SOBRE AS TRADUÇÕES QUE A SOCIEDADE NÃO PROMOVE, ENVOLVIDA DEMAIS QUE ESTÁ EM PROMOVER TRA(D)IÇÕES

Estudando espanhol, de texto escolhido aleatoriamente (eu não sabia o significado da palavra “celo”), disponível em https://albalearning.com/, extraio esta maravilha:

Y en algunos casos llega, efectivamente, el individuo que se las llevará contento y bailando para el Registro Civil, que debía denominarse “Registro de la Propiedad Femenina”.

Todo mundo, é claro, não encontrará a pérola na concha de aspas. Mas a mulher (e o homem), que procura averbar o próprio divórcio no Cartório de Registro de Imóveis e depende da boa vontade de que o seu ex-agressor lhe forneça uma cópia autenticada do RG (sumariamente necessária para: nada!), será sensível.

Por judiaria de outra natureza, indivíduos de ambos os sexos e suas derivações melhor se identificarão com este trecho do mesmo texto:

Pero en aquellas que aparentan celos, descubrimos que el celo es un sentimiento cuya finalidad es demostrar amor intenso inexistente, hacia un bobalicón que sólo cree en el amor cuando el amor va acompañado de celos.

Nesta frase entendi o que significa “celo”, concluo a pesquisa…

Clique aqui para leitura do texto na íntegra: https://albalearning.com/audiolibros/arlt/causa.html.

Estudar espanhol, como eu dizia, ou qualquer outra língua, eventualmente nos porá em contato forçoso com textos que não soariam tão bem em português, em inglês, e que dirá em zeloso alemão.

Alguém que mal se dá conta da língua “qualquer”, mas ferina, que consciente ou inconscientemente adota nos seus diálogos diários, pode preferir, ante a se esforçar, palavreado fácil, barato e contagioso: cacakás e caretinhas. Traduzirá “agressão” por “whining”, ou por “mimimi”, por exemplo.

É claro que não merece (só por isso) um soco no estômago, ou o desconforto gratuito de uma úlcera. Nem desejemos! É preciso lembrar que a pessoa agredida, mais do que practica, vira especialista na práctica de la voluntad. Quanto mais agredida, mais agride, mais se auto agride, num ciclo vicioso. Prefere estar cercada de grandes desafios na vida, e só, do que mal cercada.

De cualquier manera, este texto, do qual nos apropriamos e que distorcemos ao nosso gosto, es digno de estudio, no por los disgustos que provoca, sino por lo que revela en cuanto a psicología individual.

É “DIA DA INDEPENDÊNCIA”

Venho conversando com o mais novo sobre hipotético Projeto de Estudo das Densidades da Neblina. Seria preciso estabelecer uma régua de distância e a rotina de apontamentos diários do fenômeno observado. O mais velho dirige como se tivesse visão melhor que a minha (sob tais condições); a do meio prefere medir o calor do sol na pele; o menor me leva a sério.

Nebulosidade, opacidade, opcionalidade, probabilidade, Cisnes Negros, antifragilidade – noto que mudei minhas escolhas de leituras. São menos crônicas e mais ensaios. Registro que ainda não sei como colocar tanto desconhecimento adquirido em prática. Meu amor, por sua vez, ouve o relógio, levanta, se veste, escova os dentes e então me beija, já se despedindo, põe água para esquentar, vai tratar os cachorros, volta, faz o café. Pra ele tudo é simples. Pra mim, tudo é complicado. Espero o cheiro de café chegar.

Este 09 de Setembro fará um ano que moramos todos juntos – em meio à névoa típica e assídua – no Bairro 25 de Julho. Preciso saber como me sinto, mas, ainda é 07 de Setembro e algum gesto de patriotismo é necessário. Depois a gente comemora!

***

Eu e os vizinhos da Rua Lindolfo Hastreiter – endereço do trabalho – enchemos o cesto no início da rua sem saída, pois o caminhão da Coleta Seletiva deveria passar hoje, segunda-feira, feriado, não veio. Considero a hipótese de recolher todo o material reciclável com a caminhonete e levar até a frente do portão da cooperativa de reciclagem, deixar lá para ser processado na terça. Meu amor hesita um segundo, concorda, “só porque te amo muito” e estamos com roupa de três dias de trabalho: faxina, pintura, arrumações.

Chegamos na cooperativa, os portões estão abertos, para nossa surpresa. Pergunto pra Dona Mocinha onde posso descarregar, ela indica o lado esquerdo, mais aos fundos do galpão. Outra moça nos aguarda, começa a tirar o material da caçamba, depositar no início da esteira ligada. Pego algumas sacolas, copio o trabalho. Olho para a extensão do equipamento. Quinze pessoas dividem a função de triar e o material é escasso. Foi bom ter vindo.

***

A rua que dá acesso ao PEV (Ponto de Entrega Voluntária) – destino das lâmpadas queimadas – está com meios fios instalados, pronta para ser asfaltada. Comento, a caminho, sobre a vocação dos engenheiros de obras (viárias): é trabalho para muitas vidas. Menos importante, conto obras grandiosas que não fiz. Luto, brava, para desviar de inventar coerências, narrativas de simplificação. Mas se quero servir à arte (vi isso num seriado): tenho que aprender a expressar meus sentimentos.

Pequena, me impactou muito assistir à novela A Rainha da Sucata e desde então acredito ser possível a qualquer um: começar do nada, construir um império, quem sabe virar Prefeito ou Presidente da República. O caminho é nebuloso, obter apoio é altamente improvável, ninguém garante que não possa acontecer com você!

É algo grave que crianças não sejam incentivadas, de cedo, a criar seus próprios métodos de identificar e rastrear as milhares de variáveis que impactam em um único evento, positivo ou negativo. A aproveitar melhor o tempo, e exemplos, a seu favor.

***

Essas linhas foram escritas sem rigor científico. São meras observações. Se você não entendeu nada – e era de se esperar – entendeu certo.

COTA-REDAÇÃO DO DIA

Colo depoimento, resposta à pergunta: “WEG, a ação está cara ou está barata?“, desta contadora sincera pro “Economista Sincero”.

Também sou catarinense. Comecei a investir um pouquinho neste início de ano, como aprendizado obrigatório. Contadora há duas décadas, a experiência da renda variável me faltava na pele. Reservei para o fim um pequeno valor inicial, que, opcionalmente, daria para comprar uma bela bicicleta. Igual que certa pintora, sou muito tensa, o que preciso é de empurrão bem dado. Vi a WEGE3 a R$ 33, esqueci a bicicleta.

Investidor miudinho, simpatizo com: NTCO3, mas não gosto da oscilação de R$ 40, para R$ 50, indo e vindo, quê explica? MGLU3, de R$ 79, para R$ 89, indo e vindo, quê justifica? BTOW3 R$ 109, para R$ 127, indo e vindo, não é pra novatos. B3SA3 oscilando de R$ 58, para R$ 64, está bem, é razoável.

Antes destas preferências, pastei no laboratório nacional de investigação veterinária, no grupo das proteínas, e bebi das gasolinas, dei meus obas nas ações do ‘Limbo do Nem Indo Nem Vindo’, vendi pelo custo e até logo. Está errado o raciocínio anterior. Pois são justo as ações que mais oscilam que permitem maior rendimento.

Claro!!! Se eu tivesse, lá atrás, comprado cem bicicletas, primeiro: vendia tudo. Está todo mundo comprando. Por que não tive esta ideia? A demanda é que manda. Comprava a maior variedade de boas ações pelo menor preço da última quinzena, vendia de novo, sem pressa, proteger o lucro, pela maior oferta na nova semana, ou seja lá que outra estratégia, de erro em erro, acerto em acerto, dava pra ganhar o mundo.

Para tudo. Voltei pra WEG. Tem mais meu tipinho. Catarina raiz, não importa o que aconteça, se as coisas piorarem, não vão pioram tanto. E se melhorarem, também não será tanto. Quer dizer, me sinto melhor diante de uma oscilação de R$ 4 pra baixo e R$ 5 pra cima. Investindo numa empresa que cuida em se precaver contra as grandes depressões, ainda tem pele em jogo, mas está longe de apreciar viver com a corda no pescoço.

WEG, minha ação cara: é por esta particularidade, que te amo!

“USAR MÁSCARAS NÃO ADIANTA”

Hoje fui incumbida de entregar 45 máscaras de pano na Cooperativa dos Catadores de Material Reciclável. Quero noticiar sobre.

A cooperativa está com os portões fechados, abrindo somente para chegada dos caminhões da empresa Transresíduos. O serviço de coleta é considerado essencial, como sabem, e uma vez coletado o material reciclável segue para cooperativa. Lá não pode ser acumulado em grandes quantidades, que dirá por muito tempo, sem processamento, pois se assim fizer a cooperativa será notificada pela Vigilância Estadual. Isso já aconteceu no passado. Daí porque os cooperados seguem trabalhando, ainda que se saibam: expostos ao coronavírus.

Cheguei lá, quase ao mesmo tempo, chegou um carro de particular trazendo materiais recicláveis. Fomos ambos atendidos do lado de fora do portão, aberto o cadeado. Eu usava máscara. O condutor do outro veículo, também. O reciclador que nos atendeu não usava, respeitou a distância.

E o que muda com a chegada das máscaras aos recicladores? Primeiro, creio eu, diminui a sensação de que ninguém se preocupa. A presidente da cooperativa, Sandra A. L. C. Machado, irá orientar os cooperados a utilizar as máscaras de pano (tecido duplo), que os protege, especificará, ainda que minimamente, de eventuais perdigotos lançados na respiração dos colegas cooperados que trabalham um frente ao outro, seja na esteira, na prensa, em todo galpão. Cada um será orientado a levar sua máscara para casa, ao final do dia lavar e estender secar, para ter a máscara para usar no outro dia. Se porventura esquecer, haverá algumas unidades reserva.

Os recicladores estão muito expostos. Tocam o dia todo em materiais que toda cidade destina pra lá. Pessoalmente não sei se o trânsito de máscaras para casa é ideal. Então talvez alguém pudesse sugerir que um cooperado se responsabilize por recolher, lavar bem cada máscara, estender secar e redistribuir no dia seguinte, limpas. Não sei se todos prefeririam desta maneira, nem se seria a melhor opção.

A filosofia ou método ‘LEAN Adaptable to Any Circumstance‘ – reinventamos segundo nosso interesse haja cabimento ou não -, pretende ensinar empreendedores a aperfeiçoar o uso de seus recursos de forma contínua, sempre revisando processos internos, levando o feedback em consideração. Pois que venham as críticas!

Sabemos que uma pessoa respirando por poucas horas com uma máscara de pano em pouco tempo irá umedecer a máscara e neste instante estará mal protegida. Isso precisa ficar claro aos recicladores. Estando claro “de que adianta continuar usando a máscara?”, perguntarão. Bom, da mesma maneira como acontece com toda ação de conscientização para a reciclagem – os resultados nem sempre são mensuráveis – estaríamos usando a máscara para, entre outras coisas:
* treinar usar máscara;
* estar protegido nas primeiras horas;
* acostumar a ver uns aos outros de máscara;
* habituar a conversar com o outro de máscara;
* aprender a evitar levar a mão à boca, porque a máscara lembrará que a mão pode estar contaminada: de um vírus qualquer, de um vírus pandêmico, de germes, bactérias, fungos.

Em suma, talvez o uso da máscara venha para ficar.

Quando fiz um pedido de máscaras no grupo da família, minha irmã e minha sogra enviaram alguns contatos. Obrigada! Em especial agradecer a Nágila Hinckel, nos retornou em nome do Rotary Club. Infelizmente o clube não tem máscaras para doar neste momento mas poderá fazer esforços em conseguir algumas unidades adiante. E, claro, ao Clube da Lady, que se comoveu demais com minha mensagem, fornecendo as 45 unidades distribuídas. Esta mensagem que colo:

“Os recicladores podem eventualmente não ser considerados tão importantes como os profissionais da saúde, que, como dizem: estão na frente da linha. Não obstante, se um cooperado se contamina, contamina outros que trabalham consigo, leva o vírus pra casa, e nesta temível hipótese, a Saúde Pública terá que lidar com uma quantidade de casos local muito maior. Ao cuidar de cada trabalhador na ativa, ao considerar o reciclador essencial, e em protegê-los, ainda que minimamente mais que antes, protegemos o mundo todo.”

As ladies entendem desta maneira. As costureiras, que não medem esforços em produzir mais unidades, entendem desta maneira. O Rotary entende desta maneira. Eu também. E os cooperados, que desde hoje estão usando máscaras, dando o exemplo a cada trabalhador, pessoa da família e bairro para que se protejam, entendem desta maneira. Ninguém é obrigado a concordar. Escrevo porque conto com leitores que discordam. Nos ajudem a aperfeiçoar a defesa!

***

Por favor, quem puder doar mais unidades, doe. Quem puder usar máscara, use. Forte abraço, fiquem bem, obrigada.

CRÔNICA LARGADA À METADE

Pobres dos mais pobres. Sem saber onde encontrar o pão, morrerão pela fome. Sem crédito para o celular, sem serviço, sem renda, sem transporte, sem trabalho. Enclausurados no menor dos espaços – o público vago. A criatividade sufocada, a mão de obra amarrada. “Economizem água”, anunciará o rádio.

Legislação fiscal, trabalhista, ambiental, sanitária, segurança do trabalho, direito civil, nunca foram tão lidas, passam por revisões pontuais. O governador do estado, de ser invisível a ser amado. O economista, em algum lugar, cuida da economia, e aquele teu amigo, desprezível por ser contador, faz as contas, dá os rumos, os conselhos mais bestas, você pensa. “Reserve um pouco, ponha outro tanto para circular. Ajuste regras de concessão de crédito. Negocie taxas de juros e prazos de dívidas. Invista na Weg”, lhe dirá.

Há um certo ócio permitindo certo descanso. As pessoas vão levando numa boa. Há um silêncio bom. A música alegre parou de tocar. Não combinava. O rádio – “a rádio!” – começa a rezar. Os mais velhos pedem a deus para morrer nesta hora. “Coisa mais deprimente…” e revisam as preces, de pronto. “Deus não há de atender aos que pedem”.

Sábios tem modelos mentais para tudo. É preciso se ocupar. Pensar direito. Se ao menos aquela encomenda chegasse. Ligar no correio. “Este telefone está programado para não receber ligação”, o aparelho responde. E de repente me lembro de mim mesma. Sou, como os correios, serviço essencial. Sou das ciências sociais. Há espaço para novas verdades. Já não há rancores…

14 DE DEZEMBRO

Estou adiantada. Eu sei. Mas não se pode deixar para a última hora lembrar certas datas. Neste dia, nasceu uma pessoa importante no curso do meu destino. Afinal, ela me ajudou na parte crucial de eu formar uma família linda. Fecundou três dos meus óvulos. Viva!

Também foi neste dia que um amorzinho meu se casou. Isso já faz algum tempo, mas, como eu poderia esquecer a data? É importante que se diga: casou com outra moça. Uma que conheceu no mesmo dia em que me conheceu. Na verdade tem doze horas de diferença entre nós. Ele aceitou a amizade dela no Facebook na noite anterior. Eu o conheci na tarde seguinte, pessoalmente. E na noite seguinte a esta, foi a vez dela.

Sei que soa engraçado, mas as coisas são como são. Cheguei atrasada, pode-se dizer. E se conta a meu favor, conto que me apaixonei primeiro. (Criancice a minha registrar tal detalhe, eu sei.)

Reparo, depois de tanto tempo, o quanto a data é absurda e sem importância para mim, para o mundo, como um todo. Afinal, o que é que se celebra num dia 14 de dezembro?

Celebro ter minha vida mais ou menos em dia. A minha certidão de divórcio. O meu lindo nome de solteira – do qual, diga-se, nunca mais vou me afastar, nem mesmo por amor. Ter dado conta de transmitir vinte declarações fora do prazo em um único dia, ontem, dia em que finalmente consegui procuração do cliente para realizar a tarefa. E que terei multas a pagar a respeito, celebro!, porque quem nunca pagou uma multa não correu o risco, não tem recursos, nem tem em sua carteira de clientes o melhor cliente do mundo segundo os meus critérios.

Oh, deus, isso virou bem bem uma oração. Celebro viver na mesma cidade onde vivem as pessoas mais adoráveis do mundo, como exemplo, grande exemplo, a diretora da escola das crianças, Zuleica.

Celebro ter este cubículo três por três onde fica meu escritório, onde trabalho ouvindo os vídeos do Seiiti Arata, além de três músicas boas que seleciono a cada ano, e é tudo. O que mais celebro, nestes dois dias que antecedem o dia de celebrar o dia em que uma mulher e um homem influíram no meu destino dando a luz a um bebê, é que eu superei a necessidade (narrável) que tinha de tentar agradar quem cito nos dois primeiros parágrafos.

Em tempo, em séculos distintos, neste mesmo dia: um balão de ar quente não tripulado flutua quase 2 km; invasores deixam a Rússia enquanto gente distinta isola o plutônio; os homens tentam tanto voar que aprendem e uma espaçonave acaba voando para Vênus! Num dia como estes, num dia 14. Celebremos.

