lindo, no próprio homem, na sangria do seu absurdo.

Retrospectiva. Entra em cena o cronista “e flana pela cidade.” Registra a história, como prefere ver. Rápido e certeiro, moderniza. E Rubem Braga (1913 – 1990) ensina. The book is on the table. Quanto mais lemos, melhor escrevemos. Time de craques em forma. Há demanda? Fabrica-se. Crônica, sua linda, tu és: o queridinho da redação. Então, rebola. Às ruas. É urgente. É diário. É preciso ouvir os discursos. Sentir os humores. Trazer às páginas do jornal.

Dito, e feito. Ditadura. “Longe daqui, aqui mesmo”. Exilados, camuflados, soldados melhor treinados – e somos – escreveremos. Frutos frescos, aos nossos fantasmas. Amor, à nova bandeira: por um mundo com mais sexo! Se há a vida privada, há também a vida pública. Tudo é da conta do povo. Visível ou invisível, a onda da internet ainda derrubará o barraco, subirá no salto, cairá na bordoada. Fará vítimas e as abandonará à própria sorte.

Há de resgatar do mar, um mar de refugiados, em seu barco.

……………………………………………………………………………………………………………………………… Exercício de aquecimento – Oficina Escrevendo Crônicas. * Pesquise crônicas dos anos 1940-60, 1970-90 e textos atuais; * Separe 3 (uma de cada época) que demonstrem diferenças de tema/formato/linguagem; * Se conseguir, escreva até uma lauda com a análise de trais diferenças.

INCIDENTE SUBORDINADO

A rua sem saída fora revirada pelo plano municipal de expansão da canalização do esgoto. A argila amarela agora colore a brita azul. Helenor quis ligar para o amigo Hyles  Borborygmi, pedir o favor de mandar consertar o estrago da empresa contratada. Optou por gravar um áudio, modulada a voz. Era noite quando Hyles respondeu. Propôs um café. Ele supervisionaria o esparramar de meio metro de pedra necessário, amanhã depois das oito.

Helenor levantou da cama, passar creme nos cabelos.

A CASA DA REVISTA

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Escalar, de Alegra Catarina

Bem vindos ao supremo tour. Sigam pela calçada, dá no andar principal. O acesso dos carros é pela esquerda, no desnível, evitem. Houve um leve deslizamento do acervo, ao lado da coluna.

A família recém comprou a casa, entra pela porta principal, dá com a sala. Em planta aberta, esta tem o formato da letra éfe maiúscula (F), de ponta cabeça.

Uma mesa redonda de imbuia, sem metade das cadeiras possíveis arredor, foi deixada junto da entrada. Adiante dela, o vão livre. À direita, o comprimento. Aos fundos deste, estante antiga, da mesma madeira, pesada para mover. Ao lado, sofá dois lugares, sujo, com pelos de cachorros. E no braço central, outro, pior conservado, do mesmo conjunto, com mais lugares. Sem quadros, enfeites, almofadas.

O recorte da parede, sem porta, à direita do sofá maior, dá no que seria a cozinha. Tem azulejos e parece que foi pintada uma vez, há anos.

Pierís – “será nossa primeira convidada” -, a mais jovem do grupo de cinco adultos, dedica-se a encontrar os defeitos próprios do abandono. O piso, por exemplo, tem riscos fundos e pingos de cera por todo lado. Cogita se terão luz à noite e ninguém testou se sai água das torneiras. É parte inexplorada.

A porta francesa defronte ao estofado leva à varanda de antigo jardim. Ora habitado por família maior, aranhas. Em todo o pátio o emaranhado de ciprestes sem poda limita a circulação. Um carreiro leva para debaixo dos cipós.

Os veículos da família foram entregues na compra,  sonho comum, estavam a pé. Chegada a fome, saem para rua a vagar. Não há comida na casa. Ninguém se ocupou do detalhe, onde irá dormir, a existência de um chuveiro. E eis porquê, na volta, o tédio se instalou, sem curiosidade maior.

Todos, de pequenos, viveram no bairro. A casa era o grande mistério. Nunca caiu para ali uma bola, nem foram chamados a entrar. Quem quer que morasse, era feliz, e essa suposição basta no sendo comum. A comoção é geral.

Saciados, de volta, estiraram na poltrona, ignorando a vassoura. Pierís varre de leve o espaço sem levantar fungos, mofo, ácaros. Descerá até a garagem amanhã. Faz planos… Talvez encontre um balde.

A varanda está coberta por grossa camada de pó molhado e seco muitas vezes. Consistente camada de folhas secas descansa sobre. Serão dias de árduo trabalho aos dispostos a trabalhar.

Começa a abrir, uma a uma, as pequenas portas do móvel. Pilhas enferrujadas, remédios vencidos, pastilhas de cloro, a caixa com fósforos, foram deixados à mão. Mais ao alto, revista antiga, grossa, papel de gibi, as páginas se desfazendo.

Caída a noite, tocos de velas são acesos. Um sobre a mesa, vários direto na madeira do armário. A luz concentrada reflete nas janelas sem cortinas e fora isso ninguém tem com que se ocupar. Mulheres em maios de banho, contos, piadas e propaganda de utensílios domésticos viram o entretenimento revesado dos homens.

A outra mulher na casa, real, fumante, muito magra, tira agulhas do bolso, deita-os um por vez no sofá menor, e se exercita neles. Logo “é tua vez, Pierís”. Uma agulha grossa, sem esterilização, se recusa a entrar no abdômen, pra cima do umbigo, onde é cutucada. A moça ficou sem entender o que provocou a mudança na expressão da mulher, quando insiste em preferir explorar os tesouros de uma gaveta emperrada.

Percebeu que chovia antes de acordar. Saiu cedo, às pressas. A revista ficou lá.

A CONQUISTA DO ESPAÇO

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Dedicatória do Luiz para Silvia Chaves Boccales

Tenho que proteger as pessoas com quem convivo, da fantasia, que ora adiante visto. Encontrar um lugar para usá-la, sem espelho, janelas, riscos.

Todos os dias, ainda passarei o café. Farei a comida. Cuidarei das roupas. Serei diligente no trabalho; e com o gramado, as trepadeiras, o quintal; a pintura das paredes; meu próprio asseio; as caminhadas diárias; as metas de leitura; o sono; tudo.

Não abrirei exceção. Separarei a presente vaidade da vida real, quanto me custe.

Terei outro nome, outros cabelos. Lisos, iguais aos da minha sobrinha. Terei uma sobrinha indiana. Outra profissão. Serei uma ladra de cabelos indianos, no templo de onde pretendo extrair cada pretexto, e o refutar por princípio.

Reputação: nenhuma, eu a terei.

Caixas de ovos nas paredes de um cômodo minúsculo reduzirão os ruídos da minha solitária. Pendurarei samambaias secas e vou incluir plantas extraterrestres, carnívoras, maiores. Alguma que suporte menos luz.

Escreverei de olhos vendados. Permitirei os erros.

Entre as nuvens artificiais, fios de arame, meu próprio parreiral de quiuís, carregado, me saciará.

Alvenaria, com minúsculas frestas. Dentro do cubo, meio metro cúbico de terra vermelha, pra amontar, sentar sobre, aplainar, deitar, e me enterrar, tendo frio.

Nenhuma pedra para (a)tirar. Cantil de água com vinte litros, e um canudinho para entrar o ar, se preciso for.

É tudo.

A FACULDADE DAS COISAS

Alguém poderia pensar que você tem mindset fixo, dada a tua resistência em organizar um curso online para a Coisa. Ou apenas, ou talvez, ainda não conseguiu encontrar um bloco de tempo livre, coragem, e os meios necessários para lidar com o volume de pedidos. Que dó. Há bons cursos que ensinam como fazer.
Limite o número de vagas. Imagina: o que aconteceria se as pessoas já saíssem da escola sabendo tal Coisa? Teríamos que ter, do advento, um curso de como escolher bons fazedores da Coisa. Proíba de pronto, por lei, que se ensine tal Coisa na escola.
Alguma responsabilidade é necessária. Certos produtos não se expõem deste jeito. A fórmula para transformar água em vinho, cerveja ou coca-cola, são exemplos. Regulamente e taxe as bebidas ao máximo. Classifique os grãos de café.
Se for para dividir, divida o pão. O tamanho dos quadradinhos nas barras de chocolate. Produza frutas em abundância, oras. Ração livre de agrotóxicos, artesanal. Bolos inclusivos! Bolos exclusivos!!! Os homens acabarão descobrindo por si só o que quiserem saber. Não perca tempo protegendo o que te faz vaidoso.
Ensine o ofício, os ossos, os cemitérios, os céus e as terras aráveis do ofício. Tudo em grupos pequenos ou em particular, há quem prefira. Quantos mais conhecerem profundamente a Coisa, maiores as chances de aperfeiçoar, melhor o resultado afunilado. Crer no contrário é vício.
Aos ignorantes e aos não vocacionados uma razão ‘da hora’ para viver. É passageiro? O ingresso para o atalho da verdade ao alcance dos que puderem pagar: nua, crua, sem os pelos e o couro, desossada, cortada em postas, dispostas em bandejas de isopor cobertas com filme plástico e uma etiqueta com código de barras. Poções ecológicas, manipuladas. Disponha com fôlder: ‘O destino do lixo’; ‘O egoísmo típico da espécie’.
Ou quem sabe você já sofreu o que não merecia, na vida pregressa? Isso é superável. Uma vez que saiba que o mesmo tipo de pessoas estará sempre a postos para machucá-lo, aprenda golpes rápidos que defendam sem atacar. Frases de aceitação. ‘Eu te amo, mesmo assim. Vai ficar tudo bem. Deixa isso pra depois.’
É possível quebrar a tensão antes do agravo. Há outros cursos que ensinam. Está tudo bem não exigir tanto. Jogar a velha forma fora. Admitir uma nova, outro material. Tudo não precisa ser para sempre como foi antes. Charlatões são necessários, escritores ruins, advogados bons, ter com quem comparar.

Não há faculdade pra tudo. Aprender na marra é escolha.

 

A RETICÊNCIA ELEMENTAR

O COACH PERGUNTA:

Quais são os teus projetos inacabados? O que está te impedindo de acabar com eles de uma vez por todas? São simples, complexos, envolvem formação ou grandes investimentos? Nem deus conseguiria te ajudar num deles, sério isso? É um projeto viável ou inviável, afinal? Se inviável, porque insistir? Você não sabe as respostas às perguntas anteriores? Como assim, não sabe!?

Por falar em deus, como anda a tua fé? Ter ou não ter fé é a mesma coisa, na prática. Todos temos alguma, qual questionamos diário. E somos céticos em certo grau, mas a fé nos provoca o arrepio. Como anda a tua fé?

Logo é teu aniversário. Fosse para organizar sozinho uma festa, teria quem convidar? Por que não? Quem são teus amigos? E teus familiares? Você tem  problemas com alguém específico, que não queira vir lá? Quanta bebida é necessária? Você bebe?  E onde isso iria acontecer?

“Prefere estar sozinho.” Sei. Entenda, estou fazendo perguntas pra te conhecer. Tomo notas. Seja sincero.