CHAMADAS PRELIMINARES

Come as you are, as you were / As I want you to be”
Composição: Dave Grohl / Krist Novoselic / Kurt Cobain

O sol, e um convite inesperado, prometia praia. O casal e as filhas estariam por lá. Era descer a serra e chegar. A senhora convidou a irmã. O marido, o irmão. Vinham do mesmo lugar. Não sabiam um do outro. Chegaram juntos, em dois carros. Estado civil: informalmente separados dos seus antigos pares.

A jovem mulher pôs um biquíni minúsculo. O homem barbado seguiu seus passos, pela areia, de sunga azul. Iam de encontro à família, de cedo instalada ao final da Bacia da Vovó. Ardiam no céu cem sóis. Ela pediu a gentileza de que ele esparramasse creme protetor solar nas suas costas. E retribuiu o favor espirrando spray protetor nos pelos das costas dele, como lhe pediu. Foi tudo que se passou, até domingo.

Cada um seguiu à serra, sozinho. Saíram com breve intervalo. Não se viram, desde então. Resultado de uma leve batida no sábado, no retorno do supermercado, o carro vermelho estragou. O guincho do seguro fora acionado. Ele não soube, passou direto. Ela tinha iogurte e frutas no isopor. Esperou por horas. O veículo a cem metros de uma igreja, numa saída à direita da rodovia congestionada. Os fieis das dezoito começavam a chegar. Livros embaixo dos braços.

Conteve a excitação por meses. Queria poder tocá-lo, como ele a tocara. Deixou recado, já era abril. E de lá pra cá, muitas vezes, quando acaso brigaram. Duas mensagens: se fazem às pazes.

Ela fez chantagens. Apelou para o ciúme infundado. Julgou à revelia, por traição financeira, certa vez. Convenceu-o de que era tensão, estresse, cansaço. A falta dele, nela. “Posso ir te buscar?”, ele sempre propõe. É perto, chega logo, conversam e tudo se esclarece…

Antes deste amor, houve outro. Ela conheceu na internet. Marcaram de se encontrar. Ele também conheceu uma moça. Os mesmos meios e termos. Infelizes os desfechos, decidiram por nunca mais. A qualquer vacilo, repetem o mantra (é Braga, no conselho): “Não ameis à distância, não ameis, não ameis!” .

Estão presentes na vida real um do outro há três anos, assim: a cinco minutos de alcance. Ela chama, ele vem. Ele chama, ela vai até ele. A palavra não é uma arma on line engatilhada, apontada para o meio do peito. É sempre aceitação, redenção, convite aberto, caminho conhecido para o fim do sofrimento.

FAMILIENFESTIVAL

“De repente, escolhemos a vida de alguém.
Era essa que a gente queria.”
Elsie Lessa

Dias atrás um morador da cidade perdeu a vida num não acidente. A viúva está sozinha. O irmão também, desde o divórcio. Nada os impede de buscar novos pares. Homens, mulheres. Casar. Não casar. Ser filhos sem filhos. Deixar os pais antes. Adotar. Ter um cachorro. Viver como fossem solteiros.

As pessoas casam. Apesar da garantia de que somente um quarto delas ainda estará feliz após quinze anos. Desculpas para desistir, ao invés de tentar, não faltam. Incompatibilidade psicológica; interesses divergentes; o previsível colapso na atração sexual; incompetência em conviver; o descaso pela instituição família; estresse, presente ou vindouro.

Casam. A mulher trabalha. Não cozinha ou costura. A mãe não decide por ela. O homem manda menos. Cuidar de crianças, idosos, amigos, dores alheias, finanças, carreira, aposentadoria, e da própria saúde, das tarefas as mais banais, tudo pode ser terceirizado.

Hoje o filho único de par de amigos viaja para intercâmbio na casa de, como ele diz: família de pai, mãe e criança de quinze anos. Ele não sabe – ainda não os conhece -, se terá ein Bruder ou eine Schwester. Irmão ou irmã. Menos! A afirmação do parágrafo anterior não se aplica ao presente caso. Outros filhos sim se ressentem por não ter a oportunidade.

Olho para minha família, mais atenta. Eu, três filhos. Sinto-me bem quanto ao tamanho. O mais velho namora. A filha paquera. O pequeno não. Viver (só) com eles me estraga um pouco. Tomo posturas de adolescente: saber mais que os outros e justificar fortuito o oprimido sem ter a própria procuração.

Ser ‘a tia separada’ é algo que me incomoda. Nem tanto se namoro ‘o tio separado’, e temos os mesmos sobrinhos. Onde moro somos uma colcha de retalho de parentes. Algum destes gosta de brincar que o inconveniente de ser o viúvo é melhor que o de ser o separado que é melhor do que ser o morto. Mas nem sempre.

Guerras, acidentes, epidemias, já não matam tantos indivíduos como no passado. Menos bebês nascem por desnecessários. São fatores determinantes, nas famílias. Pois quando alguém engravida, ou nasce, morre, enviúva, agrega, separa, muda, adoece, aposenta, a família se renova. É outra família. O equilíbrio social desejado está em cada indivíduo viver bem o caos do seu tempo.

Novas habilidades são importantes na presente era. Há quem defenda o surrado ‘véu’ como pano para tudo. Defendo a liberdade de associação, mais amor, e menos burocracia, por favor.

…………………………………………………………………………………………………………………………….. “Exercício de EscritaOficina Escrevendo Crônicas. * Escreva uma crônica artigo, cujo tema é as ‘novas famílias’. Sim, porque a sociedade mudou e as relações familiares também mudaram. Qual é a sua opinião sobre isso? Tamanho até 2.500 caracteres.

AJUSTE À METÁFORA

A terra é uma superfície mais ou menos plana esticada sobre uma bola de fogo controlada – principal fonte de recursos. As pessoas vivem na montanha, no vale, ou no trânsito entre a montanha e o vale. Além das pessoas existem a fauna e a flora. O erro gritante – nesta declaração de ajustes necessários – é que as pessoas não se entendem como fauna.

DESAFIO COPIADO

Começo pelo trivial, mulato básico, Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908). O dia estava quente, tinha enterro para ir. Fosse um “Cubas!”, que tivesse morrido… Não era. Sacou o bloco do bolso, tomou “Notas” – Capítulo de livro. Ou crônica, vá. O que viesse. E tudo veio. Depois deste dia, não importa que o senhor ou senhora seja o próprio Jorge Amado (1912 – 2001), falarão de ti, comparado a ele, e dele, comparando a Shakespeare (e quem foi Shakespeare, afinal?).

Desgraça e fortuna, isso é Literatura. Pense o assunto, a maneira de dizer, a linguagem – alguém manjou primeiro. Você conhece Joaquim Ferreira dos Santos? É destes casos. Teve seus contratempos – direitos autorais difíceis de conseguir. Ainda assim, selecionou: “As Cem Melhores Crônicas Brasileiras”, de 1.850 até os anos 2000. Deve ter lido umas seis mil crônicas, até chegar à prata das conclusões.

Sucinto, em meia lauda para cada período, esclareceu: cada época em que foi escrita, a crônica sempre se deu ao leitor como o suspiro se dá à vida. O alfinete fura os olhos do pássaro – vide Nelson Falcão Rodrigues (1912 – 1980) é pra fazer enxergar ao homem, o que há de lindo, no próprio homem, na sangria do seu absurdo.

Retrospectiva. Entra em cena o cronista “e flana pela cidade.” Registra a história, como prefere ver. Rápido e certeiro, moderniza. E Rubem Braga (1913 – 1990) ensina. The book is on the table. Quanto mais lemos, melhor escrevemos. Time de craques em forma. Há demanda? Fabrica-se. Crônica, sua linda, tu és: o queridinho da redação. Então, rebola. Às ruas. É urgente. É diário. É preciso ouvir os discursos. Sentir os humores. Trazer às páginas do jornal.

Dito, e feito. Ditadura. “Longe daqui, aqui mesmo”. Exilados, camuflados, soldados melhor treinados – e somos – escreveremos. Frutos frescos, aos nossos fantasmas. Amor, à nova bandeira: por um mundo com mais sexo! Se há a vida privada, há também a vida pública. Tudo é da conta do povo. Visível ou invisível, a onda da internet ainda derrubará o barraco, subirá no salto, cairá na bordoada. Fará vítimas e as abandonará à própria sorte.

Há de resgatar do mar, um mar de refugiados, em seu barco.

……………………………………………………………………………………………………………………………… Exercício de aquecimento – Oficina Escrevendo Crônicas. * Pesquise crônicas dos anos 1940-60, 1970-90 e textos atuais; * Separe 3 (uma de cada época) que demonstrem diferenças de tema/formato/linguagem; * Se conseguir, escreva até uma lauda com a análise de trais diferenças.

INCIDENTE SUBORDINADO

A rua sem saída fora revirada pelo plano municipal de expansão da canalização do esgoto. A argila amarela agora colore a brita azul. Helenor quis ligar para o amigo Hyles  Borborygmi, pedir o favor de mandar consertar o estrago da empresa contratada. Optou por gravar um áudio, modulada a voz. Era noite quando Hyles respondeu. Propôs um café. Ele supervisionaria o esparramar de meio metro de pedra necessário, amanhã depois das oito.

Helenor levantou da cama, passar creme nos cabelos.

A CASA DA REVISTA

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Escalar, de Alegra Catarina

Bem vindos ao supremo tour. Sigam pela calçada, dá no andar principal. O acesso dos carros é pela esquerda, no desnível, evitem. Houve um leve deslizamento do acervo, ao lado da coluna.

A família recém comprou a casa, entra pela porta principal, dá com a sala. Em planta aberta, esta tem o formato da letra éfe maiúscula (F), de ponta cabeça.

Uma mesa redonda de imbuia, sem metade das cadeiras possíveis arredor, foi deixada junto da entrada. Adiante dela, o vão livre. À direita, o comprimento. Aos fundos deste, estante antiga, da mesma madeira, pesada para mover. Ao lado, sofá dois lugares, sujo, com pelos de cachorros. E no braço central, outro, pior conservado, do mesmo conjunto, com mais lugares. Sem quadros, enfeites, almofadas.

O recorte da parede, sem porta, à direita do sofá maior, dá no que seria a cozinha. Tem azulejos e parece que foi pintada uma vez, há anos.

Pierís – “será nossa primeira convidada” -, a mais jovem do grupo de cinco adultos, dedica-se a encontrar os defeitos próprios do abandono. O piso, por exemplo, tem riscos fundos e pingos de cera por todo lado. Cogita se terão luz à noite e ninguém testou se sai água das torneiras. É parte inexplorada.

A porta francesa defronte ao estofado leva à varanda de antigo jardim. Ora habitado por família maior, aranhas. Em todo o pátio o emaranhado de ciprestes sem poda limita a circulação. Um carreiro leva para debaixo dos cipós.

Os veículos da família foram entregues na compra,  sonho comum, estavam a pé. Chegada a fome, saem para rua a vagar. Não há comida na casa. Ninguém se ocupou do detalhe, onde irá dormir, a existência de um chuveiro. E eis porquê, na volta, o tédio se instalou, sem curiosidade maior.

Todos, de pequenos, viveram no bairro. A casa era o grande mistério. Nunca caiu para ali uma bola, nem foram chamados a entrar. Quem quer que morasse, era feliz, e essa suposição basta no sendo comum. A comoção é geral.

Saciados, de volta, estiraram na poltrona, ignorando a vassoura. Pierís varre de leve o espaço sem levantar fungos, mofo, ácaros. Descerá até a garagem amanhã. Faz planos… Talvez encontre um balde.

A varanda está coberta por grossa camada de pó molhado e seco muitas vezes. Consistente camada de folhas secas descansa sobre. Serão dias de árduo trabalho aos dispostos a trabalhar.

Começa a abrir, uma a uma, as pequenas portas do móvel. Pilhas enferrujadas, remédios vencidos, pastilhas de cloro, a caixa com fósforos, foram deixados à mão. Mais ao alto, revista antiga, grossa, papel de gibi, as páginas se desfazendo.

Caída a noite, tocos de velas são acesos. Um sobre a mesa, vários direto na madeira do armário. A luz concentrada reflete nas janelas sem cortinas e fora isso ninguém tem com que se ocupar. Mulheres em maios de banho, contos, piadas e propaganda de utensílios domésticos viram o entretenimento revesado dos homens.

A outra mulher na casa, real, fumante, muito magra, tira agulhas do bolso, deita-os um por vez no sofá menor, e se exercita neles. Logo “é tua vez, Pierís”. Uma agulha grossa, sem esterilização, se recusa a entrar no abdômen, pra cima do umbigo, onde é cutucada. A moça ficou sem entender o que provocou a mudança na expressão da mulher, quando insiste em preferir explorar os tesouros de uma gaveta emperrada.

Percebeu que chovia antes de acordar. Saiu cedo, às pressas. A revista ficou lá.

A CONQUISTA DO ESPAÇO

Tenho que proteger as pessoas com quem convivo, da fantasia, que ora adiante visto. Encontrar um lugar para usá-la, sem espelho, janelas, riscos.

Todos os dias, ainda passarei o café. Farei a comida. Cuidarei das roupas. Serei diligente no trabalho; e com o gramado, as trepadeiras, o quintal; a pintura das paredes; meu próprio asseio; as caminhadas diárias; as metas de leitura; o sono; tudo.

Não abrirei exceção. Separarei a presente vaidade da vida real, quanto me custe.

Terei outro nome, outros cabelos. Lisos, iguais aos da minha sobrinha. Terei uma sobrinha indiana. Outra profissão. Serei uma ladra de cabelos indianos, no templo de onde pretendo extrair cada pretexto, e o refutar por princípio.

Reputação: nenhuma, eu a terei.

Caixas de ovos nas paredes de um cômodo minúsculo reduzirão os ruídos da minha solitária. Pendurarei samambaias secas e vou incluir plantas extraterrestres, carnívoras, maiores. Alguma que suporte menos luz.

Escreverei de olhos vendados. Permitirei os erros.

Entre as nuvens artificiais, fios de arame, meu próprio parreiral de quiuís, carregado, me saciará.

Alvenaria, com minúsculas frestas. Dentro do cubo, meio metro cúbico de terra vermelha, pra amontar, sentar sobre, aplainar, deitar, e me enterrar, tendo frio.

Nenhuma pedra para (a)tirar. Cantil de água com vinte litros, e um canudinho para entrar o ar, se preciso for.

É tudo.

A FACULDADE DAS COISAS

Alguém poderia pensar que você tem mindset fixo, dada a tua resistência em organizar um curso online para a Coisa. Ou apenas, ou talvez, ainda não conseguiu encontrar um bloco de tempo livre, coragem, e os meios necessários para lidar com o volume de pedidos. Que dó. Há bons cursos que ensinam como fazer.
Limite o número de vagas. Imagina: o que aconteceria se as pessoas já saíssem da escola sabendo tal Coisa? Teríamos que ter, do advento, um curso de como escolher bons fazedores da Coisa. Proíba de pronto, por lei, que se ensine tal Coisa na escola.
Alguma responsabilidade é necessária. Certos produtos não se expõem deste jeito. A fórmula para transformar água em vinho, cerveja ou coca-cola, são exemplos. Regulamente e taxe as bebidas ao máximo. Classifique os grãos de café.
Se for para dividir, divida o pão. O tamanho dos quadradinhos nas barras de chocolate. Produza frutas em abundância, oras. Ração livre de agrotóxicos, artesanal. Bolos inclusivos! Bolos exclusivos!!! Os homens acabarão descobrindo por si só o que quiserem saber. Não perca tempo protegendo o que te faz vaidoso.
Ensine o ofício, os ossos, os cemitérios, os céus e as terras aráveis do ofício. Tudo em grupos pequenos ou em particular, há quem prefira. Quantos mais conhecerem profundamente a Coisa, maiores as chances de aperfeiçoar, melhor o resultado afunilado. Crer no contrário é vício.
Aos ignorantes e aos não vocacionados uma razão ‘da hora’ para viver. É passageiro? O ingresso para o atalho da verdade ao alcance dos que puderem pagar: nua, crua, sem os pelos e o couro, desossada, cortada em postas, dispostas em bandejas de isopor cobertas com filme plástico e uma etiqueta com código de barras. Poções ecológicas, manipuladas. Disponha com fôlder: ‘O destino do lixo’; ‘O egoísmo típico da espécie’.
Ou quem sabe você já sofreu o que não merecia, na vida pregressa? Isso é superável. Uma vez que saiba que o mesmo tipo de pessoas estará sempre a postos para machucá-lo, aprenda golpes rápidos que defendam sem atacar. Frases de aceitação. ‘Eu te amo, mesmo assim. Vai ficar tudo bem. Deixa isso pra depois.’
É possível quebrar a tensão antes do agravo. Há outros cursos que ensinam. Está tudo bem não exigir tanto. Jogar a velha forma fora. Admitir uma nova, outro material. Tudo não precisa ser para sempre como foi antes. Charlatões são necessários, escritores ruins, advogados bons, ter com quem comparar.

Não há faculdade pra tudo. Aprender na marra é escolha.

 

A RETICÊNCIA ELEMENTAR

O COACH PERGUNTA:

Quais são os teus projetos inacabados? O que está te impedindo de acabar com eles de uma vez por todas? São simples, complexos, envolvem formação ou grandes investimentos? Nem deus conseguiria te ajudar num deles, sério isso? É um projeto viável ou inviável, afinal? Se inviável, porque insistir? Você não sabe as respostas às perguntas anteriores? Como assim, não sabe!?

Por falar em deus, como anda a tua fé? Ter ou não ter fé é a mesma coisa, na prática. Todos temos alguma, qual questionamos diário. E somos céticos em certo grau, mas a fé nos provoca o arrepio. Como anda a tua fé?

Logo é teu aniversário. Fosse para organizar sozinho uma festa, teria quem convidar? Por que não? Quem são teus amigos? E teus familiares? Você tem  problemas com alguém específico, que não queira vir lá? Quanta bebida é necessária? Você bebe?  E onde isso iria acontecer?

“Prefere estar sozinho.” Sei. Entenda, estou fazendo perguntas pra te conhecer. Tomo notas. Seja sincero.

Tem quem cuide disso pra você? A responsabilidade em pensar cada detalhe, é tua? Quem teve a ideia da festa? Por que é que você é que está celebrando aniversário, e não outra pessoa?

Teu trabalho é bom o suficiente? Ou é suficientemente bom? O que ganha em troca, de um bom ou mal trabalho? Há parâmetros de comparação? E você os conhece? Tem concorrentes? Colegas melhor preparados? Convive bem com eles? Há alguma possibilidade de fazer parcerias? Está aberto a abrir uma empresa, ter um sócio? Quanto tempo já perdeu, hoje?

Sei que está interessado em saber mais. Deve estar, você mesmo, se perguntando: Acaso é uma análise? Te conheço a tal nível de intimidade? Não há mais ninguém a quem possa perguntar? Um avô, um tio, um primo, um amigo querido, já falecidos? Que interesse tenho eu em ficar aqui a manhã toda passando a vida a limpo contigo? Este não é teu trabalho? Quem perguntou primeiro?

Mas tenho mais perguntas por fazer. Então, por enquanto, não vou te dar resposta alguma. Isso vai ficar para o nosso segundo encontro.

Por que você é tão solitário? E insensível? Como foi que virou este ser imprestável? Irresponsável, preguiçoso, guloso, teimoso – qual destes adjetivos ruins melhor te define? Você é capaz de dizer algo positivo sobre si mesmo? Posso te recomendar a alguém?

O CLIENTE RESPONDE:

São conclusões precipitadas. Se quiser, posso dar detalhes, claro. Será um prazer me apresentar. Caso queira preencher a ficha, se achar importante, diferente das outras pessoas, meu nome é …

A FALTA QUE OS RATOS FAZEM E OUTROS FATOS INCONCILIÁVEIS

Aquelas histórias das quais guardamos, arquivamos, revisamos sistematicamente os detalhes, tendem a nos parecer mais reais.  No fundo, são as mais fantasiosas.

Mas se isso serve ao bom propósito, procura dar mais, mais, e tantos mais detalhes às histórias mais maravilhosas, de modo que façam às histórias ruins se envergonharem – de parecer borrão na janela, que escapou ao pássaro.

Pois é, acontece.

O PÁSSARO DE FRALDAS

Era uma vez um pássaro que usava fraldas descartáveis. Levava consigo às costas, a pequena mochila branca. Peludinha, fora um presente. Nela, fraldas sobressalentes, lenços umedecidos, espelho, lixas de unha.

Era de chorar ouvir os argumentos do pássaro para própria façanha. Contava como, quando, onde, porque tudo aquilo que aconteceu.

O pássaro, vocês não sabem, certa vez conheceu um gato. Assim, bem de pertinho, cá entre nós, amizade mesmo.

Ele, o gato, ensinou ao pássaro ser mais asseado. Lixar as unhas. Passar gel anti frizz nas penugens pra não arrepiarem tanto.

O pássaro de fraldas vinha perdendo território. Os outros pássaros alertaram. Ficava cinco quilômetros para trás a cada dez quilômetros de céu voado.

Continuasse assim, nem a mãe natureza poderia garantir chegada ao destino em tempo: de botar os ovos e chocá-los, antes da primavera.

– Pense nos filhotes, na preservação da espécie, seja responsável, pássaro tolo. Os outros cantavam.

Alguns calados, seguiam o voo sem pensar.

– Pássaros imundos! O pássaro de fraldas retrucava.

Dezenas de sementes deixariam de ser lançadas do alto para se firmar. Diziam em retorno.

O pássaro, ainda nas fraldas, teimou.

Veio o gato. Não sei se o mesmo, não sei se outro mais que este cheiroso, malhado, bigode aparado. Comeu o pássaro.

Desta a menor das partes é tudo o que sei.

Dos outros pássaros sei que quando chove tomam até banho. Só não escovam os dentes. Seria exagero.

E do gato? Fizeram mochila e sapato.

PRAZOS ELEITOS

“Só não pode pedir voto.” “Nem dizer o número, que dizer o número é o mesmo que pedir voto. Mas vocês já podem ir nas redes sociais anunciar a convenção, que são pré-candidatos, o nome foi aprovado, estão muito felizes, etc.”

***

“Que se eleja, dentre nós, o menos tímido.” “Troco likes.”

***

“Onde vou peço voto. Vou no mercado, peço voto. Encontro um amigo na rua, peço voto.”

***

“Continue trabalhando, faz bem teu trabalho, e não se iluda. Boa sorte.”

***

“Que ser vereador? Qual a sua formação acadêmica? Tem experiência em humanas e exatas? Qual seu nível de conhecimento da Constituição Federal? Você conhece a Lei Orgânica do município? É a favor do Estado laico ou …”

***

“Não se desligou.”

***

“Camisa clara e blazer escuro ou camisa escura.” “Fotos às 18:00 horas.” “Sorteio dos números.” “Reunião segunda-feira, aqui, às 19:00 horas.” “Toda terça-feira. Todos estão convocados.”

***

“Prestação de contas.” “CNPJ” “Documentos para registro da candidatura.” “Relação de bens.” “Os juízes eleitorais vão querer ser Moros este ano.” “Três dias para abertura de conta.” “Setenta e duas horas.” “Depósito identificado.” “Gastos permitidos.” “Percentuais.”

***

“Churrasco pra mim, sopa pra ela.” A piada da dentadura. “Esta história aconteceu mesmo, não é brincadeira.” “Só esta semana visitamos dez casas.” “Mais saúde, referência em educação, menos gastos com cargos comissionados.”

***

“Enxutos.””Este ano não vai ter pesquisa eleitoral.” “Unidos.” “Chapa pura.” “Coligação.” “Filiados.” “Mulheres.”

***

“Impugnar candidatura.” “Crime eleitoral.” “Jingle.” “Material de campanha.” “O período eleitoral está mais curto este ano.”

***

“Nós.” “Eles.” “O povo está cansado.”

***

“Só não pode pedir voto!”

IMAGENS VELHAS E FUTURISTAS

Ao escritor, como sabem, não importa a ele, pessoalmente, saber como é que você se sente sobre a dor de barriga ou cotovelo, que leva consigo, cativa. Ao escritor, importa a ele levar ao leitor uma imagem, plástica, possível ou impossível, boa ou má, real ou inventada, verdadeira ou verossímil, para que você, diante da imagem, descubra: como é que você se sente.
Pensando nisso, dor aqui, outra ali, me ocorreu que deve ter muita outra gente, além de mim, com a mesma dor de barriga ou de cotovelo hoje. Genérico de chá de cadeira é bom pra tudo, dizem… Até pra ego, inflado ou ferido.
Se você também é escritor, ator, leitor, e-leitor, eleitor, e acordou com sintomas: cartas para a redação. Vai que é epidemia, viral ou mania, destas que a gente pega na internet, já sai replicando: a de ler não pensar; ver e nem considerar; escrever no celular, caindo de sono, e nem editar.
Lembrei agora do velho ditado, “escreveu não leu, pau comeu”, que vivo esquecendo de onde veio, se era a mãe ou o pai, que sempre dizia…
***
Vou tentar! É só o que prometo. E se não conseguir, juro que tento de novo, mas lá adiante. Vou tentar dar a vocês: uma imagem futurista. E vou criá-la, reciclando. Partirei da imagem de uma sufragista, tirada do filme “As sufragistas”, que assisti semana passada.
Tem filme que presta cada serviço, nem imagina. Não é querer reclamar… Mas tive que ver legendado. O dvd era velho e o som da voz dos personagens já não estava “funcionando”. A trilha sonora estava, por incrível que pareça. Desisti de tentar entender como pode isso.
Era o início do século passado. Uma mulher, nenhum homem em defesa dela, sobe no banco, e brada!, em defesa dos oprimidos. Outra mulher, um homem em defesa dela, é trancada no armário, para o próprio bem. Uma mulher, um homem contra ela, se joga em frente a cavalos disparados, numa corrida, diante de um rei. (Evito adiantar o FIM da história.)
Mas isso são imagens velhas e ultrapassadas, não futuristas!, Auristela, alguém irá argumentar. Além disso, que exagero de digressão, hein… Pois bem. Se é a imagem futurista, a que desejam, ei-la, na forma de manchete de capa de um jornal de 2050:
Partidos que nas próximas eleições não cumprirem exigência de 50% de mulheres candidatas a vereador terão chapas impugnadas.”
Hoje, a cota mínima é de 30%. E então, me vem em mente, novamente, as dolores. E como isso atrapalha, ah, minha gente.

QUASE-ATO

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Um passo adiante, de Alegra Catarina.

ELE _ COMEÇA
– Família bonita
– A tua também. Obrigada.
– Só tem duas pessoas na minha. 
– Só tem quatro na minha.
– Quem estava faltando hoje?
– Eu acho pouco porque venho de uma família de seis. [Risos.] O mais velho.
– Legal te ver. Você está bem?
– Muito bem. ⁠⁠⁠⁠Três dias seguidos te vi. É bom te ver, também. Você está bem?
– [Risos]. Juro que não estou seguindo você. ⁠⁠⁠⁠Estou bem sim, vidinha besta e boa de sempre.
– Claro que não está me seguindo. Eu estou. Se chego depois. E tua presença ainda me intimida. Não sei porque.
– [Risos.] Você é boa nisso então. A intimidação é recíproca, fico sem jeito.
⁠⁠⁠⁠- Estamos trabalhando nisso. Com o tempo melhora. Já trocamos um beijinho. É um progresso. Sei tua barba em mim. ⁠⁠⁠Cuide-se bem. Até qualquer hora.
– É, o beijinho foi um progresso. Cuide-se também. Bom trabalho.
– Desculpe se encurto a conversa. O celular está pendurado por um fio curto, distante da mesa, carregando. Beijos. ⁠⁠⁠Bom trabalho.
ELA  _ RETOMA
⁠⁠⁠⁠- ⁠⁠⁠Tive um estímulo agora para finalmente concluir a instalação do WhatsUpp no computador. E não é que funciona. Grata.
– Desculpada, e… Não sou muito bom em longas conversas. Mesmo? Não sabia que existia a possibilidade do WhatsApp no computador.
– Acho que só precisa entrar no endereço web.whatsapp.com. Vai aparecer um código na tela. Coloca o telefone em frente, para ler o código. Depois, um ícone de atalho na barra de ferramentas, vai aparecer um número quando tiver mensagens, igualzinho no celular. Acho que é assim. Meu filho tinha instalado, mas eu não tinha lido o código.
– Gostei do “só” no início da receita de bolo.
– Agora eu sei porque me sinto intimidada na tua presença.
– Porque? Conte-me…
– Porque você é destas pessoas que corrigem quando a gente escreve “à cinco minutos atrás”. (Ainda que eu tenha entendido que a receita lhe pareceu longa para uma frase iniciada em “só”.). Não estou me queixando, só justificando a sensação. Eu gosto de estar exposta. E você me faz rir. É ótimo.
– [Risos.] Eu só aponto essas coisinhas quando sei que a pessoa levará numa boa, sou um chato seletivo. 
– Agradecida.
– Disponha.
ELE  _ VOLTA
– ⁠⁠⁠Não pense que não vi seu status. Boa noite, e bons sonhos.
ELA  _ VÊ A MENSAGEM DELE, HOJE.
 – Bom dia. Se eu pensasse que não iria vê-lo, o meu status, eu não o teria alterado.
(Status: Sou de longas conversas, e de longos silêncios. Ao gosto.)
⁠⁠⁠⁠- Bom dia. [Risos.] Dormiu bem?
– Menos horas que gostaria. Mas maravilhosamente bem. Sonhei sonhos lindos. E você?
– Também, bem menos que gostaria, hoje acordei cedo para levar o filho na escola.
– Não sei se devo enviar mais uma frase. Já foram sete, com esta oito.
– [Risos.]
Mas eu podia ao menos zoar, dizer que “porque”, na pergunta, é separado. 
– Poderia sim.
– Um beijo, lindinho. Preciso ir… Estou aqui a decidir se neste fim de semana pinto os muros, subo o Camapuã ou tenho uma aula de tiro ao alvo. O povo tá na linha esperando. (Dê conselhos.)
– Tá bem, uma quarta opção seria dividir cobertores comigo. Beijo. Tá frio.
– É um mal conselho. Garanto. ⁠⁠⁠Estou namorando um menino.
– Ah, entendi… SorryAulas de tiro, então.
– Gostaria de, eventualmente, não estar. Poder dividir cobertores contigo. Ver se são peludinhos. Quem sabe no próximo inverno.
– Quem sabe. 
ELA  _ VOLTA (DEPOIS DE UM MINUTO DE INTERVALO).
– Desculpe. Eu não tinha como falar antes. Acho que fui leviana em não falar. Acontece que não estou segura de que quero namorar. Ainda que ele seja adorável. Como você, é encantador… Eu me comovo quando me vejo sozinha com meus filhos, e você sozinho com o teu menino. Queria poder convidá-los a vir na minha casa brincar, jogar basquete, talvez. Tem uma cesta enorme num paredão enorme, é bem legal… Sinto muito.
– Tudo bem, de verdade… Estamos sempre ensaiando. Obrigado pelas letrinhas bonitas e pelo carinho.
– Que bom que sentiu o carinho.
– Senti sim, achei que estivemos mais próximos desta vez, foi mais simples e carinhoso.
– Estou ouvindo esta música à alguns dias: “Amor brando”, Karina Buhr.
– Gostosa.
– “… se aproxime de mim, mas não tanto”.
– (*Há.). “…a ponto de eu sentir tua falta quando você for embora”.
– É, tem esse verso aí também. 
– Vamos fazer uma pausa no progresso. E espero te ver, com boa frequência. Porque você é bonito. E eu gosto de te encontrar. Cuide-se bem, até lá.
– Sim, uma pausa em nosso quase-ato. Cuide-se também, um beijo (sob os cobertores peludinhos).
 ELA _ FINALMENTE, PROCURA O NAMORADO!
– Oi. Bom dia. Decidi ficar por aqui. Sábado de manhã ir na Millium comprar um ferro de passar roupas, novo, uma lâmpada para o quarto, que queimou, verniz. Pintar o banco externo. À tarde, ter uma “aula de tiro”. Te namorar um pouco depois. Podemos fazer macarrão à bolonhesa. Tem tudo. Salada de escarola. Domingo, vou lavar os muros, e pintar de concreto, tiver sol. Adiantar a folha de pagamento, no escritório. ‘Cabou’ tempo. Ler. Dormir. Só pra você saber.
(Então ela registra. Para lembrar, de quando ainda era jovem o bastante, e flertava.)
***
QUASE-ATO I: FUGAS CRÔNICAS. Em janeiro/2015.

VIVO, OU MORTO?

Bem cá pertinho. Quero lhe falar, nem sei se devo.

Eventualmente o amigo já tenha brincado na infância de “morto-vivo”. A brincadeira, não vá lembrar, consiste em reunir um grupo de crianças, e estas devem seguir o comando de uma delas, mantendo-se em pé, “vivo”, ou agachar, “morto”. As duas palavras são ditas intercaladas e aleatoriamente, cada vez mais rápido, a fim de provocar que algumas crianças errem o compasso, deixem a brincadeira.