Tem quem cuide disso pra você? A responsabilidade em pensar cada detalhe, é tua? Quem teve a ideia da festa? Por que é que você é que está celebrando aniversário, e não outra pessoa?

Teu trabalho é bom o suficiente? Ou é suficientemente bom? O que ganha em troca, de um bom ou mal trabalho? Há parâmetros de comparação? E você os conhece? Tem concorrentes? Colegas melhor preparados? Convive bem com eles? Há alguma possibilidade de fazer parcerias? Está aberto a abrir uma empresa, ter um sócio? Quanto tempo já perdeu, hoje?

Sei que está interessado em saber mais. Deve estar, você mesmo, se perguntando: Acaso é uma análise? Te conheço a tal nível de intimidade? Não há mais ninguém a quem possa perguntar? Um avô, um tio, um primo, um amigo querido, já falecidos? Que interesse tenho eu em ficar aqui a manhã toda passando a vida a limpo contigo? Este não é teu trabalho? Quem perguntou primeiro?

Mas tenho mais perguntas por fazer. Então, por enquanto, não vou te dar resposta alguma. Isso vai ficar para o nosso segundo encontro.

Por que você é tão solitário? E insensível? Como foi que virou este ser imprestável? Irresponsável, preguiçoso, guloso, teimoso – qual destes adjetivos ruins melhor te define? Você é capaz de ser positivo sobre si mesmo? Posso te recomendar a alguém?

O CLIENTE RESPONDE:

São conclusões precipitadas. Se quiser, posso dar detalhes, claro. Será um prazer me apresentar. Caso queira preencher a ficha, se achar importante, diferente das outras pessoas, meu nome é …

A FALTA QUE OS RATOS FAZEM E OUTROS FATOS INCONCILIÁVEIS

Aquelas histórias das quais guardamos, arquivamos, revisamos sistematicamente os detalhes, tendem a nos parecer mais reais.  No fundo, são as mais fantasiosas.

Mas se isso serve ao bom propósito, procura dar mais, mais, e tantos mais detalhes às histórias mais maravilhosas, de modo que façam às histórias ruins se envergonharem – de parecer borrão na janela, que escapou ao pássaro.

Pois é, acontece.

O PÁSSARO DE FRALDAS

Era uma vez um pássaro que usava fraldas descartáveis. Levava consigo às costas, a pequena mochila branca. Peludinha, fora um presente. Nela, fraldas sobressalentes, lenços umedecidos, espelho, lixas de unha.

Era de chorar ouvir os argumentos do pássaro para própria façanha. Contava como, quando, onde, porque tudo aquilo que aconteceu.

O pássaro, vocês não sabem, certa vez conheceu um gato. Assim, bem de pertinho, cá entre nós, amizade mesmo.

Ele, o gato, ensinou ao pássaro ser mais asseado. Lixar as unhas. Passar gel anti frizz nas penugens pra não arrepiarem tanto.

O pássaro de fraldas vinha perdendo território. Os outros pássaros alertaram. Ficava cinco quilômetros para trás a cada dez quilômetros de céu voado.

Continuasse assim, nem a mãe natureza poderia garantir chegada ao destino em tempo: de botar os ovos e chocá-los, antes da primavera.

– Pense nos filhotes, na preservação da espécie, seja responsável, pássaro tolo. Os outros cantavam.

Alguns calados, seguiam o voo sem pensar.

– Pássaros imundos! O pássaro de fraldas retrucava.

Dezenas de sementes deixariam de ser lançadas do alto para se firmar. Diziam em retorno.

O pássaro, ainda nas fraldas, teimou.

Veio o gato. Não sei se o mesmo, não sei se outro mais que este cheiroso, malhado, bigode aparado. Comeu o pássaro.

Da menor das partes, é tudo o que sei. Não posso advogar a favor desta, e nem contra a outra.

Dos outros pássaros sei que quando chove tomam até banho. Só não escovam os dentes. Seria exagero.

PRAZOS ELEITOS

“Só não pode pedir voto.” “Nem dizer o número, que dizer o número é o mesmo que pedir voto. Mas vocês já podem ir nas redes sociais anunciar a convenção, que são pré-candidatos, o nome foi aprovado, estão muito felizes, etc.”

***

“Que se eleja, dentre nós, o menos tímido.” “Troco likes.”

***

“Onde vou peço voto. Vou no mercado, peço voto. Encontro um amigo na rua, peço voto.”

***

“Continue trabalhando, faz bem teu trabalho, e não se iluda. Boa sorte.”

***

“Que ser vereador? Qual a sua formação acadêmica? Tem experiência em humanas e exatas? Qual seu nível de conhecimento da Constituição Federal? Você conhece a Lei Orgânica do município? É a favor do Estado laico ou …”

***

“Não se desligou.”

***

“Camisa clara e blazer escuro ou camisa escura.” “Fotos às 18:00 horas.” “Sorteio dos números.” “Reunião segunda-feira, aqui, às 19:00 horas.” “Toda terça-feira. Todos estão convocados.”

***

“Prestação de contas.” “CNPJ” “Documentos para registro da candidatura.” “Relação de bens.” “Os juízes eleitorais vão querer ser Moros este ano.” “Três dias para abertura de conta.” “Setenta e duas horas.” “Depósito identificado.” “Gastos permitidos.” “Percentuais.”

***

“Churrasco pra mim, sopa pra ela.” A piada da dentadura. “Esta história aconteceu mesmo, não é brincadeira.” “Só esta semana visitamos dez casas.” “Mais saúde, referência em educação, menos gastos com cargos comissionados.”

***

“Enxutos.””Este ano não vai ter pesquisa eleitoral.” “Unidos.” “Chapa pura.” “Coligação.” “Filiados.” “Mulheres.”