Proponho testar o reflexo dos nossos sentidos, quando diante de algumas situações cotidianas. Vou tentar dar o exemplo:

Você transita pelas ruas, é madrugada, vê uma prostituta com a barra da saia erguida, ofertando serviço. Se for julgar antes feche os olhos. Se for abrir, abra a mente. Se for parar, seja gentil. Se preferir, siga. Se for concorrente, imagine que ela tem celular, talvez saiba ler, seja até mais culta, tenha um carro melhor que o teu, more num apartamento lindo, e escolheu este ponto porque ficava menos iluminado, logo, mais seguro para o cliente. Possivelmente ela não tem passagem pela polícia, nem usa drogas, e tem preservativos na bolsa. Um filho pequeno, menino ou menina, em casa, esperando. Certamente ela tem uma mãe, também. Talvez não tenha mais pai. Ou tenha. Agora já passou. Pode voltar ao que estava fazendo…

Um homem caminha pelas calçadas da Barão do Rio Branco num dia muito gelado. Segue sentido schopping-igreja. É passado das dez da manhã. Ele calça sandálias. O sol mal deu conta de derreter a geada da grama, no Morro dos Três Templos. É um senhor muito velho. Vem na tua direção. Talvez esteja indo ao INSS, que fica para este lado. Traz papéis nas mãos. Você se surpreende com os dedos do pé esquerdo à mostra. Teu olhar foge, conferir a condição do pé direito. Neste, há uma meia. A cor de terra vermelha, e o estado degradado, indica a idade da meia.

Tente manter a própria expressão, cabeça erguida. O homem segue, cabeça baixa. Nada pode ser feito a esta altura da rua. Tuas botas seguem contigo até teu carro. Vá para casa, depois. Separa as roupas. Há uma gaveta com centena de meias. Para de reclamar do frio, do calor. Fecha a boca aberta. Leva o ar puro a entrar das narinas aos pulmões. Sente o cheiro das frutas, confere o preço do pinhão, na quitanda do Knopik, primeiro. O homem bem gostaria de comer uma pocam… Mas ele já está aposentado, é o que parece. Já está lá adiante, agora.

Uma mulher com uma criança de colo, e outra a tiracolo, solicita ajuda financeira, “uns trocadinhos”, na porta da agência do Banco do Brasil. Se tiver, abra a mão. Se não, ou não quiser mesmo contribuir, olha a pessoa nos olhos, diga que lamenta. Se na saída do caixa tiver, caia com uma nota de dez reais – é o valor mínimo disponível para saque. Só se estiver sobrando, mesmo. Mas não feche os olhos, como se não estivesse vendo. Nem faça de conta que não ouviu. Não se finja de morto. Se muito, admita que está falido.

Você pode me ver? Ajudar? Tudo bem: sim ou não. Só evite mentir.

Superei uma fase da vida em que costumava criticar todo mundo: o governo, meu ex-marido, escritores, e os desserviços públicos, por preferência. Pessoas que falam sobre “perdão” no dia destinado à consciência LGBT. O Papa, que é ‘eleito’ para falar em nome do povo já disse que, se a pessoa busca o Senhor, quem é ele para julgar – e quem sou eu? Mas não se trata disso. Abre a mente. Experimenta a sensação de não ser um cordeiro, pra começar.

Somos todos herdeiros (ou desertores) de tudo. A um comando (nosso/vosso) vamos todos morrer ou viver, melhor ou pior. Talvez fosse o caso de ir de encontro d´alguém, do mundo, fazer as pazes. Ou esquecer. O que for melhor para o outro. Chegar até a pessoa, pedir licença e se apresentar, sem ser leviano. Dar teu telefone. Atender, se ela ligar. Convidar para um café que sabe ela jamais irá, a não ser por mínima chance. E se ela for, talvez seja o caso de, estando lá, fazer as pazes consigo mesmo. Deixar a história pra lá.

Talvez, não! É preciso ter certeza. Estamos mortos? Vivos? Qual o próximo movimento? O que se deve fazer? Quem no comando? O outro? A nossa consciência? E eu a vejo? Ouço? Ignoro? Falo com ela? Calo? Doo? Em que pé da vida eu me encontro?

Não sei as respostas pra tudo. Sei que estou ao meu comando. Que algum amigo hei de perder com meus gestos, e nas palavras. Outros, hei de levar.

 

 

TORRES III – A MISSÃO

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Tarrafa, de Alegra Catarina

Fui até a ponte encontrar a moça da ponte, como acontece todos os anos, há três, e apesar de desta vez ter pego a BR 101, mesmo assim me atrasei, perdi a carteira de motorista, esqueci o cartão de débito na leitora. Talvez não exista mesmo remédio pra mim.

Fiquei no Hotel Bauer, só porque foi mais fácil encontrar, que qualquer outro. A primeira estrela de um hotel deveria ser dada a partir da facilidade de encontrá-lo à noite sem saber o nome, ter referência, telefone, endereço. Visualizei a placa adiante, na avenida: “Hotel”, então, aquele devia ser um simples e bom hotel, exatamente o que procurava – acertei.

Algumas novidades se apresentaram desde o ano anterior. Uma ciclovia de cinco mil, seiscentos e setenta e seis vírgula quarenta e um centímetros quadrados (não de extensão) agora faz parte da paisagem no Parque Estadual da Guarita. E no caminho até lá, pronta e inaugurada, a ponte (Anita Garibaldi) nova, em Laguna. De resto, tudo meio igual. A prefeitura ainda não tirou as garrafas pet que serviam de enfeite no Natal de 2014, num grande arco verde atravessando quatro pistas de acesso à cidade de Torres/RS – as laterais do portal, feitas com garrafas de refrigerante da cor verde, ainda estão lá.

Sei que alguém poderá estar perguntando o que eu pretendia encontrar na cidade, mas nada em especial. Quis repassar a história sob outra perspectiva – saber se eu ia acabar chorando, ou sorrindo. Acabei chorando. Acabei sorrindo. A anchova estava deliciosa de lamber os dedos, mas não por isso, mudando de assunto.

Eu gosto de como a cidade funciona. Dá para reconhecer nela: os turistas, os veranistas (ou invernistas), os pescadores, os comerciantes do lugar, os operários que trabalham no turno do dia ou da noite, onde moram.

As dunas, vistas de longe, não denunciam a parte pobre da cidade. As crianças desta ala acham no mínimo estranho ver estranhos circulando por ali, subindo montes de areia. Quem sabe nunca mesmo pensaram em subir no ponto mais alto apenas para ver o que há do outro lado. Gostaria que fossem até lá, descobrir os coqueiros, a plantação de eucalipto, a roça de buchinhos.

A areia, ao invés de valorizar, deve desvalorizar o lugar, por isso mesmo é que aquelas pessoas moram ali. Quem mais, além de um chiquérrimo aras, haveria de se instalar num local onde o vento sopra areia fina para dentro da janela?

O último barraco de lona foi derrubado desde a última vez que estive ali, Corpus Christi 2015. Mas os dois cavalos, o baio amarrado, o outro solto, continuam no terreno baldio que dá acesso aos montes de areia. Defendem, ambos imóveis, apadrinhados, o lixo depositado.

Meu namorado encontrou uma ferradura enferrujada e concluiu ser um bom sinal. Eu achei muito bonito que as garças não tem as patas cheias de óleo, apesar da placa indicando o rio Mampituba poluído.

As tarrafas dos pescadores voltaram quase sempre vazias, das vezes que vi recolher, menos por um ou dois peixes pequenos, de cada vez, devolvidos ao mar; nos anzóis, a mesma sorte.

Para todo lado que se olhe: lixo, e mais lixo, como em qualquer cidade do país, menos na minha, menos no Bairro Centro, das outras, onde as ruas são varridas.

Um catador de material reciclável agora puxa sozinho o carrinho antes puxado por um cavalo. Outras charretes circulam. A igreja (São Domingos) branca de portas e janelas azuis ainda não está aberta, para que se possa rezar, mas fiquei orgulhosa, estando em frente, poder dar informação aos turistas que ali passavam, de como chegar até as antenas: pela rua detrás.

BEM A CALHAR

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Telha de madeira, de Alegra Catarina

“A única maneira de certificar-se de que tudo dará certo é não deixar por menos.”

A serragem que eu ia colocar nas plantas do jardim a evitar que o mato crescesse tão rápido. O próprio jardim por capinar. A porta, os caixilhos, o trinco, a espuma expansiva, que fecharia o arquivo mas agora descansa, deitada, na sala vaga. O verniz por passar nesta mesma porta e no banco de madeira, gesto contínuo. Os cavaletes e a escada, fora do lugar de origem, por devolver. O presente de aniversário de um menininho que ainda acredita nas promessas dos adultos, a responsabilidade com o sentimento alheio, o pacotinho de balas Nurf, tudo na lista de tarefas. O sábado à noite: inauguração de uma nova fase. A festa de família, confirmadas cinco presenças, duas por cancelar. A ida até Itaiópolis em busca dos meninos que estão acampando. Tudo ali, defronte à minha janela: suspenso. Em dez minutos eu providenciaria que as engrenagens da Máquina de Resolver Tudo Sozinha voltassem a funcionar.

*

Também estou triste que o sol foi embora. Mas como dizem, não se pode ter tudo. E o que é certo é certo. É muito conveniente que, confirmando a previsão do tempo, o frio tenha voltado. A par dele a umidade ideal relativa do ar, o vento, a neblina… a vida como ela é. Tudo aquilo que é bom demais pra ser verdade, normalmente, é ilusório. Anjo sem asas que caiu do céu, com algum tempo livre até ser chamado de volta à própria escravidão, e que, sem o grande poderoso por perto pra dar a ordem do dia, pensa que sabe o que está fazendo ao soprar as nuvens, exibindo aos homens a camada de ozônio limpa e lustrada, como se outros fatores, o efeito da lua sobre as marés, a força centrífuga, o peso dos movimentos de rotação e translação da Terra, pudessem mesmo ser ignorados.

*

Compete a mim conferir no correio o porque aquele livro bom, o que fala de amor, enviado ao meu endereço, ainda não veio. A mim, lê-lo.

*

Ah, o amor, em falar dele… Amor à vista! Nem tudo está perdido. Hoje, há 516 anos, descobriram o Brasil. Contam, na primeira carta, que aqui não faltava água, nem nada. Tinha tanto de tudo que até sobrava.

*

Uma casa de madeira com um pé de laranja barbudo de velho na frente, é algo que, visto mil vezes, tantas me comove.

– VÊ A PROIBIDA MESMO.

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Anteras, de Alegra Catarina

Entrei num boteco hoje para escrever crônica. Tenho um amigo que escreve crônica (incentivo meu, esta) na cadeira do barbeiro, se ele consegue, eu consigo. Fui criada num boteco. Não era bem um boteco, é verdade, mas um quiosque hexagonal com grandes janelas de madeira quais abríamos à medida que o povo ia chegando para os campeonatos de futebol organizados na Associação dos Funcionários da Móveis Realeza. Meu pai era tesoureiro e explorava o bar, uns tempos. Eu que sempre fui a melhor filha do mundo, limpava os banheiros, ajudava a destripar um porco se preciso, lavava copos, servia cervejas no balcão, enquanto quem não jogava nada jogava pife, truco, bocha, fazia piquenique sob as árvores. Terminado o serviço, podia brincar nas curvas do rio aos fundos do campo, área esta toda de meu domínio pré-adolescente que agora pertence ao Parque Municipal do Samae. O quiosque e o banheiro continuam lá, à vontade do tempo, o rio perdeu uma curva, isso sim me revolta.

Entrei num boteco. É melhor que se diga logo: não um qualquer, mas a bodega do Marcelinho. Além de bodegueiro de primeira, que só recebe em moeda, não aceita cartão ou vale, muito menos fiado, colecionador de antiguidades nesta mesma casa-boteco, onde antigamente, pois então não estou dizendo, era o Bar e Lanchonete Pampas II, da Marli Correa, minha cliente, amiga do meu pai de bons tempos aqueles – não me pergunte onde anda, desde que saiu dali nunca mais ouvi falar bem, mal, um pio. Comigo ficou tudo certo.

Entrei no boteco. Já ia pedir a cerveja, a dúvida, entre artesanais e larga escala, me roubou a atenção, não bastasse ter de olhar tudinho arredor, e isso que nem contei: do banheiro, que tem mesmo uma banheira, daquelas bem velhas; do barulho bonito que faz a caixa registradora, quando aberta; quanto a comida cheira bem; a simpatia toda que frequenta o lugar. Eu não gosto de linguiças mas o amigo precisa provar as que servem ali, em rodelas, salsa picada sobre.

Lembro de ter aprendido em alguma oficina que, escritor que se preze tem de ter uma caneta, e eu, claro, não tenho uma, muito menos me rendi ao celular, pra tomar notas, até porque meu filho é o verdadeiro dono do aparelho, e se quiserem falar comigo, mais fácil o boteco, hoje. Por isso mesmo deixei um bilhete na porta, basta ir lá ver, se duvida: estou no Tréf. Tenho este serviço urgente, o de escrever esta crônica, e a concorrência no mundo das crônicas, como sabem, é severa, já não é a primeira vez que digo, repito, há pessoas que hoje em dia se especializaram em escrever crônicas em mesas de bar, se eu não fizer, alguém faz por mim.

Reconheço que ultimamente estou mais para “bela, recatada e do lar”, que pra crônica, não fosse a filha pobre de pais que um dia já tiveram um bar, tentando escolher uma cerveja num boteco da hora, e pelos pelos do meu gato que se eu não conseguir fazer isso até meia noite, por qualquer impedimento, vou tentar de novo amanhã, querendo ajudar apareça… Tenho pra mim que o problema começou lá atrás, quando pedi a primeira, só para experimentar, que nunca tinha experimentado.

***

Preciso lembrar de falar mais do quiosque. Especificamente do tanque de gelo, das grades que tinha, das garrafas de cerveja no gelo picado, do pai picando as barras de gelo com uma faca, talvez fosse um martelo; do campeonato que eu e meus amigos organizamos num outro quiosque bem parecido com este, em 1993, o sucesso que foi! Falar do gelo, neste calor, é refresco. 

A SESTA DE DOMINGO

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Fungo, de Alegra Catarina

É sexta.

Chamo meu namorado.

(Por “meu namorado”, que, entenda-se, tenho interesse em ganhar dele um perfume no Dia dos Namorados. Apesar de sermos casados, em pé de nos separar, porque a fila anda, etc.)

Estamos, eu e meu namorado, lidando na cesta de basquete das crianças. Há semanas.

Quando chegou, a tabela trouxe consigo tantos defeitos, que eu resolvi devolver. A loja recolheu e levou para fábrica corrigir os problemas. Depois de um mês, devolveu, em iguais condições. Segundo o fabricante, o defeito é de fábrica e eu que sou muito exigente. Esta é a melhor tabela que fabricam e se não quiser ficar com ela a loja me reembolsa o valor investido.

A bola quica. Fico com a cesta. O namorado sugere algumas melhorias.

Antes de ser fixada é preciso substituir o alumínio que protege o compensado naval da chuva, cobrindo a parte superior num “L”, por uma peça em “U” – pensem no “U” de ponta cabeça, por favor -, o mesmo procedimento nas laterais.

Além disso, resta saber se a parede de tijolos suporta o peso. Segundo os vendedores, sim, desde que sejam usados parafusos de chumbo contra o concreto. Mas não há concreto no centro da parede de tijolos.

Chamo meu namorado.

Pisco um olho, ele estaciona, trazendo uma escada.

Serviço quase pronto, como está agora, ele confessa ter gastado algumas horas de sono tentando encontrar a solução. Forjou as voltas necessárias na barra de ferro, implantou caibros de construção no verso da tabela, e ganchos.

Precisamos erguer a tábua para saber se tudo vai funcionar.

Ele acha que vai ficar muito alto. Eu chuto que vai ficar baixo. Suspendemos a cesta com cordas e chamamos as crianças para testar. O Lucca não está em casa, mas os pias do vizinho, o Flavio e a Sofia estão. Eles lançam a bola e… Cesta!

Ainda precisamos alinhar esteticamente os cabos que sustentam a tábua, encontrar o esquadro perfeito, fazer seis furos na parede e parafusar – ou “parafusear”, no Modo Engraçado – para a tabela não dançar, dependurada.

As crianças ganham lances livres para testar o som da bola contra a tábua, e blóu. O barulho é incrível! Parece mesmo que estamos numa quadra de basquete.

Perfeito.

– Ficou muito baixo.

O mais velho chegou. Eu fazia ovos mexidos com cebola, que já estávamos azuis… Depois, eu e meu namorado ficamos namorando na namoradeira, enquanto os menores brincavam de bola. Estamos todos muito cansados, mas ainda não nos rendemos. Até que o primogênito apareceu na janela do próprio quarto, e sentenciou:

– São nove e meia. Chega deste negócio de bola. Vão dormir!

E o mundo dormiu feliz.

Sábado teremos que subir a altura da tábua, pra dificultar um pouco as coisas. Depois de amanhã, lá pelas três da tarde, a gente  toma um banho e então descansa. Se quisermos silêncio, precisamos pensar em um bom esconderijo para bola. Ou sair, comprar sorvete.

MAS VOCÊ NÃO ESTÁ AQUI

Eu estava ali o tempo todo, só você não viu” (Pity canta)

Olho para o céu, por mais piegas que soe a frase, olho para o céu, totalmente azul, exceto por três moitas de algodão, por mais piegas que soe dizer que as nuvens parecem feitas de algodão, e me emociono. Porque você não está aqui, comigo.

Olho para borboleta amarela, uma borboleta muito velha, olho para o fim da vida da borboleta, voando em círculos arredor do pézinho de limão do meu singelo quintal, sem forças sobressalentes para alcançar vôos mais altos, e vejo outra borboleta branca, novinha em folha, voar ali perto, e penso sobre isso, e me emociono. Por que você não está aqui, comigo?