***

“Impugnar candidatura.” “Crime eleitoral.” “Jingle.” “Material de campanha.” “O período eleitoral está mais curto este ano.”

***

“Nós.” “Eles.” “O povo está cansado.”

***

“Só não pode pedir voto!”

IMAGENS VELHAS E FUTURISTAS

Ao escritor, como sabem, não importa a ele, pessoalmente, saber como é que você se sente sobre a dor de barriga ou cotovelo, que leva consigo, cativa. Ao escritor, importa a ele levar ao leitor uma imagem, plástica, possível ou impossível, boa ou má, real ou inventada, verdadeira ou verossímil, para que você, diante da imagem, descubra: como é que você se sente.
Pensando nisso, dor aqui, outra ali, me ocorreu que deve ter muita outra gente, além de mim, com a mesma dor de barriga ou de cotovelo hoje. Genérico de chá de cadeira é bom pra tudo, dizem… Até pra ego, inflado ou ferido.
Se você também é escritor, ator, leitor, e-leitor, eleitor, e acordou com sintomas: cartas para a redação. Vai que é epidemia, viral ou mania, destas que a gente pega na internet, já sai replicando: a de ler não pensar; ver e nem considerar; escrever no celular, caindo de sono, e nem editar.
Lembrei agora do velho ditado, “escreveu não leu, pau comeu”, que vivo esquecendo de onde veio, se era a mãe ou o pai, que sempre dizia…
***
Vou tentar! É só o que prometo. E se não conseguir, juro que tento de novo, mas lá adiante. Vou tentar dar a vocês: uma imagem futurista. E vou criá-la, reciclando. Partirei da imagem de uma sufragista, tirada do filme “As sufragistas”, que assisti semana passada.
Tem filme que presta cada serviço, nem imagina. Não é querer reclamar… Mas tive que ver legendado. O dvd era velho e o som da voz dos personagens já não estava “funcionando”. A trilha sonora estava, por incrível que pareça. Desisti de tentar entender como pode isso.
Era o início do século passado. Uma mulher, nenhum homem em defesa dela, sobe no banco, e brada!, em defesa dos oprimidos. Outra mulher, um homem em defesa dela, é trancada no armário, para o próprio bem. Uma mulher, um homem contra ela, se joga em frente a cavalos disparados, numa corrida, diante de um rei. (Evito adiantar o FIM da história.)
Mas isso são imagens velhas e ultrapassadas, não futuristas!, Auristela, alguém irá argumentar. Além disso, que exagero de digressão, hein… Pois bem. Se é a imagem futurista, a que desejam, ei-la, na forma de manchete de capa de um jornal de 2050:
Partidos que nas próximas eleições não cumprirem exigência de 50% de mulheres candidatas a vereador terão chapas impugnadas.”
Hoje, a cota mínima é de 30%. E então, me vem em mente, novamente, as dolores. E como isso atrapalha, ah, minha gente.

QUASE-ATO

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Um passo adiante, de Alegra Catarina.