Sei que hoje à tarde, precisamente às cinco horas, estarei no cemitério, próximo do túmulo aberto, a enterrar alguém que significou algo, representou modelo a ser seguido, foi uma Dama com caixa alta no D. Criou bem os filhos, educou os netos, é pessoa querida da avó Auristela. Há poucos dias passando ao lado da entrada da minúscula cidade de Paraguaçu, dizia a quem estava ao meu lado das quantas vezes Dona Dolores e o marido (muito mais importante), saíram de São Bento do Sul aos domingos, passando por Itaiópolis, pegar meus avós, para irem comer pirogue no único restaurante, típico, estabelecido num casarão muito antigo, lá no que mais se parece um “vilarejo”.

Minha avó, do velório, não ficará para o enterro, e eu, primas e tios, estaremos lá até o último minuto para representá-la de alguma forma. Em sinal de respeito, exatamente como os filhos dela farão, quando minha avó, esta igualmente Dama, se for. E pensando nisso tudo, me emociono. Porque você não está aqui, comigo.

Você não estar aqui comigo é certamente a prova que enfrento, neste dia lindo, e a cada outono, inverno, primavera, e todo ano, no verão inteiro, no exercício de me tornar uma pessoa melhor, por minha própria conta e risco, sem você, repito, aqui comigo, para me ensinar a ser. E porque não estou contigo, da mesma maneira, é que sei, do teu enfrentamento diário, no mesmo sentido. Você, que é ou não é meu amigo, que de outra janela olha o céu, e se emociona.

Somos companhias invisíveis, uns dos outros, no mais das vezes.

Lembrei de ti agora, Madô Martins, e do teu texto todo “Azul”, publicado na revista eletrônica RUBEM, no qual comento:

Gostei muito do povo junto, assim reunido, Madô. E do tom. E do plúmbeo.
Que presente procurar a película de cores e ficar ali, olhando, olhando, olhando… Nem vendo, mas olhando, para tudo aquilo que não se vê. Porque está lá adiante, escondidinho, na moita da cor.

Eu gosto de ver as pessoas reunidas arredor de um túmulo, num domingo de céu essencialmente azul, com um ventinho fresco carregando pequenas nuvens brancas. Por mais tolo que soe. A cena é, quase sempre, o fim de toda tensão. O fim de uma vida metade feliz, metade infeliz, como todas, por mais que queiramos nos iludir em contrário.

DO TAMANHO DE UMA ARROBA

A Ilha de Elyandria (até pra Wikipédia saber) pertence, por invenção e direito, à escritora Elyandria Silva. Eu mesma mal informada, só soube dela, da ilha, por acaso de um acaso. Navegava em canoa furada, no leito torto do rio, acabei avistando, da beira, sem certeza se era mesmo.  No redemoinho de um piscar, a ponteira virou, foi girando, girando, girando, no aprumo é que vi de verdade! Foi como tivesse remado pra trás, até voltar ser criança-uniforme, que quando vê ilha, pensa naquilo que cerca ilha: seus mistérios, e as coisas que tem dentro, e fora dela! Que ilha é esta? Será que existe, e se existe, e existe mesmo, as horas vão passando, se atrapalhando, na conversa umas com as outras. E foi no ínterim da conversa fiada e passada entre as horas que lá já se passam, que escrevi a primeira, eeee, mais boba carta, sobre a ilha que via, e o que mais seria, se não uma ilha? E bem rapidinho, no tempo do pulo de um peixe-voador, remeti, e se foi, foi por um nadinha de um Enter, pro endereço-correio: Ilha de Elyandria, nº 1, em mãos. O feito marcará as comemorações dos cem anos do descobrimento! Sem mais delongas, segue a cópia:

Ilha de Elyandria é um nome perfeito para uma Ilha, Elyandria! Daí que, se eu fosse tua amiga, de infância, e pudesse ser criança, só por um dia, de novo – a antepenúltima, mas não prometo -, ia copiar tua crônica, com a tua letra, se fosse mais bonita que a minha, se não com a minha, colocar enroladinho, e firme na fita, dentro de garrafa pet transparente, disposta sob palha de madeira, em caixa-baú, e aí mandava num Sedex 10, pro setor de criação, daquela produtora famosa, da escola do bairro, aos cuidados da Diretora, anexo um papel feito em casa, destes de liquidificador, pintado nele o mapa!, com um x que assinala o ponto exato escolhido, no meio daquele rio, o menor deles, pequeno, mas de grande grandeza, bem ali, na Bacia do Itapocu, na parte assoreada, e sem maiores explicações, bastando isso!, pra entendedor entender, que não é todo dia que nasce uma ilha!, assim, ‘de papel’, no mundo da fantasia, pra inventar lenda nela, pra socorro de pescador!, pra servir de base!!, pra fazer um trapiche, estacionar caiaque, cair de escorrego, plantar bananeira, ou pé de goiaba, jogar água pra cima, molhar a professora, limpar a margem, só de castigo, ou divertimento, convidar todo mundo: ir lá ver, se tem mesmo!, ou se é tudo invenção, da tua cabeça, uma destas “ideias de Levir” (técnico do Fluminense), que ele tem, mas não conta, que é pra ninguém saber, e aposto como ele sabe!, da Ilha de Elyandria, tão vaidosa que nela dá até pra fazer um estádio!, o Estádio das Formigas, que lá, dizem, tem um formigueiro enorme!, do tamanho da ilha, tão bisonho, que ninguém vê de longe, e quando chove, derrete tudo, daí elas sobem num tronco, que tem lá, e navegam, até que as águas baixem, pra depois começar tudo de novo o serviço, bem ali, olha!, no fim do labirinto -> @, viu?! 

Agora já foi. A ilha, tão pequenina, é do tamanho do pingo da “arroba i”, igual a daquele banco, só que é dum banco de areia, um conglomerado de grãos, parado, no meio de oceano doce. Tem vezes que a gente passa, ih, passa por cima, nem vê. Mas que existe, exite, e existe mesmo! Tanto que eu vi.

SOMOS TODOS REFÉNS DE UM DESPACHO A FAVOR OU CONTRA NÓS

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Bancos e bandeiras, de Alegra Catarina

Sei de experiência própria o que é ser transformada em RÉ num processo investigativo onde você é simplesmente a REQUERIDA. Acontece, por exemplo, quando um homem se separa, deixa os filhos menores com a mulher (que tem a guarda de fato, ou provisoriamente instituída), e depois que eles viram adolescentes, ele pede a guarda, alegando que ela nunca cuidou deles direito. Porque se eles estivessem com ele, teriam um carrão de luxo para andar, x-box na TV, academia, viagens a hotéis fazenda, presentinhos, roupas melhores que a mãe pode oferecer, e comida japonesa três vezes por semana, claro…

Então a mulher que ao mesmo tempo cuida deles e trabalha para sustentá-los precisa provar para Justiça que é uma boa mãe. Parece simples, mas não pensem que é tão fácil assim!!! O Promotor não te conhece, nem ao REQUERENTE, e não tem como saber quem cuida melhor das crianças, se aquele que cuida das crianças ou se aquele que visita as crianças somente quando lhe convém. Você precisa aguardar a visita da Assistência Judicial. Mas se o processo nunca chegar na mesa certa porque está encalhado em algum setor, isso é problema da MÃE. Ela é que tem de provar que é boa mãe. Enquanto ao mundo compete apontar os dedos para cada coco de mosca que tiver na janela da cozinha…

É por isso que não condeno ninguém antecipadamente. É por isso que não defendo ninguém. Nem mesmo o Lula. Nem mesmo o Moro. É por isso que não falo nome feio, mesmo quando dá vontade.

Justa observação: o processo correria idêntico, invertidos os papéis das partes.

O NÚCLEO DA SEMENTE

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Mato bom, de Alegra Catarina

Caio na mesma vala. Levanto com a mesma bengala. Tenho braços e pernas. Sei ler e escrever. Acho interessante observar as pessoas que se acostumaram com o palco, na vida, e aquelas que fazem da vida um palco. Brilhar pra sempre. Brilhar como um farol. Gente é pra brilhar. Então brilhe, ou morra! Mas e se eu não quiser?

***

Sou uma pessoa que gastou milhares de horas de vida fazendo jardim para quase ninguém ver e alguém poderia pensar sobre o mau uso que fiz da minha vida inútil. E conhecendo o meu jardim, perguntar-se porque não usei o gosto para atender grandes corporações. Desculpem eu achar engraçado o raciocínio.

***

Ninguém me compreende. Ninguém compreende ninguém. São conclusões rasas. Muita gente entende muita gente. Muita gente não se entende, mas é entendida. A Literatura está aí para provar que alguém, algum dia, já entendeu outro ser humano. Tão bem que  até criou um personagem com quem o mesmo ser humano pudesse parecer.

***

Se não for para me fazer mudar de ideia não sei pra que serve um invento.

***

O que é que as pessoas perderam que pensam poder encontrar aqui? O que faz com que voltem? Eu não tenho nada para contar que possa servir. Sei o que estou dizendo. Antes preciso me encontrar neste matagal, transformar num imenso jardim, ou numa floresta, com matos, musgos, líquens, terras de todas as cores, pedras, paredões, córregos, cachoeiras. O que pensa encontrar aqui, me diz? Providenciarei se não for parecer muito artificial.

***

Gastar milhares horas de vida fazendo jardim para ninguém ver. Como em “O jardim secreto”, aquele filme, viram? Gosto desta ideia. É conclusivo. Gosto de conversar com a plantas e com  as palavras. Elas me respondem sutilmente, e sem obviedades.

***

Acaso um passarinho, uma borboleta, um besouro, uma lesma, um bichinho ou um fungo aparecessem, para dividir uma sombra, seriam bem vindos, num indo e vindo coletivo. Eu não pretendo fazer contratos, mas garanto: jardim onde vivem cem plantas, vivem cento e uma, bem carpidinho.

***

Gosto das plantas e das palavras a infinidade de combinações. E de como podem tocar aquele que as lê, dispostas da maneira correta.

***

Antigamente as pessoas renunciavam, ou metiam uma bala na cabeça, e isso lhes conferia alguma dignidade, diante de flagrante delito. Meu jardim me permite pensar. Talvez algum dia se transforme num cemitério jardim onde restem os restos mortais cremados de políticos condenados a apodrecer na cadeia.

***

Ser casado. Nunca separar no civil, separado de fato. Fazer aniversário de mais de anos separado e ter foto de outras mãos com par de alianças na capa do Facebook. Eu não concordo. E quem concorda é muito bem vindo, longe de mim.

***

Um jardim tem que fazer algum sentido. Um país também.  E tudo começa na primeira muda boa, ou semente de fado, que o vento trouxe, brotou, e se decidiu arrancar ou deixar crescer.

***

Meu jardim é meu. Quem quiser diferente, que faça o seu, com gnomos, fadinhas e outras fantasias. É um favor se colocar uma placa com os dizeres: “não pise na grama”. Assim, passo longe.

***

Algumas plantas são muito exibidas. Uma orquídea muito grande pode acabar com um jardim. Tomar para si toda a atenção.

***

Caio na mesma vala. Levanto com a mesma bengala. Acho interessante observar as plantas: que se acostumaram com o palco, na vida, e aquelas que fazem da vida um palco, por influência de Narciso. Provavelmente, tudo que já ouviram falar. Planta é pra brilhar! Então brilhe, ou morra. Mas e se eu não quiser?

***

Aprecio ver a poda brotar, nem tanto pela semente que depois daria, mais pela resistência que representa.

CAMARÕES AO BAFO

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Passatempo, de Alegra catarina

“quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; (…); quem julga adivinhar o pensamento do cavalo; (…).”

Paulo Mendes Campos

Mente hospedeira hospedando mais fértil alheia, é prosa, é zombadeira:

Aquela moça passando ali na rua, repara bem como olha para dentro do meu portão. Ela me vê, eu a vejo, entre as frestas, enquanto o portão corre. Os acenos, ao longe, são dispensados. Gostaria de poder lhe dizer um “cuidado com o sol”, “seja bem vinda”, “que bom te ver”, “está parecendo um pouco mais velha desde a última vez”. Mas não digo. Opto por não sorrir. Ela sorri, apesar, o tempo todo. Chega a parecer quase totalmente feliz. Minha indiferença não a abala. Ela sabe que são muitas as pessoas que sorriem para mim, ou me remetem algo, todos os dias. Por isso não insistiu quando o correio eletrônico voltou com um ponto com a mais, e o anexo. Faz um ano que me mandou envelope com papéis surrados, fiapos de borracha dentro. Resultado deste correio, sabe o que sou, sei o que ela é. Sabe das minhas roupas, da minha voz, da minha cozinha, das mulheres com quem me relaciono, bem ou mal, da facilidade que tive em fazer minha filha entender que iria me casar com uma delas, e o que pretendo das outras amizades. Ela é esperada para o almoço. Logo aqui, na casa ao lado.

SHARK* – LIÇÃO 1 – OBSERVAR

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Couro de vidro, de Alegra Catarina

* ‘Shark ataque’, no futevôlei,  lance inventado por Léo Tubarão, é comparado ao gol do futebol e à cortada do vôlei.

Suponha quatro moças batendo bola em praia do Rio (Grande do Sul). Auri está na dupla perdedora, pra variar, a bola escapa – mas tinha que ser! Adversárias tolas caem no riso, como quem está um nível acima, do rés da areia. “É impressionante a falta de habilidade. O Penz tem razão!”, elas pensam que pensam…

Auri dá aquele risinho, que só ela. Ajeita a postura, espana os grãos que grudaram no pescoço, firma o cabelo, dando volta no rabicó. Esfrega as canelas – aí é opção se os peitos ou a bunda estão virados para o quiosque, na hora ela vê.

Respira fundo, faz cara de séria, troca pela de menos séria, ah, vai esta mesma! Isso tá certo, mesmo? Mira a esfera descansando nos pés da vítima. Admita-se que foram muitas as tentativas, mas por estes pés, já repararam? Valem o sacrifício.

Diz inaudível um “desculpa aí” e sem sair do olho no olho segue até lá. É melhor ir buscar a bola, que se depender de esperar… A tarde cai madura no horizonte, a noite é criança por vir, tem outros ‘garotos’ batendo um bolão, mas este!, Auri suspira, ah, este ri para ela (ou dela, não importa) e teria prazer, como fica evidente, em ensinar passes perfeitos. A barriguinha verde aprendia fazer chimarrão por este homem!, não bastassem os exageros… O mar continua lá atrás, eu acho. O mundo, é a sensação, parou de girar. Segura no pause, faz o de conta pra mim?

As meninas deram um “partiu”, foram num fininho. A lua nada nua. Ele continua ali olhando e na direção:

– Garçom?! Congela e embala esta cena pra eu levar, fazendo favor. Mantém a quatorze graus, solta o ventinho pelas dezoito…

Auri foi embora pra sempre e ele não sabe se quer voltar a vê-la, nem o que faria se a visse na sua frente. Ela estraga tudo.

A noiva chega. Pede cerveja, “outra pra ele, e copo limpo que esta chocou”. “Que foi, bem?” “Oi! A crônica em quem pensei: A vida real é uma bola, mas tenho que pensar noutro título.”

Sei que devem estar questionando exatamente isso:

– E a bola, Auri?!, cadê a bola?! Então…

Tirando o leonino, que estava acompanhado, e o geminiano gracinha, este foi super gentil em passar uma água na bola enquanto eu me aprontava pra zarpar, não sei dizer o quê, ao certo, mas algum defeito os outros devem ter. O que perguntaram, mesmo? Estão me desconcentrando, sabiam?

SOBRE AQUILO QUE NOS MOVE

Vamos, sim, falar sobre isso.

“Vamos falar da estupidez humana, da estupidez de toda uma nação.”

Não!

Vamos falar sobre aquilo. Passar a vida a limpo. Dizer sobre amores frustrados, mais longe, aferir que amor mesmo, teve um ou dois, poucas paixões, e os outros eram outra coisa. Anunciar ao mundo com quantos dormimos a noite inteira. Fichar e insistir. Contar (“mas quem é que está contando?”) enquanto casados, descasados, no banheiro embaixo do chuveiro, e na mesa do escritório, contra parede, na cama, no colo: pra cada bem feita, quantas não fizemos. Vamos resumir a conversa.

Falar sobre nós, mulheres, que transamos com homens. E com outras mulheres, sobre a aquelas que vierem o caso, se relevantes. Ler Buckowski em voz alta, trocar figurinhas pornográficas, ver filme pornô no motel. Confessar as gracinhas dos homens casados, que colecionamos, as cantadas, que evitamos, a vez que quase cedemos, porque ele estava se separando mas desistiu. Do quanto fomos fiéis ao amor não correspondido, no mais. E de quanto não traímos o que era nosso, mesmo podendo.

Vamos falar em pleno século 21 de galinhagem, tradição, bons costumes? Ei! Vamos trocar alianças, prometer amor pra sempre, diante de um juiz de paz, ou de futebol, tanto faz. Vamos por no papel pra nos convencer.

Não!

Mandar indiretas. Dizer que toda mulher que posou para Playboy é puta, indiretamente. Que quem transou com mais de um cara, é puta, por tabela. E aquela que usa a palavra puta, num texto, é puta. Vamos falar de nós, putas, e das vezes que fomos chamadas de puta injusta ou justamente.

Lembrar da vez que demos mole para aquele sujeito indeciso. Você pode tudo. “Só não pode chamar minha mãe de p.”. Então vamos xingá-lo! Dizer do estado das suas cuecas borradas, e das nossas mau meladas.

Não!

Existem as frutas pra isso. E bichos esperando o dia que serão usados para comparar. Vamos comparar. Construir boas metáforas para chamar de burro. Dizer meia palavra para ser bem entendida. Gastar um dia inteiro imaginando o título apropriado para falar o que queremos dizer: que toda mulher é puta.

“Vamos falar da estupidez humana.”

Vamos falar na extinção dos homens. Daqueles que não merecem a mulher que tem em casa, nem vagabunda de rua, muito menos ser chupados gratuitamente, por uma puta que conheceu na internet, dentre as que admitem e as que jamais admitirão.

É brinde! Vamos falar de você, que se identificou. Sobre mim. Sobre nós que sabemos. Estou lá na esquina caso queira me encontrar, pra falar sobre isso. Isso e aquilo. E pra te tratar, na fome de mim. Vem.

“Vamos falar da estupidez humana”. Escancarar a burrice, do nosso apetite cavalo, em achar que a coisa está certa ou errada, na visão limitada de um homem. Sobre teimosia em contrário, a fé ou o diabo que a carregue. Sobre sexo ou o puta amor que ainda sentimos. A falta que faz. O resto, o descartável, a sobra.

“- Oi, você ainda está aí?”

“- Estou.”

Vamos desligar, retornar ao ponto, anular, partir do zero a zero, quantas vezes? Perder por excesso de faltas, ganhar no bico, baixar a bola, levantar a moral. Driblar. Deixar que a criança vença. Enganar. Falar sobre e negar. Deixar que escrevam, decidam por nós. Que nos julguem.

Vamos casar no jogo, apostar todas as fichas no anel, sair lucrando, deixar pra lá. Recusar o convite pra ir, sair sem rumo, fugir de casa, ficar por ficar… Falar de amor, assombrados. E falhar.

ACUPUNTURA EMOCIONAL

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Pica-pau, de Alegra Catarina

Sinceramente, mas nem tanto, não sei como “essas pessoas” me encontram. Sou grata, gostaria de lhes dizer. Imagino que as mesmas pessoas os encontrem também. Se vocês são ou não são “essas pessoas”, devem saber quem são. Vou chama-las de Andreas. Ênfase no “e”, como se Andréas tivesse acento nesta vogal, assim. Andréas são “essas pessoas” que me encontram.

É cedo, e como todas as outras pessoas, passo meus e-mails. Procuro resolver os assuntos, ou agenda-los, até no máximo as nove horas, e cumprir leitura obrigatória. Mas hoje o Andréas me tocou. Por e-mail, propõe uma seção de Acupuntura Emocional. Afirma que toda pessoa, inclusive eu, é merecedora. Quer dizer, merece ser rica, próspera, feliz… Se não acredita nessa verdade, acaba se auto sabotando (e se autossabotando). Imagino que qualquer um já recebeu mensagens desta natureza. Eu sou merecedora!

E por ser merecedora gastei meu fim de semana todinho com um homem delicioso. Ele me acariciava, acariciava de novo, e ao fim de cada seção de carícias e conversas, me cobria. Em seguida preparávamos algo para comer, enquanto um ou o outro tomava uma ducha, escovava os dentes. Então ele me cheirava, eu a ele, acariciava, eu a ele, e a ideia de repetir tudo desde o começo era cada vez mais promissora, até que as horas esgotaram.

Segunda-feira veio buscar o relógio, esqueceu de propósito. Deixou a jaqueta, para ter motivo de vir outra vez, quem sabe, hoje. Desculpa para outro encontro casual. Está frio, ele aqui perto… “Sou merecedora!”, repito. E se quiser me acariciar, bem assim, permitirei.

Mas voltemos ao Andréas. Quero lhes contar o conteúdo do e-mail. Estudo a foto, que anexa. Cara boa, saudável, olhar convidativo, transmite segurança. Penso numa seção de Acupuntura Emocional, com ele, como seria. Deitaria no divã, frente a ele. Antes de explicar os motivos que me levaram até ali – a necessidade que tenho de me curar de pensamentos negativos que impedem que eu me liberte da crença de que toda moça deve ser boazinha, comportada, ter bons modos, ser direita, trabalhadeira -, como antecipado ao telefone, deleitaria da sua beleza.

Peço tua ajuda, leitor, para compor a cena. É importante! Estou aprendendo a escrever e tenho de me desligar do que quer que me impeça de ser eu mesma, na Redação: a “Chata Tarada“, espinha dorsal da minha Coluna, de mesmo nome. Acredito, num futuro remoto, poder ajudar outras pessoas, merecedoras.

***

“Estou de saia!”, me censuro, para início de seção. Minhas mãos seguram a barra. Os olhos fixam nele – melhor que a propaganda! -, alternando: olhos, botões, barba, boca. Mantida a tensão do silêncio, estou excitada. Andréas não se move, apenas observa. Profissional exemplar. Passam dez dos trinta minutos e tenho certeza de que, ao final do texto, estarei relaxada. Ele me encara, desafiador. Preciso superar o medo! Sei o que busca extrair de mim, do fundo da alma. Apesar de duvidar ser capaz de seguir adiante, sem vacilar.

A sala tem aroma agradável, isso me distrai. As cores das paredes são alegres. O tecido do divã é macio. Acolhedor, um cobertor descansa ao meu lado. Ele pronuncia meu nome, resgatando meu olhar. Pergunta se quero admitir por que vim, se confio nele. Encantada, assimilo, digo que sim. Ele se aproxima devagar, feito miragem. Uma das mãos agora descansa sobre a minha. Move, sensivelmente, a renda da barra. A outra segura meu queixo. A fala me toca. Pede que eu respire; que concorde com a cabeça; que confirme, ou repita, o que ele fizer ou disser. Irá direto ao ponto. Aceito. O risco de um diagnóstico precipitado…

“Preciso gozar”, afirma, não sei se sobre mim. Concordo. “Tenho vinte minutos.” Confirmo.  “Estou numa seção de acupuntura emocional e pretendo sair daqui melhor.” Concordo. “Vou facilitar pra você.” Aham. “Estou excitado, poder ajudar.” Confirmo. “Estou de saia. Provoquei. Mereço tudo que virá a seguir. Repita!” Repito.

Andréas finaliza o Exercício Introdutório. Me cobre, em seguida abre a porta, me conduz à outra sala. Pede que aguarde, se quiser, que revise o que conversamos, enquanto inicia outra paciente. É a primeira vez dela, também. “Exercite e entraremos na fase dois do treinamento”, aconselha. “E esteja à vontade até a próxima sessão.” Me beija doce a face, retribuo o gesto.

***

Ficou combinado intensivo de cinco semanas, com cláusula de prorrogação, se necessário. “Sem compromisso de ambas as partes.” Concordo. “Dispensei as luvas e assumo total responsabilidade.” Pede que eu confirme. Eu confirmo. Devo esperar seu próximo contato, num novo e-mail de autoajuda, quinzenal. Imagina! Imagino… Quem precisa de “EFT”, sendo eu? Tire suas próprias conclusões – sem confundir REALIDADE com FICÇÃO… É claro!

A ARTE DE DESCONVERSAR

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Torres sem comunicação, de Alegra Catarina

– Viu a moça que morreu? Podia ter sido eu.

– Viu o homem, ‘quem’ morreu? Minha idade. Podia ter sido EU!

E assim, encerraram o diálogo. Se chamarmos isso de dialogar. Cada um com seu pensamento não abriu espaço para entender o sentimento do outro.  Apenas rebateu, como se devolve um soco no estômago. Antigamente eram beijos, abraços, apertos de mão. Agora, de cúmplices, viraram inimigos. Culparam o tempo, as alianças, as palavras. Trocaram acusações. Defenderam-se. Apresentaram contra-razões. Tudo restou inútil.

Julga-se mal, lendo raso.

– E o esgoto que lançaram ao mar, viu? Deu no jornal. Agora já não somos melhores que ninguém…

– Pois é. Um dia o mar satura.

– O mar e o trânsito.

– Verdade. Outro dia, distraí, o da frente parou, pôu.

– Acontece. Tinha seguro?

– Tinha. Aproveitei o tempo de espera do guincho para ouvir os sons da cidade. O picolézeiro não assovia do jeito certo – fiuí, fiuí, fiuí. Uma mulher contava história pras outras, no ponto de ônibus, evidenciando a palavra ‘misericórdia’. São problemas maiores. Um rapazola passou por mim falando ao telefone, dizendo que estava naquele lugar e se ela não acreditava, ele podia até mandar uma foto. Ninguém mais confia em ninguém.

– Desconfio que sim. E tua sogra, ela está bem? Mora aqui perto, não?

– Conheceu? Foi num velório, hoje. Do menino que morreu espancado.

– Sim, eu soube. E o coração?

– Até ontem usava o perfil dos E.U.A., para me visitar. Bota empenho! Hoje, ainda não veio. A paz (s.f.), em tal caso, é adjetivo – como em Japão da paz -, que carrega em si a vantagem de ser uma palavra miúda, fácil de incluir num texto, ou por fora de casa a qualquer pretexto, pé de guerra, café pequeno.

– Vai fazer o que no Carnaval?

– Compor a Ode às Avessas, lidar no jardim… (Em mente, o mantra: “Cultura de paz são ações, maneiras de vida, comportamentos, hábitos e atitudes que favorecem a paz. “) E você?

– Vou ficar por aqui.

 

SE DEUS UNIU, NEM DEUS SEPARA

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Trave, de Alegra Catarina

Acabaram-se os meus argumentos. Sobrou nadinha para tentar me convencer. Até que foi rápido. Dois anos inteiros penando de amor e estou com crédito de no mínimo dois pecados no céu. Agora, em caso de paredão, duas de seis balas, atiradas contra mim, vão falhar.

Mas pecado é crença maldita! É até pecado pecar com alma livre de pecados. Vocês sabem como é, chega um dia, você precisa confessar. E toda pessoa que preste tem de ter ao menos um pecado de nascença pra contar. Pode ser algo como: ‘sou herdeira de Adão e Eva’ ou  ‘meus pais fizeram sexo, e eu nasci’. Dizer que nunca pecou é pecado! Padre em conclusão a respeito de quem nunca pecou o melhor que tem a fazer é mandar a criança voltar para o banco da escola até que saia de lá com no mínimo um pecado. Por castigo antecipado: decorar todos os pecados possíveis e inventar no mínimo mais um, sob pena de ser condenado, a nunca mais comungar (comer batatinha frita em companhia de amigos).

Acabaram-se os meus argumentos. Eu queria namorá-lo, Padre. Mas ele não queria namorar comigo. Isso ficou evidente, desde o primeiro instante – eu me deixei confundir. Tal como as novas regras de impedimento, tudo é questão de interpretar. Dizer que nunca deixou passar gol impedido é pecado, fato. Mas vender resultado antecipado, quanto pior, não sei. Se mentir é pecado assumido, lograr gente burra, não! Tão claro quanto água de mar imprópria para banho.

Poluir com barro pode, com esgoto pode, mas Deus o livre se eu te vir deixando garrafas embaixo da árvore, ir sem recolher. Vou chamar atenção. Sou um legítimo defensor dos bons costumes na areia: fumar, falar alto, deixar criança solta, vender óculos sem filtro, são pecados infinitamente mais graves que topless virado pra baixo, e tenho dito. Isso falando do mar.

Acabaram os meus argumentos.

***

Digamos que um Deus, partindo do princípio de que Deus existe, há controvérsias, baixasse até teu andar, supondo que mora no andar de cima, pairasse o corpo ao lado da tua cama, te questionasse:

“- Você o ama? “

Qual a única resposta correta?

“- Ora, Deus. Se o Senhor não sabe, quem sou eu pra negar? E, digamos que sim, o que poderia fazer a respeito, a esta altura do jogo?”

Deus, ao lado da sua sabedoria, tentaria outra vez.

“- Está me desafiando, mocinha?”

“- Ora, Deus. Se o Senhor não sabe, quem sou eu pra negar? E, digamos que sim, o que poderia fazer a respeito, a esta altura do jogo?”

“- Quanto tempo ainda temos?”

“- Ora, Deus. Se o Senhor não sabe…”

Meus diálogos com Deus têm sempre o mesmo desfecho: não conseguimos, juntos, resolver as mais elementares questões da vida real. Deus não passa de Literatura, julgo-o, sem conhecer direito. Perdi a fé, ou Ele, em mim? Meu Deus não devia ser um homem com tão pouca fé em mim!

Pedi um sinal de adiantamento, o sussurro sussurrou:

“- Esta vendo esta mulher à direita, esta outra à esquerda, as crianças à frente? Confiam em você. E acredite, há muitas outras pessoas. Por que Eu não iria confiar?”

“- Eu quem, no caso?”

E LÁ ESTAVA O JORNAL…

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Sonho em preto e branco, de Alegra Catarina

… catando possíveis clientes, indicando o telefone de assinatura do serviço, na nota fúnebre do Seu Popular. Havia um público alvo ali. Não era o caso de prestar homenagem ao velho amigo. Afinal, o amigo estava morto. Advogados entregam cartões no velório, caso alguém queira providenciar os papéis do Inventário, no ato. Outros vendem flores, cremação, cliques no jantar de despedida da família. Há quem doe a própria alma, e quem pregue: “se estiver pagando, não importa quem é”.

Pensava nisso enquanto despertava do sono, segurando na mão, no sonho, um objeto de gesso, branco, sob o qual, agorinha mesmo, acumulava pó, que espanei. Tinha o formato de goiva (em miniatura), com desenhos em relevo, contando a história do dono, por símbolos. Gárgulas vigiavam a pequena obra, nos cantos superiores. 

À esta altura, de dentro de outro quarto – um reservado, que a família nunca antes teve acesso -, saíam: caixas de papéis; fotografias não reveladas; dezenas de revistas Playboy; a senha de endereço da internet contendo a palavra “Pênis”.  E o que mais surpreendia: mulheres, vestidas com lingerie cara, surgindo detrás das cortinas, do armário, debaixo dos panos da cama, do banheiro. Era um antro! Ou melhor, cativeiro. Cada uma que saía pela porta (como se nunca antes houvesse sido convidada…), levava consigo um pedaço da história que queria acreditar.

Coube a mim, surgindo às mãos, esta Peça, que o sonho me pregava. O jornal não registrou, ninguém deu a falta. Testemunhas ignoram o nome do homem semanas depois. Ou querem não lembrar. A tortura é um tipo de prazer que exige confiança mútua. Deixamos de sentir prazer quando a porta bate. Experiência própria.

Lembrarei melhor dos detalhes assim que a lucidez voltar por completo. Protejo a retina da luz que incide gradualmente. E devo me prometer nunca (mais) deixar alguém se apropriar de mim de tal modo. Ainda que alguma lembrança feliz possa me trair querendo que acontecesse de verdade.

O jornal chegou. O dia amanheceu! É hora de lavar o rosto, parar de sonhar absurdos. O dono do quarto jamais pedirá “desculpas” às tantas mulheres que enganou. Nem poderia, agora que estou acordada. Nem que pudesse se sentiria obrigado. É triste.

Olho para a arte e reluto entre querer preservar, ou fazer dela cacos. Quem é que ainda guarda anjos, goivas, gessos? Certamente alguém, em algum lugar, guarda. Cada um tem seu jeito de viver e ninguém queira ensinar a viver àquele que viveu preso, boa parte da vida, numa cova.

***

Dizem (os sujeitos ocultos é que dizem) que as gárgulas, um dia, já souberam voar. Que algumas, além de voar, nadam. Mergulham até Atlanta, nas férias, e lá passam o verão, num hotel com piscinas de água aquecida. Dizem que trabalham em turnos, se revezam. Nem tudo é verdade. Algumas gárgulas não passam de felizes proprietárias de um pedaço de gesso, telhado, anjo, exemplar de jornal. Outras: do próprio Jornal. Todas têm visão noturna, isso com certeza! Se fecham os olhos, durante o dia, é para preservar as lentes. Dizem.

 

DESOVA NO MAR

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Curiosidade, de Alegra Catarina

Quem plantar a paz, vai colher amor

Como faz para uma pessoa entender que não queremos mais a amizade dela, porque é impossível confiar na PALAVRA? E ela não é mais que isso: palavra, coisa que você mesmo demorou um tempão para entender. Como faz para que ela entenda que você já não se importa com justificativas, que apenas quer distância e nenhuma parece ser suficiente? Como faz?