ELE _ COMEÇA
– Família bonita
– A tua também. Obrigada.
– Só tem duas pessoas na minha. 
– Só tem quatro na minha.
– Quem estava faltando hoje?
– Eu acho pouco porque venho de uma família de seis. [Risos.] O mais velho.
– Legal te ver. Você está bem?
– Muito bem. ⁠⁠⁠⁠Três dias seguidos te vi. É bom te ver, também. Você está bem?
– [Risos]. Juro que não estou seguindo você. ⁠⁠⁠⁠Estou bem sim, vidinha besta e boa de sempre.
– Claro que não está me seguindo. Eu estou. Se chego depois. E tua presença ainda me intimida. Não sei porque.
– [Risos.] Você é boa nisso então. A intimidação é recíproca, fico sem jeito.
⁠⁠⁠⁠- Estamos trabalhando nisso. Com o tempo melhora. Já trocamos um beijinho. É um progresso. Sei tua barba em mim. ⁠⁠⁠Cuide-se bem. Até qualquer hora.
– É, o beijinho foi um progresso. Cuide-se também. Bom trabalho.
– Desculpe se encurto a conversa. O celular está pendurado por um fio curto, distante da mesa, carregando. Beijos. ⁠⁠⁠Bom trabalho.
ELA  _ RETOMA
⁠⁠⁠⁠- ⁠⁠⁠Tive um estímulo agora para finalmente concluir a instalação do WhatsUpp no computador. E não é que funciona. Grata.
– Desculpada, e… Não sou muito bom em longas conversas. Mesmo? Não sabia que existia a possibilidade do WhatsApp no computador.
– Acho que só precisa entrar no endereço web.whatsapp.com. Vai aparecer um código na tela. Coloca o telefone em frente, para ler o código. Depois, um ícone de atalho na barra de ferramentas, vai aparecer um número quando tiver mensagens, igualzinho no celular. Acho que é assim. Meu filho tinha instalado, mas eu não tinha lido o código.
– Gostei do “só” no início da receita de bolo.
– Agora eu sei porque me sinto intimidada na tua presença.
– Porque? Conte-me…
– Porque você é destas pessoas que corrigem quando a gente escreve “à cinco minutos atrás”. (Ainda que eu tenha entendido que a receita lhe pareceu longa para uma frase iniciada em “só”.). Não estou me queixando, só justificando a sensação. Eu gosto de estar exposta. E você me faz rir. É ótimo.
– [Risos.] Eu só aponto essas coisinhas quando sei que a pessoa levará numa boa, sou um chato seletivo. 
– Agradecida.
– Disponha.
ELE  _ VOLTA
– ⁠⁠⁠Não pense que não vi seu status. Boa noite, e bons sonhos.
ELA  _ VÊ A MENSAGEM DELE, HOJE.
 – Bom dia. Se eu pensasse que não iria vê-lo, o meu status, eu não o teria alterado.
(Status: Sou de longas conversas, e de longos silêncios. Ao gosto.)
⁠⁠⁠⁠- Bom dia. [Risos.] Dormiu bem?
– Menos horas que gostaria. Mas maravilhosamente bem. Sonhei sonhos lindos. E você?
– Também, bem menos que gostaria, hoje acordei cedo para levar o filho na escola.
– Não sei se devo enviar mais uma frase. Já foram sete, com esta oito.
– [Risos.]
Mas eu podia ao menos zoar, dizer que “porque”, na pergunta, é separado. 
– Poderia sim.
– Um beijo, lindinho. Preciso ir… Estou aqui a decidir se neste fim de semana pinto os muros, subo o Camapuã ou tenho uma aula de tiro ao alvo. O povo tá na linha esperando. (Dê conselhos.)
– Tá bem, uma quarta opção seria dividir cobertores comigo. Beijo. Tá frio.
– É um mal conselho. Garanto. ⁠⁠⁠Estou namorando um menino.
– Ah, entendi… SorryAulas de tiro, então.
– Gostaria de, eventualmente, não estar. Poder dividir cobertores contigo. Ver se são peludinhos. Quem sabe no próximo inverno.
– Quem sabe. 
ELA  _ VOLTA (DEPOIS DE UM MINUTO DE INTERVALO).
– Desculpe. Eu não tinha como falar antes. Acho que fui leviana em não falar. Acontece que não estou segura de que quero namorar. Ainda que ele seja adorável. Como você, é encantador… Eu me comovo quando me vejo sozinha com meus filhos, e você sozinho com o teu menino. Queria poder convidá-los a vir na minha casa brincar, jogar basquete, talvez. Tem uma cesta enorme num paredão enorme, é bem legal… Sinto muito.
– Tudo bem, de verdade… Estamos sempre ensaiando. Obrigado pelas letrinhas bonitas e pelo carinho.
– Que bom que sentiu o carinho.
– Senti sim, achei que estivemos mais próximos desta vez, foi mais simples e carinhoso.
– Estou ouvindo esta música à alguns dias: “Amor brando”, Karina Buhr.
– Gostosa.
– “… se aproxime de mim, mas não tanto”.
– (*Há.). “…a ponto de eu sentir tua falta quando você for embora”.
– É, tem esse verso aí também. 
– Vamos fazer uma pausa no progresso. E espero te ver, com boa frequência. Porque você é bonito. E eu gosto de te encontrar. Cuide-se bem, até lá.
– Sim, uma pausa em nosso quase-ato. Cuide-se também, um beijo (sob os cobertores peludinhos).
 ELA _ FINALMENTE, PROCURA O NAMORADO!
– Oi. Bom dia. Decidi ficar por aqui. Sábado de manhã ir na Millium comprar um ferro de passar roupas, novo, uma lâmpada para o quarto, que queimou, verniz. Pintar o banco externo. À tarde, ter uma “aula de tiro”. Te namorar um pouco depois. Podemos fazer macarrão à bolonhesa. Tem tudo. Salada de escarola. Domingo, vou lavar os muros, e pintar de concreto, tiver sol. Adiantar a folha de pagamento, no escritório. ‘Cabou’ tempo. Ler. Dormir. Só pra você saber.
(Então ela registra. Para lembrar, de quando ainda era jovem o bastante, e flertava.)
***
QUASE-ATO I: FUGAS CRÔNICAS. Em janeiro/2015.

VIVO, OU MORTO?

Bem cá pertinho. Quero lhe falar, nem sei se devo.

Eventualmente o amigo já tenha brincado na infância de “morto-vivo”. A brincadeira, não vá lembrar, consiste em reunir um grupo de crianças, e estas devem seguir o comando de uma delas, mantendo-se em pé, “vivo”, ou agachar, “morto”. As duas palavras são ditas intercaladas e aleatoriamente, cada vez mais rápido, a fim de provocar que algumas crianças errem o compasso, deixem a brincadeira.

Proponho testar o reflexo dos nossos sentidos, quando diante de algumas situações cotidianas. Vou tentar dar o exemplo:

Você transita pelas ruas, é madrugada, vê uma prostituta com a barra da saia erguida, ofertando serviço. Se for julgar antes feche os olhos. Se for abrir, abra a mente. Se for parar, seja gentil. Se preferir, siga. Se for concorrente, imagine que ela tem celular, talvez saiba ler, seja até mais culta, tenha um carro melhor que o teu, more num apartamento lindo, e escolheu este ponto porque ficava menos iluminado, logo, mais seguro para o cliente. Possivelmente ela não tem passagem pela polícia, nem usa drogas, e tem preservativos na bolsa. Um filho pequeno, menino ou menina, em casa, esperando. Certamente ela tem uma mãe, também. Talvez não tenha mais pai. Ou tenha. Agora já passou. Pode voltar ao que estava fazendo…

Um homem caminha pelas calçadas da Barão do Rio Branco num dia muito gelado. Segue sentido schopping-igreja. É passado das dez da manhã. Ele calça sandálias. O sol mal deu conta de derreter a geada da grama, no Morro dos Três Templos. É um senhor muito velho. Vem na tua direção. Talvez esteja indo ao INSS, que fica para este lado. Traz papéis nas mãos. Você se surpreende com os dedos do pé esquerdo à mostra. Teu olhar foge, conferir a condição do pé direito. Neste, há uma meia. A cor de terra vermelha, e o estado degradado, indica a idade da meia.