Qual a macumba necessária para fazer um amigo nunca mais pensar em você? Se você é escritor, todo dia revela teu pensamento, ele o único que te traduz, como faz para que não o saiba? Criptografa? Porque tudo que NÃO SE QUER é que ele pense que as tuas palavras são para ele direcionadas, e as dele para você, ainda que possa servir algum chapéu.

Passa por cima? Debocha? Manda indiretas? Reincide (ou devolve embrulhado) as grosserias? Rescinde o contrato inexistente? Daí a pessoa entende?

E se estando do outro lado da fronteira, declarada “desserviço”, ela ainda assim sentir o desejo de te remeter, escrevendo baboseiras nas quais você nunca irá acreditar, independente da riqueza do vocabulário, culto e atualizado pela nova revisão ortográfica, típico de quem precisa estabelecer grandezas? (Estudei na Federal, moro no tal lugar, sou amigo do fulano, fiz tal curso, li tal livro, tenho bons antecedentes, e um anel no dedo.). Talvez pretendendo te colocar “no teu devido lugar”?

Como faz para ficar longe de pessoa culpada e inocentada se a defesa você redigiu?

Como faz para obrigar, se não se pode obrigar? E como faz para se “livrar” de inconveniente que nem morto sai de perto, porque grudou em você igual carrapato? Conhece carrapato? Algum já grudou em você para saber como é?

Como faz para nunca mais ser alvo da pessoa?

RESPOSTAS DO PÚBLICO:  1 – Faça dela o teu alvo. 2 – Suma.  3 – Crie uma barreira intransponível. 4 – Lute até sangrar. 5 – Coloque o nome no congelador. (Desculpem eu não acreditar nestas coisas.). 6 – Ligue e esclareça. 7 – Imponha-se benevolente. 8 – Faça como o pessoal da Samarco.

 

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Lotes no céu, de Alegra Catarina

Sei que muita gente morre todo dia. Mas algumas mortes eu gosto de memorar, porque impactam em mim, e gostaria que impactassem no futuro, outra vez que lembrasse. Esta semana faleceu a mulher de um ex-namorado meu. O fígado estourou, levaram para UTI, o bebê já estava morto. Eu nem sabia que ela esperava, apenas ficava feliz quando via o casal por aí. Era moça bonita, olhar meigo. Quem deixou do lado de lá, não sei, mas do lado dele, ele, a filha, ainda enlutados a sogra e o sogro – ele contador respeitado. Pessoas que sempre fizeram tudo da maneira mais correta.

Lembro que namorava quando meu pai construía a casa nova sobre nosso antigo casebre. Não tínhamos outro lugar para ir e vivíamos felizes, uma família de seis, em sessenta metros quadrados, enquanto a casa nova era levantada. Conforme ficava pronta, as paredes velhas eram derrubadas. Era impossível receber um namorado ali e o meu compreendia, encontrava lugares para irmos. Magoou foi quando me deu de presente uma pipa bidê, qual gastou horas confeccionando. A chuva deu um jeito de estragar.

Tudo ficou bem, porém, até hoje, não me cumprimenta – ele é tímido – apesar de o irmão prestar serviços a vários dos meus clientes. Continuo indicando. E fiquei triste em saber da morte repentina da esposa. Muitos amigos comuns também, e se pudesse ia até lá prestar solidariedade. Mas não posso. Cumprimentei o irmão, por todos. Registro, lacrado.

O registro, lacrado, serve para demonstrar o quanto podemos magoar algumas pessoas por coisas pequenas. Ganhar pipa bidê, do namorado, no segundo ano da faculdade, é um tanto surpreendente. Que a pipa sobreviva num casebre sobre o qual está sendo levantada uma casa, também. Não sei onde errei. Ele, em não me olhar nos olhos. Os amigos tomaram partido por razão que ignoro. Encerramo-nos em paz. Eu gostava de outra pessoa com quem casei.

Há milhões de gentes no mundo e cá estou, condolente ao meu ex-namorado. Foram apenas três meses e a melhor lembrança foi estar, com ele, à beira de o rio despencar como “Salto Grande”, a maior das cachoeiras da Rota das Cachoeiras. Foi a única vez que estive neste lugar (olhando de cima pra baixo) e que tenha me levado lá faz dele pessoa qual guardarei com carinho por toda a vida, querendo bem, ainda que não acredite e que eu não possa sequer sorrir sem que se ofenda!

Cá estou a sepultar consigo sua esposa, seus olhos azuis, seu bebê. Que muitos abraços o confortem. As poucas vezes que nos vemos, velhos amigos, são nos velórios dos nossos queridos e ainda que assim seja, este não fala comigo. Gostaria que soubesse que sinto muito, que sofro junto, este pouco tempo de um texto, a dor da sua perda, porque esta moça, de alguma forma, poderia ter sido eu.

Quando estava grávida a primeira vez, outras cinco amigas estavam. Meu filho foi o único que nasceu. Alguns casais amigos nunca puderam ter filhos. Tenho três. Celebram comigo, amargo com elas. E qualquer um que não entenda o sentimento perpétuo não serve para ser meu amigo, ainda que continue sendo, sem merecer, por qualquer coisa boa que tenha feito, como um bidê colorido que ainda lembro.

No dia do sepultamento da moça, minha avó fez 95 anos. Faltei à festa para estar nas das minhas sobrinhas, completavam 4. Estou me censurando por ter escolhido a festa errada para ir! Não sei mesmo quando poderei visitar minhas duas avós tão cedo. Porque alguma coisa sempre acontece. Alguém nasce, morre, casa, separa, viaja, e nunca mais volta.

16 DE FEVEREIRO DE 2002

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Seringueira, de Alegra Catarina

Padim, Padre Ciço, faça chover alegria
Pra que cada gota seja o pão de cada dia

Nesta data, 16 de fevereiro de 2002, publiquei meu primeiro texto. Hoje, por acaso, o encontrei, entre papéis velhos, para mim importantes. Entre eles, a planta original da casa da Dona Erica Endler, que pretendo, algum dia, enquadrar. A casa é minha (metade minha!) agora, e posso colocar nas paredes as relíquias que eu quiser. Até mesmo aquele antigo mapa que dizia (lenda!) que meu pai era dono de 1.154.552,00 m2 de área lá no mato da Moema…

Gosto do número, de como soa dizer: “um milhão de metros quadrados”, nem tanto pela extensão, mas pela quantidade de metros quadrados mesmo. Há vinte anos propunha a meu pai que fosse meu sócio numa plantação de butiá. Ele dava a terra, eu plantava os pés-de-butiá. As antigas palmeiras, beirando cem anos de idade, foram sendo arrancadas, e numa das vezes eu vi os coquinhos revirados brotarem. Mudei uns duzentos brotos para o quintal, cento e oitenta viraram trato de formiga, vinte vingaram, cinco foram replantados lá mesmo, um veio pra minha casa, e até produzir ainda tenho que esperar mais dez anos, os outros distribuímos para quem pedisse.

Se alguém, ainda hoje, estiver disposto a fazer sociedade comigo, para colher butiás em trinta anos, a proposta está de pé. Entra com a terra, eu planto.

Voltemos ao texto. Publicaram como ARTIGO, no jornal Informação, edição nº 1206. Era anunciada a exposição do artista plástico Juarez Machado. “Ele é o mais internacional e mais importante artista catarinense dos últimos tempos”, diziam logo abaixo da sua foto – sorria, devia ser pessoa simpática. Tenho certeza de que teria gostado dele se o tivesse conhecido, e ainda que não tenha visto a exposição, a capa sintetizava nosso encontro: “Beleza plástica”, era o tema da edição.

Mastigo o jornal que celebrava, então, 22 verões. O telefone indicado ainda tinha sete dígitos, o e-mail não existe mais, era vendido a R$ 1,00. O presidente Fernando Henrique Cardoso aparece numa charge, sentado numa poltrona, lendo jornal, e diz, num balão: “O POVO GOSTA MESMO É DE VER A MANGUEIRA ENTRANDO!!”, achei de mal gosto. O jornal que lê anuncia: A MANGUEIRA ENTRA NA AVENIDA E SAI VITORIOSA.

A coluna social traz a foto dos recém casados Solange Drechsler e Rubens Rocha, a madrinha desejando felicidades. Abaixo, Francisco Marques, prefeito de Piên/PR, dizendo apenas isso. Em seguida, foto do ex-prefeito de Campo Alegre, o médico Manuel Del Olmo, dito assim. Ambos bons médicos, e bons prefeitos, ambos reeleitos, justifica porque ainda elegemos médicos para prefeito – na nossa cidade (!). Era sábado, as aulas voltariam ao normal na segunda-feira. O Carnaval passou, sem folia, mantendo a tradição local, como se noticiava.

Nada mais importante, então meu texto, na página dois, concorrendo à leitura. O povo na praia. Estou fazendo charminho mas prometo publicar na íntegra, a seguir, ampliando a chance de que seja lido.

***

Aqui, para ler: O CORAÇÃO JÁ ERA…

E para ouvir, recomendo o Samba Enredo da Mangueira 2016

 

CHORO NOVO

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O gato “Estive”, do Flavinho.

Mamãe eu quero! Pra começar, em 2016, eleger um Prefeito que chora. Depois, um Governador que chora. Mas o que eu quero mesmo, mamãe eu quero!, é um Presidente que chora.

Um Presidente negro, podia ser, para variar, e que chore diante das câmeras de tevê emocionado da lembrança de vinte crianças mortas por um indivíduo armado. Ah, sim, um presidente contra o armamento, mamãe eu quero!

Alguns dizem que as pessoas de bem tem direito de possuir uma arma, pois eu defendo, mamãe, que pessoa de bem não precisa ter arma, a não ser uma espingarda de pressão para atirar em latinhas de cerveja colocadas sobre o palanque da cerca da fazenda.

Quero um Presidente que chore em dia de carnaval, na delegacia, diante da queixa de uma menina de doze anos que foi estuprada por um homem bêbado. Isso para falar em pouca atrocidade.

Um que chore branco no Dia Mundial da Paz, verde no resto do ano, amarelo quando vir que seu povo precisa de um pouco de sol, e azul piscina para pedir aos céus que derramem um pouco de água onde faltar.

Quero um Presidente que chore toda vez que nosso cofre for roubado, quando houver inflação, para incentivar a poupança, ou quando a moeda perder o valor. Um que chore igual mulherzinha, toda vez que souber de arrimo de família sem condições de levar o leite pra casa.

Chore toda vez que uma árvore for cortada, porque não há, não há mesmo, mais nenhuma razão de se cortar árvores, hoje em dia, com tanto lixo por reciclar. Um que recicle boneca que chora.

Falei pouco, mamãe, resumido, rápido, e como sempre sem revisar, mas mamãe eu quero!, um Presidente que chore, tanto, mas tanto, tanto, tanto, que de pranto em pranto seja a fonte nova que restabelecerá o Rio Doce – sei que isso parece estranho, já que a lágrima é salgada.

Quero um Presidente que invente lágrimas doces, pra começo de história.

PIROGUES INJUSTIÇADOS

Fazendo a checagem geral, estava tudo lindo. Perfeito, diria. A sogra da minha irmã escolheu, temperou, assou o pernil. Minha irmã produziu o pinheirinho e embrulhou presentinhos simbólicos, cedeu a casa, fez uma salada espetacular.

O cunhado devia cuidar da música, e como a tarefa fosse fácil coube a ele montar o pula-pula. Alguém podia até pensar que meu cunhado é um cara que não sabe montar um pula-pula, já que levou oito horas para montar, mas em sua defesa outro explicou que este pula-pula em questão é importado, e lá de onde veio as normas de segurança são diferentes das daqui – sabem, uns ferrinhos, uma malha, quatro molas engatadas.

A mais velha das irmãs ficou responsável por encomendar o papai noel para as onze horas, como sempre. Há quatro anos tem o celular dele, que é pontual, tanto na entrada como na saída. Vem e logo vai embora. A demora irrita as renas, e são muitas as fotos que precisa tirar antes da meia-noite. Pessoalmente, acho que meu pai faria o papel bem melhor, mas, apesar da pança, não vem com barba de verdade e isso desqualifica muito papai noel hoje em dia.

Por falar em pança, aconteceu de verdade a piada que minha irmã contou. Estava numa festa com amigos e na mesa havia um destes candidatos a papai noel, ou gestante, o que em tese é a mesma coisa. A camisa parecia que ia estourar. Ele comia e bebia, mais e mais, quando de repente, não um, mas dois botões saltaram até o outro lado da mesa, o que foi muito, muito mesmo engraçado. Desde então, dedica uma homenagem a ele, nas festas, recontando a história em versões diferentes.

Esperei até o dia vinte e três e então perguntei à anfitriã se queria que ajudasse com alguma coisa – tipo cuidar das bebidas das crianças. Fiz menos sucesso que a mouse de chocolate. Não é que não estava boa, o que não combinou foi o pote plástico em que a mana resolveu acomodar. Não tinha maior onde coubessem duas medidas da receita, justificou por escrito, e isso nos renderá cinco minutos de zoação geral ano que vem – ela já sabe o que vai ganhar de presente.

As crianças precisavam sorrir quando alguém dissesse xis, e levantar a mão caso o papai noel perguntasse quem já dorme sozinho – aquele que não levanta a mão não recebe o pacotinho com doces.

Minha mãe cuidou das panquecas e dos pirogues – estou escrevendo como se fala. Aí é que está a grande injustiça do Natal. Claro que há outras piores. Mas, faz quatro décadas, até onde me lembro, que Natal em família tem pirogue. Por garantia minha mãe faz duzentas unidades pro Natal. Contando tios e primos, nesta data devem ser consumidos uns dois mil pirogues na família, e que um raio caia do céu se não for verdade! É uma injustiça que a ‘especialidade da casa’ nunca tenha aparecido na tevê, na ceia da Fátima Bernardes, da Ana Maria Braga, ou do Fantástico, por exemplo.

Mas tem o seguinte, não é aquele pirogue aguado e sem graça que servem em Rio Natal, não. Estamos falando do pirogue da vó, das tias, da minha mãe – receita de família. E por falar em receita, o pai fez o favor de perder a de sorvete de coco queimado há uns dez anos. Mas ano que vem vai ter. Só falta achar a receita. Aquele que encontrar fica responsável por resgatar a tradição.

CRONICLÂNDIA

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Curva desnível, de Alegra Catarina

Fante Helê, o elefante branco, passeava pela Praça do Meio quando foi surpreendido por uma destas estátuas de escritores que começaram a plantar em cada banco de praça do país. Desistiu da caminhada que o levaria até a academia para idosos, onde observava besouros e chupins que ali pousavam, sentou ao lado do convite ao descanso: “ao invés de pichar,  leiam meus livros”. Livre que era, desde que a Lei do Desuso foi publicada, curtiu a brevidade do tempo proseando sozinho, até ouvir tocar a sirene do bico de carga-descarga-refrigeração, que mantinha no circo, no beco da rua, para se auto-sustentar.

***

Orki Idéia, mais conhecida por Penélope, em razão das charmosas unhas, sob as quais já exibira obras de Elizabeth Blackwell, Mary Cassatt, Frida Kahlo, Tarsila do Amaral, justamente nesta última viagem ao Rio, para onde veio morar em definitivo, queixava-se à manicure de ter pego Aids na Europa, em visita no verão passado. Desde então parou de viajar. Agora dedica-se em tempo integral ao ofício de tatuadora de tesouros, atendendo somente em domicilio.

***

Apontador, o aposentado, passava o dia entre velhos pinguins de geladeira, tocos de lápis e rascunhos. Entediado, ofereceu-se para realizar o trabalho com que sonhara a vida inteira: acender e apagar o farol. Dispensado por concurso, passou a ser visto, desde então, subindo e descendo o Morro de Antenas, duas, três vezes por dia. Assim que o sol raiava, baixava o interruptor. Logo que as nuvens o encobriam, ou a noite caía como o próprio queixo diante de moça bonita, acendia o farol. Certa vez, ouviu-se um estrondo, a luz do farol nunca mais apagou. Apontador sumiu no mundo, nenhum marinheiro compareceu ao enterro, nem soube seu nome. O salário continuou a ser depositado, por treze anos. Até que alguém viu.

***

Calendo Apertado nascera dia vinte e nove de fevereiro, normalmente, apesar da cirurgia marcada para o dia dois. A mãe teve vontade de fazer xixi, pediu licença, voltou com o menino nos braços. Calendo fez-se homem azedo e amargurado, quando se soube. Vivia a reclamar dos anos, sempre menores que os outros, encurtados, arredondados, justos, sem margem de negociação.  Até que alguém lhe contou que os nascidos nesta data têm maiores chances de se tornar ‘perfeitos’. Ele entendeu perfeitamente: ‘prefeitos’, e mesmo sem saber da razão, se convenceu. Desde lá, de quatro em quatro anos, sai candidato, o que lhe dá direito ao melhor cargo no Município, independente do partido eleito, dada a terceira melhor votação. Há anos é conhecido por ‘Divisor de Águas’.

***

‘Guarda Dólares’, apelido de crachá do Júlio Cata Dor, sintetiza a tarefa do curador da lixeira, acomodado numa almofada indiana, sobre a mesa do ‘Presidente Internacional da Caça ao Níquel’, Seu Antônimo. A função, exaustivamente discutida na elaboração do Plano de Cargos e Salários, consiste em ler e reler, montando esquemas e quebra-cabeças se preciso, cada papel rasgado ou amassado, depositado ali. Informações consideradas sigilosas devem ser acomodadas o mais fundo possível, no fundo falso; as menos importantes, deixadas à vista, caindo pelas bordas; adesivo deve ser colado fora, indicando a hora, exata, de esvaziar. A instrução veio da terceirização cujo objetivo maior é diminuir custos com a faxineira e a secretária eletrônica, concentradas na mesma pessoa, Júlia Cata Vaegas, moça bem vestida que passa por ali de segunda a terça-feira, às duas.

***

Pára Granizo é destes homens iluminados que pressente a energia acumulada ao seu redor. Também conhecido como O Último dos Pardais, a décadas trabalha numa estrutura dobrável que proteja as diabólicas contra ferrugem e pedras d´água.  Sua inspiração e o calo duro no pescoço, vem de olhar para o céu, do barraco, no alto do morro. Nunca reparou, que não era do tipo invejoso, nas compactas, instaladas nos prédios de toda redondeza. Seu maior sonho é viajar num satélite.

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Bala Jato, o primeiro trem bala a atravessar o país de Norte a Sul às margens da BR 101, projetado na primeira versão do Programa de Aceleração do Crescimento, e transcrito de forma abreviada no Plano Pluri Anual dos últimos dez anos de azar, quanto mais velho fica, mais vai encolhendo. Muitas propostas de pilateiros famosos chegam a ele, atormentando os nervos, com recomendações caríssimas de alongamento, sete vezes por semana, verdadeira tortura. Andava triste, tristinho, até outro dia, quando um especialista finalmente diagnosticou a causa, afirmando: que só viraria realidade, algum dia, se invertidos os pólos. O problema é que seu idealizador, o Msc. Eng. Herdeiro da Estrela Vermelha d´El Brazil, acredita em tudo menos nisso. Gasta os dias vendendo bala nos aeroportos, para passar o tempo, entre uma conexão e outra, tentando levar a vida, honestamente, e uma grana extra que às vezes transporta. “Bala Jato não passa de um sonhador viciado em longas distâncias”, diz, entrevistado.

***

Mause ou Léo, o bondoso homem negro, de cabelos raspados, traz consigo, cultivado de meio século, a velha trança de um careca, transmitida de geração para geração, pendurada atrás da nuca, junto de pesada corrente de outro qualquer e o crucifixo-canivete, cravado junto ao peito. Foi no tédio da manhã ensolarada, lavado de suor, das costas nuas para dentro da bermuda até as partes, que motivou-se a mudar de corte. Sentou na primeira barbearia que viu às margens do córrego de esgoto a céu aberto, bem na hora em que o rato escapava do gato, vindo tropeçar no seu sapato. Ninguém se feriu. Era um sinal. Supersticioso, levantou, seguiu seu caminho, em paz. Foi por um fio.

DICA DE ESTACIONAMENTO PARA O NATAL

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Borboletando, de Alegra Catarina

Se você quiser alguém em quem confiar, confie em si mesmo.

Renato Russo

É cedo e já sabemos das queimadas por todo Brasil, das altas temperaturas, das chuvas torrenciais, dos ventos fortes, e conhecemos as várias espécies de pernilongos que transmitem doenças com sua tecnologia avançadíssima que inclui a aplicação de anestésico, anticoagulante, e qualquer coisa que se pareça com um despistante, já que só nos damos conta da sua presença depois de nos afanarem a amostra do sangue.
Tudo isso parece muito distante de mim, ou de ‘nós’, dito assim, na terceira pessoa do plural, incluindo toda a população da minha cidade. Temos ao menos um terço da cidade (vou confirmar o percentual exato) protegido pela APA (Área de Preservação Ambiental), moramos a cem quilômetros de uma das capitais mais arborizadas (vou confirmar este dado, também) do país. Próximo, para qualquer lado que se olhe, de cidades predominantemente rurais, com boas técnicas de manejo e um ‘plantel’ de técnicos rurais bem equipado, consciente, capacitado. A menos de trinta quilômetros das nossas casas, logo ali, ao pé do morro, temos a Rota das Cachoeiras, com três quilômetros de trilhas contornando o leito do rio, quatorze quedas d´água, área para banho, tudo isso sob mata virgem, qual podemos acessar a qualquer tempo por quinze reais, nos devolvendo a paz que a televisão rouba, dando tanta notícia ruim.
Oras, vivemos numa cidade com uma renda per capta (vou confirmar, só pra ter certeza) melhor que a média dos manés, combinada com a dos pescadores, políticos, presidentes de Conselhos, empresas de saúde, hoteleiros e empreiteiros de Florianópolis.
Certo, vamos combinar que temos, a cento e poucos quilômetros: o Beto Carrerro, o aeroporto, a linda Joinville, as praias de Barra Velha, Piçarras, Penha, isso falando por baixo… A Serra Dona Francisca, recantos, montanhas, cidades que esbanjam beleza com sua arquitetura provinciana restaurada pelo IPHAM, escolas públicas de qualidade, ao menos um gato, um cachorro, uma galinha ou papagaio, um gramado, um jardim com flor, uma casa, um emprego, ou uma atividade de lazer. O padrão é mais ou menos este, exagerando pouco.
Só para não dizerem que não falei – ou não chego neste estacionamento nunca -, temos o comércio mais caro de toda região e: dois carros por família! Somos poluentes, consumimos ferro, carne, muita água para bebida, geramos esgoto, e uma quantidade calculável de lixo, qual reciclamos 2% do total (não preciso confirmar esta estatística).
Então, diante deste quadro, ontem, estacionei meu carro no estacionamento gratuito da Central da Moda, e entrei pagar a parcela 02 de 02, de qualquer bobagem que, não sei porque, comprei em duas parcelas, no final do mês passado. E, para comemorar o fim do ‘carnê’, peguei uma árvore do estacionamento. É porque gosto de plantar árvores no período de Natal. Chove e não preciso ter o cuidado de ver se as raízes estão úmidas o suficiente para ‘pegar’.
Esta é a dica! Se você é um ambientalista nato, como eu, ainda tem meio metro de terreno livre onde pode plantar uma árvore sem incomodar os vizinhos, dá um pulinho ali no estacionamento da Central da Moda e leva consigo uma árvore. As mudas estão aos fundos daquela casinha onde guardam as caixas que vão para reciclagem. São árvores que o Município separou para distribuir em algum evento público, há mais de anos – qualquer coisa parecida com “O dia da árvore” -, sobraram, e foram parar ali. Quem quiser pode levar. Não precisa de autorização do vice-prefeito. Eu mesma estou dando a autorização. Sou cliente do Município há anos… Quem sabe, plantando, um dia destes encontramos uma vaga na sombra, para aquela bicicleta que o papai noel vai trazer. Sapatinhos na janela! Sonhar (ainda) não paga imposto.

DE GRAU EM GRAU

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Faces do anjo, de Alegra Catarina

Há aproximadamente vinte anos atrás, eu muito jovem, precisei auxiliar o socorro de pessoa com insolação. Estava num camping de praia e vi quando a moça da barraca ao lado desceu tomar sol, levando consigo o Cenoura e Bronze e um pedacinho minúsculo de tecido junto ao corpo. Nem uma garrafa d´água, fruta, guarda-sol, nada. Era passado das dez da manhã, eu acabava de retornar. Ela voltou da areia duas horas depois, completamente vermelha, me fazendo lembrar do (não sei onde anda) amigo Pantera Cor de Rosa, que há uma semana curtia a praia do quiosque, pintado de cima abaixo com a pomada da hora.

Já havíamos trocado ‘bom dia’, nos oferecido para trocar metade dos vidros de conservas no almoço, compartilhado o carvão na churrasqueira. Sinceramente, eu não lembrava o nome. Naquele tempo, era mais fácil lembrar: Sidney Sheldon, Shirley Maclayne, Leo Buscaglia, Agatha Christie. Mas o moço lembrou meu nome. E se lembrou, e, educado, interrompeu a leitura, devia ser algo importante. Chamou para “dar uma olhada” na namorada dele, na barraca. Pedi licença, entrei, ela ardia em febre, eu conhecia primeiros socorros. Bom, ‘li num livro’ sobre saúde e doenças sexualmente transmissíveis que vendiam de porta em porta antigamente. Devia dar para o gasto.

A moça delirava e, além da queimadura, parecia estar sofrendo de insolação – salvo tivesse sido mordida por um bicho, na areia, já que não entrou no mar, ou tivesse usado algum ‘estimulante’, me ocorreu. Tinha febre e se queixava de frio, apesar dos trinta graus dentro da barraca. Orientei que a irmã a conduzisse a um banho morno, quase frio. Expliquei com a pouca idade, mas cara de séria, que a água devia ajudar a diminuir a temperatura do corpo, não o contrário. A irmã foi conferir os chuveiros, se algum disponível, e enquanto providenciava toalha e artigos de higiene, orientei o namorado a embeber um pano em álcool e colocar nos pés da moça febril. Fizeram tudo direitinho.

Em seguida devia colocar a roupa mais leve e solta que encontrasse, e imediatamente conduzi-la a um pronto socorro ou posto de saúde próximo. Indiquei onde sabia, tinha um. Lá receitariam uma pomada cor de rosa da hora, que deveria passar na área atingida: o corpo todo. Depois, bastava mantê-la à sombra, hidratada, e se sentisse frio, coberta com um lençol. De preferência desarmar a barraca, juntar as coisas e ir para casa, ou passar ao menos dois dias num hotel até melhorar. Sob a lona sofreria mais, e passar o dia na churrasqueira não parecia adequado, já que lá a maresia era forte e o sol ardia sem tréguas. Fizeram como falei.

A lembrança me ocorreu, primeiro, porque tive dor de cabeça, sábado. E, como nunca mesmo tenho dor de cabeça, quanto tenho é um evento. Já acho que alguma coisa muito grave deve estar acontecendo, que isso dá dois dias antes da morte, que devo me submeter a exames, ser imediatamente levada para cama, e outros exageros. Era insolação.

A temperatura da Terra parece mesmo ter subido um grau deste a última vez que fui num camping, há vinte anos. Ou uns dez graus de sexta para hoje. Não estou me queixando, só comentando. O mundo convencionou, justamente ontem, que, subindo no máximo mais um grau, vai ficar tudo bem. Então, se for à praia, escolha uma onde tenham muitas árvores, leve um bom livro, e anote as dicas:

Caminhada das 6:00 às 8:00; banho de mar das 8:00 às 9:30; ler das 9:30 até às 11:00; preparar o almoço das 11:00 às 13:00; lavar a louça, varrer, tirar o lixo, passar pano molhado, das 13:00 às 14:00; tirar uma soneca das 14:00 às 15:30; fazer sexo gostoso das 15:30 até as 16:15, no máximo; tomar uma ducha e ir para praia, atividades, passeios, até anoitecer ou dar fome, o que vier primeiro. A noite é livre, mas lembra que outro dia tem de acordar cedo pra aproveitar bem a praia. Antes que se passem outros vinte anos.

Pro inferno tem atalhos…

HOJE, UM DIA ENSOLARADO

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Cor de rosa: choque!, de Alegra Catarina

Fossa, para os meninos do Solar, era um vago e ocasional tédio, meio sem explicação…

Hoje aconteceu muita coisa. Tive dor de cabeça, o que é raro, muito raro. E vomitei o queijo que comi ontem, voltando a ficar bem. Hoje juntei seis crianças na grama (descontando meu filho mais velho) e rolou um jogo de bola umas duas horas seguidas. Hoje meu vizinho-pai, duas casas para lá, reclamou do barulho. Moro num lugar onde a média de idade na redondeza está perto dos sessenta anos, onde há uma, no máximo duas, no meu caso extremo, três crianças, para cada casa onde moram dois casais, um da terceira idade. O silêncio é sempre bem vindo na rotina deles. O barulho sempre bem vindo na quebra da minha. Hoje aconteceu de eu limpar o depósito, de meu filho bater a cabeça contra um palanque. Hoje levei meu filho num churrasco, e recusei o convite para fazer rapel na chachoeira porque estava com dor de cabeça. Hoje rolou o amigo secreto entre as mesmas seis meninas do ano passado e uma das minhas amigas está “fora do ar” a vinte e quatro horas o que indica que está… “ocupada de verdade”.

Hoje por acaso assisti o primeiro bloco do Zorra Total e isso é realmente extraordinário. Vi a propaganda da GloboPlay e entendi que aquela brincadeira de “descer para o play” não era comigo. Também entendi a história do “espelho”, e que não era comigo. Descobri que as pessoas andam mesmo assistindo muita televisão,  já que a literatura está esbanjando temas de televisão ultimamente. Talvez eu deva começar a escolher melhor minhas leituras. Hoje comprei um livro ótimo por quinze reais. Juro. Estava num engradado de promoção.  Solar da fossa, de Toninho Vaz (Casa da Palavra, 2011). Uma história boa de se ler. Hoje encontrei um amigo de quem gosto tanto que podia dar um beijo na boca dele no meio do corredor do supermercado, e só rolou o abraço – porque gosto de outro de um jeito bem mais que isso há tempo demais pra estragar. Hoje tive a certeza pela enésima vez que amizade sincera se mede pela ausência de cerimônia e protocolo. A gente vê a pessoa, levanta e vai até lá, o resto pode esperar… E se tivermos que esperar, tudo bem, a gente entende. Também caçoa, zoa, é caçoado, e zoado. “Tá bonito! Dá uma voltinha…” Amigo perdoa até quando lê o que não quer ouvir.

Hoje foi um dia destes em que o sol apareceu, e a noite estava fresquinha para uma caminhada, e tudo correu tão bem que podia durar a madrugada toda e mais alguns dias. Quando o pai do Mateus veio chamá-lo para casa, noite escura já, o Mateus disse: Ah pai, queremos jogar a noite toda! E pensar que abri uma gaveta qualquer para guardar uns cadernos. Vi aquela bolinha amarela, joguei pra eles e disse: Ó, vão brincar de matar. E eles foram, e brincaram de “ameba”, que é quase a mesma coisa, mas não sei as regras. A criança que for acertada com a bolinha fica imobilizada, dependendo que outra a salve. Daí dá ‘timinho’. Hoje as crianças ficaram tão cansadas que nem deram conta. Então o pai do Mateus chamou, e ele tentou negociar. Pedi que parassem um pouco, me dessem a bola, e quando minha menina foi dizer algo, declarei: Se dois pais disseram que o jogo acabou, o jogo acabou. Já estão cansados, vão pro chuveiro, jantar e amanhã vocês brincam de novo – obedeceram de pronto.

Hoje, de igual mesmo, só aquilo que não posso contar porque a discrição, hoje em dia, é um luxo!

O sol voltou pra casa hoje, de passagem.

ENFIM SÓS

Finalmente ambos haviam chegado. Não se sabe onde. A rua não tinha placa indicando. Haviam rodado milhares de quilômetros por estradinhas de chão, grandes avenidas esburacadas, trechos com paralelepípedos desalinhados, e lama.

Entraram no carro, certa manhã, com o tanque cheio e um pouco de dinheiro no porta-luvas. Decidiram rodar até onde o vento os levasse, sem planos. Sempre que um cansava, ao volante, o outro tomava o leme, e enquanto um dormia, o outro decidia o que fazer.

Ao acordar, olhava em volta e seguia o instinto: sempre em frente, até que a rua acabe, depois à direita, ou à esquerda, ou a ré, fosse o caso. Tanto faz o que viria. Estavam rodando em busca de algo desconhecido.

O fim em si era a última gota de combustível. Onde fossem chegar, armariam a barraca, fariam um lanche, finalmente aquele iogurte de morango poderia ser apreciado, finalmente a cesta de frutas e um suco gelado, finalmente um mergulho no mar ou na cachoeira, finalmente olhariam um para o outro a última vez.

Decidiriam no par ou ímpar quem ficaria com o carro, quem assumiria as parcelas, quem continuaria a viagem, quem voltaria ao trabalho. Todas as mágoas tornariam, nesta hora. Lágrimas ainda presas, vazariam. Talvez um último beijo acontecesse.

O fim em si não era tão importante. Decidir tocar adiante, sim. Mas ele disse não. Duas, três, quatro, cinco, dez vezes, até que ela entendeu. Seguiria até a próxima fronteira, e outra, e outra, assim por diante. Visitaria a prima, na “Quinta”, alcançasse.

A causa eterna do maior dos problemas, e do pior dos prazeres, é ter a última palavra. Resolveu acatar, sem lutar, desta vez. Baixou as armas, a bandeira, recolheu nenhum pertence, e esperou, madrugada toda, acordada, quieta, ouvindo a noite passar.

Ele andava cansado.

“Não sou polonês, nem toco piano”, ela pensou, encurralada, fazendo-se referência à ultima cena do filme O Pianista. Seu par terá que matá-la!, ainda que não represente ameaça.

Pensou, mas não disse. Para bom entendedor, um olho basta.