Tente manter a própria expressão, cabeça erguida. O homem segue, cabeça baixa. Nada pode ser feito a esta altura da rua. Tuas botas seguem contigo até teu carro. Vá para casa, depois. Separa as roupas. Há uma gaveta com centena de meias. Para de reclamar do frio, do calor. Fecha a boca aberta. Leva o ar puro a entrar das narinas aos pulmões. Sente o cheiro das frutas, confere o preço do pinhão, na quitanda do Knopik, primeiro. O homem bem gostaria de comer uma pocam… Mas ele já está aposentado, é o que parece. Já está lá adiante, agora.

Uma mulher com uma criança de colo, e outra a tiracolo, solicita ajuda financeira, “uns trocadinhos”, na porta da agência do Banco do Brasil. Se tiver, abra a mão. Se não, ou não quiser mesmo contribuir, olha a pessoa nos olhos, diga que lamenta. Se na saída do caixa tiver, caia com uma nota de dez reais – é o valor mínimo disponível para saque. Só se estiver sobrando, mesmo. Mas não feche os olhos, como se não estivesse vendo. Nem faça de conta que não ouviu. Não se finja de morto. Se muito, admita que está falido.

Você pode me ver? Ajudar? Tudo bem: sim ou não. Só evite mentir.

Superei uma fase da vida em que costumava criticar todo mundo: o governo, meu ex-marido, escritores, e os desserviços públicos, por preferência. Pessoas que falam sobre “perdão” no dia destinado à consciência LGBT. O Papa, que é ‘eleito’ para falar em nome do povo já disse que, se a pessoa busca o Senhor, quem é ele para julgar – e quem sou eu? Mas não se trata disso. Abre a mente. Experimenta a sensação de não ser um cordeiro, pra começar.

Somos todos herdeiros (ou desertores) de tudo. A um comando (nosso/vosso) vamos todos morrer ou viver, melhor ou pior. Talvez fosse o caso de ir de encontro d´alguém, do mundo, fazer as pazes. Ou esquecer. O que for melhor para o outro. Chegar até a pessoa, pedir licença e se apresentar, sem ser leviano. Dar teu telefone. Atender, se ela ligar. Convidar para um café que sabe ela jamais irá, a não ser por mínima chance. E se ela for, talvez seja o caso de, estando lá, fazer as pazes consigo mesmo. Deixar a história pra lá.

Talvez, não! É preciso ter certeza. Estamos mortos? Vivos? Qual o próximo movimento? O que se deve fazer? Quem no comando? O outro? A nossa consciência? E eu a vejo? Ouço? Ignoro? Falo com ela? Calo? Doo? Em que pé da vida eu me encontro?

Não sei as respostas pra tudo. Sei que estou ao meu comando. Que algum amigo hei de perder com meus gestos, e nas palavras. Outros, hei de levar.

 

 

TORRES III – A MISSÃO

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Tarrafa, de Alegra Catarina

Fui até a ponte encontrar a moça da ponte, como acontece todos os anos, há três, e apesar de desta vez ter pego a BR 101, mesmo assim me atrasei, perdi a carteira de motorista, esqueci o cartão de débito na leitora. Talvez não exista mesmo remédio pra mim.

Fiquei no Hotel Bauer, só porque foi mais fácil encontrar, que qualquer outro. A primeira estrela de um hotel deveria ser dada a partir da facilidade de encontrá-lo à noite sem saber o nome, ter referência, telefone, endereço. Visualizei a placa adiante, na avenida: “Hotel”, então, aquele devia ser um simples e bom hotel, exatamente o que procurava – acertei.

Algumas novidades se apresentaram desde o ano anterior. Uma ciclovia de cinco mil, seiscentos e setenta e seis vírgula quarenta e um centímetros quadrados (não de extensão) agora faz parte da paisagem no Parque Estadual da Guarita. E no caminho até lá, pronta e inaugurada, a ponte (Anita Garibaldi) nova, em Laguna. De resto, tudo meio igual. A prefeitura ainda não tirou as garrafas pet que serviam de enfeite no Natal de 2014, num grande arco verde atravessando quatro pistas de acesso à cidade de Torres/RS – as laterais do portal, feitas com garrafas de refrigerante da cor verde, ainda estão lá.

Sei que alguém poderá estar perguntando o que eu pretendia encontrar na cidade, mas nada em especial. Quis repassar a história sob outra perspectiva – saber se eu ia acabar chorando, ou sorrindo. Acabei chorando. Acabei sorrindo. A anchova estava deliciosa de lamber os dedos, mas não por isso, mudando de assunto.

Eu gosto de como a cidade funciona. Dá para reconhecer nela: os turistas, os veranistas (ou invernistas), os pescadores, os comerciantes do lugar, os operários que trabalham no turno do dia ou da noite, onde moram.

As dunas, vistas de longe, não denunciam a parte pobre da cidade. As crianças desta ala acham no mínimo estranho ver estranhos circulando por ali, subindo montes de areia. Quem sabe nunca mesmo pensaram em subir no ponto mais alto apenas para ver o que há do outro lado. Gostaria que fossem até lá, descobrir os coqueiros, a plantação de eucalipto, a roça de buchinhos.

A areia, ao invés de valorizar, deve desvalorizar o lugar, por isso mesmo é que aquelas pessoas moram ali. Quem mais, além de um chiquérrimo aras, haveria de se instalar num local onde o vento sopra areia fina para dentro da janela?

O último barraco de lona foi derrubado desde a última vez que estive ali, Corpus Christi 2015. Mas os dois cavalos, o baio amarrado, o outro solto, continuam no terreno baldio que dá acesso aos montes de areia. Defendem, ambos imóveis, apadrinhados, o lixo depositado.

Meu namorado encontrou uma ferradura enferrujada e concluiu ser um bom sinal. Eu achei muito bonito que as garças não tem as patas cheias de óleo, apesar da placa indicando o rio Mampituba poluído.

As tarrafas dos pescadores voltaram quase sempre vazias, das vezes que vi recolher, menos por um ou dois peixes pequenos, de cada vez, devolvidos ao mar; nos anzóis, a mesma sorte.

Para todo lado que se olhe: lixo, e mais lixo, como em qualquer cidade do país, menos na minha, menos no Bairro Centro, das outras, onde as ruas são varridas.

Um catador de material reciclável agora puxa sozinho o carrinho antes puxado por um cavalo. Outras charretes circulam. A igreja (São Domingos) branca de portas e janelas azuis ainda não está aberta, para que se possa rezar, mas fiquei orgulhosa, estando em frente, poder dar informação aos turistas que ali passavam, de como chegar até as antenas: pela rua detrás.

DAR BANDEIRA

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Rolinha, de Alegra Catarina

“Dar bandeira”, exemplificando, é pensar numa fogueira grande, a maior que já se viu, analisar bem de perto, e comparando com o fogo rasteiro que (redundante) se arrasta sobre a plantação, concluir ser pequena. Imaginar uma nuvem de fumaça, alta, mas tão, de ser vista do outro lado do rio mais largo que criança já viu, e lhe parecendo pouco, ampliar em dez vezes o desenho, pra que seja vista da próxima divisa, senão de rio maior, da margem Sul do Rio Paraná. Impor fumaça negra contra céu límpido, e ainda duvidando, perguntar para o amigo: “Será que a moça que eu queria que visse, viu?”

***

Vive me dizendo: teu amor

não faz falta pra ninguém!

Mas me diga, por favor

se a quem diz, isso convém.

BEM A CALHAR

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Telha de madeira, de Alegra Catarina

“A única maneira de certificar-se de que tudo dará certo é não deixar por menos.”

A serragem que eu ia colocar nas plantas do jardim a evitar que o mato crescesse tão rápido. O próprio jardim por capinar. A porta, os caixilhos, o trinco, a espuma expansiva, que fecharia o arquivo mas agora descansa, deitada, na sala vaga. O verniz por passar nesta mesma porta e no banco de madeira, gesto contínuo. Os cavaletes e a escada, fora do lugar de origem, por devolver. O presente de aniversário de um menininho que ainda acredita nas promessas dos adultos, a responsabilidade com o sentimento alheio, o pacotinho de balas Nurf, tudo na lista de tarefas. O sábado à noite: inauguração de uma nova fase. A festa de família, confirmadas cinco presenças, duas por cancelar. A ida até Itaiópolis em busca dos meninos que estão acampando. Tudo ali, defronte à minha janela: suspenso. Em dez minutos eu providenciaria que as engrenagens da Máquina de Resolver Tudo Sozinha voltassem a funcionar.

*

Também estou triste que o sol foi embora. Mas como dizem, não se pode ter tudo. E o que é certo é certo. É muito conveniente que, confirmando a previsão do tempo, o frio tenha voltado. A par dele a umidade ideal relativa do ar, o vento, a neblina… a vida como ela é. Tudo aquilo que é bom demais pra ser verdade, normalmente, é ilusório. Anjo sem asas que caiu do céu, com algum tempo livre até ser chamado de volta à própria escravidão, e que, sem o grande poderoso por perto pra dar a ordem do dia, pensa que sabe o que está fazendo ao soprar as nuvens, exibindo aos homens a camada de ozônio limpa e lustrada, como se outros fatores, o efeito da lua sobre as marés, a força centrífuga, o peso dos movimentos de rotação e translação da Terra, pudessem mesmo ser ignorados.

*

Compete a mim conferir no correio o porque aquele livro bom, o que fala de amor, enviado ao meu endereço, ainda não veio. A mim, lê-lo.

*

Ah, o amor, em falar dele… Amor à vista! Nem tudo está perdido. Hoje, há 516 anos, descobriram o Brasil. Contam, na primeira carta, que aqui não faltava água, nem nada. Tinha tanto de tudo que até sobrava.

*

Uma casa de madeira com um pé de laranja barbudo de velho na frente, é algo que, visto mil vezes, tantas me comove.

– VÊ A PROIBIDA MESMO.

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Anteras, de Alegra Catarina

Entrei num boteco hoje para escrever crônica. Tenho um amigo que escreve crônica (incentivo meu, esta) na cadeira do barbeiro, se ele consegue, eu consigo. Fui criada num boteco. Não era bem um boteco, é verdade, mas um quiosque hexagonal com grandes janelas de madeira quais abríamos à medida que o povo ia chegando para os campeonatos de futebol organizados na Associação dos Funcionários da Móveis Realeza. Meu pai era tesoureiro e explorava o bar, uns tempos. Eu que sempre fui a melhor filha do mundo, limpava os banheiros, ajudava a destripar um porco se preciso, lavava copos, servia cervejas no balcão, enquanto quem não jogava nada jogava pife, truco, bocha, fazia piquenique sob as árvores. Terminado o serviço, podia brincar nas curvas do rio aos fundos do campo, área esta toda de meu domínio pré-adolescente que agora pertence ao Parque Municipal do Samae. O quiosque e o banheiro continuam lá, à vontade do tempo, o rio perdeu uma curva, isso sim me revolta.

Entrei num boteco. É melhor que se diga logo: não um qualquer, mas a bodega do Marcelinho. Além de bodegueiro de primeira, que só recebe em moeda, não aceita cartão ou vale, muito menos fiado, colecionador de antiguidades nesta mesma casa-boteco, onde antigamente, pois então não estou dizendo, era o Bar e Lanchonete Pampas II, da Marli Correa, minha cliente, amiga do meu pai de bons tempos aqueles – não me pergunte onde anda, desde que saiu dali nunca mais ouvi falar bem, mal, um pio. Comigo ficou tudo certo.

Entrei no boteco. Já ia pedir a cerveja, a dúvida, entre artesanais e larga escala, me roubou a atenção, não bastasse ter de olhar tudinho arredor, e isso que nem contei: do banheiro, que tem mesmo uma banheira, daquelas bem velhas; do barulho bonito que faz a caixa registradora, quando aberta; quanto a comida cheira bem; a simpatia toda que frequenta o lugar. Eu não gosto de linguiças mas o amigo precisa provar as que servem ali, em rodelas, salsa picada sobre.

Lembro de ter aprendido em alguma oficina que, escritor que se preze tem de ter uma caneta, e eu, claro, não tenho uma, muito menos me rendi ao celular, pra tomar notas, até porque meu filho é o verdadeiro dono do aparelho, e se quiserem falar comigo, mais fácil o boteco, hoje. Por isso mesmo deixei um bilhete na porta, basta ir lá ver, se duvida: estou no Tréf. Tenho este serviço urgente, o de escrever esta crônica, e a concorrência no mundo das crônicas, como sabem, é severa, já não é a primeira vez que digo, repito, há pessoas que hoje em dia se especializaram em escrever crônicas em mesas de bar, se eu não fizer, alguém faz por mim.

Reconheço que ultimamente estou mais para “bela, recatada e do lar”, que pra crônica, não fosse a filha pobre de pais que um dia já tiveram um bar, tentando escolher uma cerveja num boteco da hora, e pelos pelos do meu gato que se eu não conseguir fazer isso até meia noite, por qualquer impedimento, vou tentar de novo amanhã, querendo ajudar apareça… Tenho pra mim que o problema começou lá atrás, quando pedi a primeira, só para experimentar, que nunca tinha experimentado.

***

Preciso lembrar de falar mais do quiosque. Especificamente do tanque de gelo, das grades que tinha, das garrafas de cerveja no gelo picado, do pai picando as barras de gelo com uma faca, talvez fosse um martelo; do campeonato que eu e meus amigos organizamos num outro quiosque bem parecido com este, em 1993, o sucesso que foi! Falar do gelo, neste calor, é refresco. 

A SESTA DE DOMINGO

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Fungo, de Alegra Catarina

É sexta.

Chamo meu namorado.

(Por “meu namorado”, que, entenda-se, tenho interesse em ganhar dele um perfume no Dia dos Namorados. Apesar de sermos casados, em pé de nos separar, porque a fila anda, etc.)

Estamos, eu e meu namorado, lidando na cesta de basquete das crianças. Há semanas.

Quando chegou, a tabela trouxe consigo tantos defeitos, que eu resolvi devolver. A loja recolheu e levou para fábrica corrigir os problemas. Depois de um mês, devolveu, em iguais condições. Segundo o fabricante, o defeito é de fábrica e eu que sou muito exigente. Esta é a melhor tabela que fabricam e se não quiser ficar com ela a loja me reembolsa o valor investido.

A bola quica. Fico com a cesta. O namorado sugere algumas melhorias.

Antes de ser fixada é preciso substituir o alumínio que protege o compensado naval da chuva, cobrindo a parte superior num “L”, por uma peça em “U” – pensem no “U” de ponta cabeça, por favor -, o mesmo procedimento nas laterais.

Além disso, resta saber se a parede de tijolos suporta o peso. Segundo os vendedores, sim, desde que sejam usados parafusos de chumbo contra o concreto. Mas não há concreto no centro da parede de tijolos.

Chamo meu namorado.

Pisco um olho, ele estaciona, trazendo uma escada.

Serviço quase pronto, como está agora, ele confessa ter gastado algumas horas de sono tentando encontrar a solução. Forjou as voltas necessárias na barra de ferro, implantou caibros de construção no verso da tabela, e ganchos.

Precisamos erguer a tábua para saber se tudo vai funcionar.

Ele acha que vai ficar muito alto. Eu chuto que vai ficar baixo. Suspendemos a cesta com cordas e chamamos as crianças para testar. O Lucca não está em casa, mas os pias do vizinho, o Flavio e a Sofia estão. Eles lançam a bola e… Cesta!

Ainda precisamos alinhar esteticamente os cabos que sustentam a tábua, encontrar o esquadro perfeito, fazer seis furos na parede e parafusar – ou “parafusear”, no Modo Engraçado – para a tabela não dançar, dependurada.

As crianças ganham lances livres para testar o som da bola contra a tábua, e blóu. O barulho é incrível! Parece mesmo que estamos numa quadra de basquete.

Perfeito.

– Ficou muito baixo.

O mais velho chegou. Eu fazia ovos mexidos com cebola, que já estávamos azuis… Depois, eu e meu namorado ficamos namorando na namoradeira, enquanto os menores brincavam de bola. Estamos todos muito cansados, mas ainda não nos rendemos. Até que o primogênito apareceu na janela do próprio quarto, e sentenciou:

– São nove e meia. Chega deste negócio de bola. Vão dormir!

E o mundo dormiu feliz.

Sábado teremos que subir a altura da tábua, pra dificultar um pouco as coisas. Depois de amanhã, lá pelas três da tarde, a gente  toma um banho e então descansa. Se quisermos silêncio, precisamos pensar em um bom esconderijo para bola. Ou sair, comprar sorvete.